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A partida

As flores amarelas estão partindo. Há mais delas esparramadas pelo chão do que suspensas na árvore. A visita das abelhas e dos mandruvás já é menos frequente. Os beija-flores insistem um pouco mais, passeiam por entre os galhos até encontrar um punhado delas. Hoje chove no quintal. Os dias ensolarados voltam a perder lugar para o vento gelado do outono. O céu anuncia a chuva desde cedo. Acordei, e tudo já estava meio cinza, meio úmido. O vento faz com que eu perca algumas folhas de papel, que se esvaem ali pela terra. Por volta das duas da tarde, os pássaros começam o piar de alerta. Um alvoroço. Atenta aos sinais, retiro a minha mesa da grama. Pássaros de todos os tipos e tamanhos cruzam o céu rapidamente. Vejo os urubus no seu voo paciente no mesmo ritmo, apesar de toda a água que logo cairia das nuvens. Já tem uns dias que os observo, enquanto esticam as asas imensas de um lado a outro. Um voo lento, curioso. Os pássaros menores voam bem mais abaixo e estão agora preocupados em encontrar abrigo. Noto duas andorinhas pousadas nos fios da rua insistindo no aviso da chuva. Segundos depois, a água chega. As árvores movimentam-se com o vento forte. Os pássaros aquietam-se. As flores amarelas balançam. Ouço o soar do sino da Igreja. As flores sintonizam nesse soar, pendendo de um lado a outro. Outras tantas desapegam-se da árvore, caem pelo chão e ali se acomodam. O frio retorna, trazendo a partida das flores amarelas que, aos poucos, se despedem de mim

09.06.20

Ana Sabadin


Socióloga, doutoranda na UFSCar.  O emaranhado de palavras que trago aqui alivia o cansaço das minhas inquietações com o mundo.



ilustração capa : Ana Sabadin

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