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A arte do discurso

A arte do discurso, quando converge com a afinidade do púlpito, consagra ou reduz a expressão humana. As palavras e a retórica são, assim, uma de nossas formas de distinção perante aos animais. Outras distinções são de ordens mais ou menos especificas. Todavia aqui o que daremos atenção é para ele: o DISCURSO.


Desde os primórdios da humanidade, o discurso esteve em centralidade. Dando um pontapé inicial desse paradigma podemos citar a aristocracia grega. Para esses gregos o que os distinguia era a virtude humana perante aqueles que sabiam louvar a realidade. Isso perpassava por uma noção nobre do discurso, da retórica e do embate. Marginalizava-se assim do núcleo da polis aqueles que não sabiam manusear as palavras. Entretanto, a polis foi considerada um elemento de política radical. Mas, muita calma!


O discurso e o homem público tem costumeiramente seu matrimônio demarcado nessa temporalidade grega. Entre brigas e acertos, podemos citar a fundamentação da pregação no Império Romano - desolado esse pelas invasões mouras e bárbaras. Tempo o qual os sermões transcendentais se proliferariam. Pelo menos até o momento da emergência do Messias, denominado Jesus ou Yeshua, que mudaria a cronologia da história para sempre. Vejam, a importância do discurso dos apóstolos, a força das palavras bem ditas sucumbiriam uma religião pagã dentro da ordem contrária um feito nada pequeno. É disso que o discurso é capaz.


Mas nem tudo são flores. O discurso mal articulado culminou em muitas inflamações sociais suicidas e, abruptamente, imorais. É, sabemos que você já deve ter pensado nele. Hitler era um ótimo discursista - complicado apontar qualidades naquele que se conhecem melhor os defeitos-. Porém, o terceiro Reich conseguiu, através de práticas discursivas, alinhado a uma necessidade material do seu povo, sacudir o mundo de modo radical. A Alemanha entre os anos 1910 e 1930 enfrentava uma das maiores inflações do mundo, com pobreza e devastação geradas pelo fruto da derrota na primeira guerra. Esse contexto entre a fome e o xaveco do cozinheiro edificou Hitler no patamar de maior ‘’vilão’’ da historia. Nada mais justo por todos seus defeitos.


Portanto, podemos citar inúmeros fatos históricos que comprazem à importância do discurso: Malcom X, Fidel, Kennedy, Lenin, dentre outros, utilizavam desse instrumento para a finalidade que seus critérios apontavam. Sendo assim, as palavras e as coisas, além de serem fatos históricos complexos, têm uma deliberação contida de maneira velada. Ou seja, por trás de todo discurso existe uma gênese. E é nesse ponto que aqui aprofundamos a análise.


Hegel, um filosofo idealista alemão que viveu entre o final do século XVII e inicio do XVIII, se preocupava com o espírito e a gênese das coisas. Ele tratava as ‘’coisas’’ como normas e práticas que são dotados para nós com uma certa validade. Nesse exercício de contestação critica, procurava entender o espírito por trás de tudo isso: a capacidade de gênese a qual concede validade ao mundo. Assim, formulou que a condição material possível de experiência é historicamente localizada e situada e que ela se delimita pelo contexto dos processos de metabolismo entre o homem e meio.


E é nessa aproximação que queremos chegar. Os discursos só são possíveis, ou melhor, legíveis, porque instauram em ultima instância uma legitimidade dentro de um arcabouço histórico que os estrutura. Este movimento, esse processo, entre o que se fala e o que se entende, ou melhor ,o que se ‘’compra’’ no sentido figurado de ideias, é a simbiose entre espírito e discurso. E é com esse paradigma que no hoje aqui se pousa.



Recentemente, o presidente Jair Messias Bolsonaro inaugurou em cerimônia da ONU como tradição às solenidades com seu discurso. O episódio despertou espanto da opinião publica. Entenda que as distorções de realidade manifestadas por Messias não evidenciam uma negligência discursiva. Se existe algo a que os discursos não devem é fidelidade à realidade. Fundado nesse principio se consolidou a atividade de coach, mas isso é assunto pra outros ensaios. Voltando ao Messias, ele ali mentiu, isto é, falsificou o real, entretanto convenceu, ora como alguém que mente, convence.


Voltemos a Hegel e sua gênese. Quando o homem se converte em metabolismo com o meio ele produz impressões que são faculdades do possível. Ou seja, elas não são aquilo que é real em si, são validades construídas através de processos. Se se acreditava que a epilepsia é um fardo demoníaco, era porquê, dentro desse arranjo histórico, houve possibilidade que isso fosse legítimo, enfim, as mentiras faladas pelo nosso presidente são possíveis porque se acredita nelas - ou melhor, se desacredita-. Ao transpor a mentira ao plano da validade já se reduz a sua ambição ao absoluto. Isto é, nenhuma verdade é absoluta. Se Bolsonaro mente para uns, para outros ele fala a verdade.


Ao formar esta dicotomia entre o verdadeiro e o falso, Messias consagra seu discurso no plano da validade, transportando um espírito que não é alinhado com os fatos. Entretanto, produz reflexos fatídicos. Não orquestra-se aqui juízo de valor na história algum, como visto para aqueles que manipularam a realidade. É tudo do plano estratégico e usual respondendo conforme as condições possíveis, então por que hoje se mente tanto na presidência da republica? Que espírito devasso é esse que aflorou até mesmo em um chefe de estado?


A motricidade desse espirito falseador que se consolida deve-se ao reflexo das condições materiais desastrosas. Evidentemente que quando a realidade é positiva a mentira deixa de ser evocada. O oposto também se aplica. E isso Messias entendeu. De maneira estratégica ele condiciona nossa atenção ao plano da validade, e isso realmente não é primordial. Em secundário e despercebido, esta inflação, o desemprego crescente, as queimadas e outras mazelas que não dependem de faculdades de interpretação.


Pergunte a um animal queimado ou a uma barriga roncando quem eles escutam, é esse o prisma que se enfrenta com este texto. A propriedade que aqui se confere ao discurso é genética e histórica, ou seja, ele é mutável. Como todo processo, não se deve espantar com seus deslizes ou explosões de maneira tão acintosa. Já as mazelas enfrentadas de maneira espontânea, isto é, naturalística ao ponto de influenciar nossas vidas, fome, queimadas, desemprego, inflação essas sim tem que assumir o plano central de nossas preocupações.


Em outras palavras, o discurso é meio e não fim, instrumento em regra, dele se configura o espírito condicionado pelas possibilidades materiais de experiência. Razões materiais, essas sim, que são o campo de luta, e aqui provocam nossa expansão interpretativa, para além de quem fala, para além de quem escuta.

HEGEL, G. W. F. Fenomenologia do Espírito, I. Trad. br. Paulo Meneses. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992a.


Haron Francelin

Bacharel em Ciências Sociais, graduando em Direito. Fazer voz é observar o tempo, entusiasta das palavras.



Ilustraçao Capa : Uol


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