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A pedra no sapatênis do futebol brasileiro

A riqueza de representações linguísticas desenvolvidas historicamente, possibilita a apropriação de recursos de linguagem para descrever/classificar determinados comportamentos e relações sociais


Por este processo a utilização de objetos é apropriado e seu nome (a palavra em questão) torna-se um símbolo, uma marca, cujo significado extrapola sua definição formal, surgindo significantes que sugere e vincula novas relações a essa representação, que são generalizadas no cotidiano.


Neste contexto destaco o sapatênis, que para além de seu significado como calçado, representa atualmente determinados tipos de comportamento, vinculados a interesses políticos/sociais


O sapatênis é o calçado ideal para compor a vestimenta conhecida como esporte fino. Tal vestimenta se caracteriza pelo padrão intermediário, nem tanto formal, nem demasiadamente informal, tendo o sapatênis como um complemento considerado moderado, flexível e principalmente isento e neutro, em sua aparência.


Na última semana um dos grandes representantes do sapatênis no comentarismo futebolista da televisão brasileira, se pronunciou num programa criticando o atual diretor de futebol e ex-jogador do São Paulo Futebol Clube, Raí, que em uma entrevista ao podcast publicado na página do clube no site do Globoesporte, respondeu sobre questões políticas envolvendo o presidente Jair Bolsonaro.


Nosso ilustre sapatênis, em sua crítica, considera que como representante da diretoria de um Clube de Futebol, Raí deveria ter se privado de assumir seu posicionamento. Que nesta posição, se deve tomar cuidado para que as declarações não “respingue” na instituição e que em uma entrevista um diretor de futebol deveria se concentrar em falar sobre futebol e não sobre posicionamentos políticos, o que segundo suas conclusões, não teria acontecido na entrevista, conduzida pelos setoristas Eduardo Rodrigues, Leandro Canônico, Leonardo Lourenço e Marcelo Hazan.


Quando questionado pelo comentarista e ex-jogador de futebol Walter Casagrande, haveria coerência no posicionamento sapatênis? Analisemos.


A entrevista tem 1h25 de duração, as respostas sobre o posicionamento em relação a política se concentram entre 18 e 30 minutos, todo o restante da entrevista consiste em respostas sobre os procedimentos que serão adotados nos treinamentos da equipe de futebol, as possibilidades de retorno das competições, contratos de jogadores, dentre outros temas relacionados às funções da diretoria de futebol. Bem diferente da afirmação de sapatênis, de que houve uma predominância de posicionamentos políticos nas declarações.


As perguntas, feitas pelos jornalistas direcionadas ao Raí - já que outro diretor do clube, Alexandre Pássaro, também era entrevistado - em que houveram as declarações consideradas políticas foram: “Qual a sua opinião pessoal, considerando-se como uma referência para o futebol no mundo, sobre a condução do presidente brasileiro em relação à pandemia do COVID-19?”; “Você é favorável ao processo de Impeachment?”; Como seu irmão Sócrates se posicionaria, considerando o contexto político atual?


Raí respondeu as perguntas demonstrando preocupação com o colapso do sistema público de saúde e com as desigualdades sociais brasileira, recorrendo a dados sobre acesso à água e sobre a efetividade do isolamento social frente à pandemia, defendendo uma redistribuição de renda radical. Classificou o comportamento de Bolsonaro como irresponsável, vendo respostas institucionais eficientes à esse comportamento, mas demonstrando preocupação com o sistema presidencialista. Disse que não se deve investir num processo desgastante de Impeachment, pois a prioridade deve ser as medidas emergenciais de combate à pandemia, mas que se continuar esse quadro de ingovernabilidade, o presidente deve renunciar. Completou projetando que seu irmão Sócrates iria se posicionar de forma até mais contundente e que acompanharia seus posicionamentos.


Como descrito, a entrevista não foi aproveitada pelo entrevistado para colocar seus posicionamentos políticos, como sugerido pela crítica sapatênica. O entrevistado respondeu de forma objetiva as perguntas que se referiam a política nacional. A sugestão de sapatênis é uma padronização do comportamento supostamente isento e neutro? O entrevistado deveria desviar e responder as perguntas de forma evasiva, ao invés de respondê-las de forma objetiva? Aqui está mais do que demonstrado como que o sapatênis não se posiciona de forma clara e coerente, como foi alertado por Casão, que sempre é interrompido pelos sapatênis mais moderados da emissora, quando se posiciona de forma mais contundente.


Um argumento típico de quem acompanha essa ideologia de despolitização do futebol é o jargão, que não possui nenhuma fundamentação, de que a “instituição é maior que qualquer pessoa que a represente”. Seguindo essa lógica, o São Paulo Futebol Clube, ou mesmo o futebol brasileiro, seria “maior” do que a estabilidade democrática do país? A ponto de um diretor ter o dever de ignorar essas questões e se isentar ao tratar do retorno das atividades futebolísticas, em meio à pandemia que leva 400 pessoas a óbito por dia?


Outra questão de coerência a ser colocada é o que significa esse suposto respingo a instituição representada pelo diretor. Seria a exposição midiática, iniciada pelo próprio sapatênis, aproveitando o espaço que ocupa na emissora de maior repercussão no país? Ou, como bem lembrado por Juca Kfouri, seriam os interesses políticos familiares, já que seu pai, Dorival Decoussau, conselheiro do clube, que é declaradamente oposição a atual diretoria e já inclusive, pediu a demissão de Raí, teria interesse direto nessa repercussão?


Talvez pra turma do sapatênis, cujo projeto pessoal de prestígio é alcançar o posto de filósofo de Reality Show, a Democracia Corinthiana seja só mais um apelo ao entretenimento, já que não se deve declarar publicamente suas opiniões, projetos e perspectivas políticas. Assim, este comentarista não precisaria responder ao dilema, quando fosse comentar ou apresentar a histórica participação na redemocratização dos anos 1980, já que sua preferência política por sujeitos saudosistas à tortura, que debocha da população que deveriam representar, podem ser omitidos, para preservar essa imagem neutra, isentona e chulezenta.


No drama do futebol, como conceituado por Roberto DaMata, qualquer manifestação que tire o futebol desse imobilismo, que possa representar qualquer politização necessária, representa uma pedra no caminho do futebol sapatênis.

Lian Guilherme

Bacharel em Ciências Sociais pela UFSCar. Escreve sobre temas relacionados à Política, Sociologia, Antropologia e História. Boleiro, antifascista e comunista.




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