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A República de quintal

A cena é costumeira para a maioria dos leitores. Em um quintal ensolarado em pleno domingo, as crianças brincam em volta da piscina de mil litros, os adultos conversam em torno da churrasqueira de tijolos envoltos pelo barulho difuso de uma caixa de som tocando o Rei Roberto. Na grelha, picanha, linguiça e a tulipinha de frango. Na mesa posta, e com muito capricho, maionese, vinagrete, salsicha na conserva e um bolo de cenoura. No espaço reservado da sala, alguns convidados acompanham o futebol pela televisão


Na regência do festejo estava Odair, portando uma regata laranja que deixava a mostra a concavidade de suas axilas e um óculos grosseiramente espelhado. No controle da churrasqueira, virando a carne com certo desleixo, perguntava o resultado do jogo aos berros e deixava, sempre que possível, uma piada de gosto duvidoso aos entusiastas daquele ambiente esfumaçado. Odair era o que poderia chamar-se de uma pessoa “rústica”. Rústico aqui não assemelha-se ao sentido da beleza de uma igreja barroca das cidades mineiras ou de uma casa de campo colonial. Era rústico como uma janela sasazaki: simples, feia, metálica e barulhenta.


De presença mais discreta encontrava-se Salete, sua esposa, ofertando os comes e bebes aos convidados e incubida da desagradável visita à churrasqueira para abastecer as pessoas. No encargo de tal tarefa, ponderava seu marido de seus excessos: “Odair, não são meio dia e Vossa Excelência já está na sexta lata! Preciso de ajuda com a mesa que está cambaleando…”. “Odair, cuidado ao jogar os meninos na piscina desse jeito! Vai acabar em acidente!”. “Odair, abaixe o som da caixa! A vizinha já reclamou do barulho e está com o pai de cama”. “Odair!”. “Odair!”.“Odair!”. As respostas eram um sorriso cínico de seu marido ou sua total falta de resposta. Tal processo estava visivelmente desgastando-a e somando-se com sua situação, o calor de domingo e o ambiente excessivamente barulhento não colaboraram. Eram casados a muitos anos e tinham filhos crescidos. Estes não cabem maiores detalhes. Resta somente acrescentar que se assemelhavam e muito a figura do pai, reproduzindo quintais parecidos em suas vidas. Salete usava um vestido florido de babado bem leve - como a bata de uma juíza - e um colar de pérolas falsas. Era o que poderia chamar-se de uma pessoa “zelosa”. Entretanto não guardava o zelo de um papa aos seus fiéis ou de uma enfermeira com seus pacientes. Era zelosa como um segurança de casa noturna, preocupado exclusivamente com a “imagem” do estabelecimento.


Em outro ponto do quintal, na extremidade da mesa cambaleante e ao lado da maionese, estava a sogra de Salete, Dona Magda. Esta, por sua vez, acompanhava todo o início e desfecho da ação dos convidados. O quanto comiam e bebiam, seus gestos e expressões. Deleitava-se com essa observação e permanecia estática em sua cadeira, guardando pra si suas reflexões. Viúva e já com uma certa idade, tinha seus longos cabelos brancos presos e usava um óculos “aviador” que cobria seus olhos e parte considerável de sua face. Era uma octogenária “atenta”. Atenta aqui não tem um sentido mais profundo. Era só isso mesmo. “Mais maionese sogra?”. Perguntava Salete com um desânimo evidente. “Obrigado minha filha, já estou confortável. Acho que a mesa vai cair...’. Era a resposta da idosa para quase todos os oferecimentos de sua nora.


Cansada da indagação da sogra sobre o problema da mesa que se perpetuava desde o começo da festividade, a esposa foi em busca de alguns voluntários para resolver o problema. Um calço em sua base ou transferir os quitutes para outro lugar já seriam medidas suficientes. Porém não obteve sucesso. As pessoas estavam ocupadas demais comendo, bebendo, dançando e seguindo suas vidas. Sem escolha, consultou novamente a disponibilidade do marido visitando-o novamente em seu espaço no quintal. Precisou chamá-lo algumas vezes para ganhar sua atenção: “Odair me ajude com a mesa, por favor! Sua mãe está me enchendo a paciência e depois sobra pra mim.” Já visivelmente vermelho como um tomate, Odair finalmente dirigiu a palavra à mulher: “Poxa o Salete! O churrasco não se “faz” sozinho! Aliás, não sou messias de estar em dois lugares ao mesmo tempo. Leve lá a linguiça que já tá saindo mais”. Estavam todas queimadas. Odair voltou para a roda de amigos em volta da churrasqueira.


Exaurida com o tratamento quase maternal dedicado ao marido e não recebendo o auxílio necessário, foi-se sozinha resolver a questão. Retirou toda a mesa - atividade que lhe custou um bom tempo - a toalha, os talheres, os copos, a comida. Porém, ao primeiro toque na base cambaleante bem ao lado onde estava sua sogra, a mesa veio abaixo de maneira tão bulhenta que fez até o Rei Roberto ficar mudo. Pálida e imóvel pela súbita atenção de todos convidados para a sua situação embaraçosa, Salete procurou visualmente seu companheiro a fim de alguma resposta que a socorre-se do episódio constrangedor. Alguma ajuda, podendo ser até mesmo uma de suas piadas furtivas. Porém, Odair não arredou o pé de seu espaço no quintal. Somente estendeu desengonçadamente seus braços em uma tentativa de repreender a atitude da esposa. Tal esforço para um homem vermelho, esfumado e imoderado com tantas opções em sua grelha, o fez desferir um “pum” tão estridentemente alto que deixou os convidados corados, tirando risadas de alguns familiares e apoiadores mais assíduos. Sua mãe, ainda sentada confortavelmente como se nada tivesse acontecido, lançou um olhar de desgosto, mas que ao mesmo tempo, tinha um certo ar de aceitação.


Diante de tamanho descrédito de seus esforços e pelo desrespeito sentido com a situação ali produzida, Salete quase se pôs a chorar. Resignou-se com a lembrança de um homem que outrora a respeitava. Que se talvez não a amasse, era suficientemente carinhoso de levá-la a uma lua de mel na Praia Grande com um Gurgel BR 800 azul piscina emprestado pelo primo. De cortejá-la com passeios esporádicos ao clube Flor de Maio para dançar e comer uma porção de batata frita. De até mesmo desempenhar míseras tarefas domésticas. Esse fluxo de lembranças de outros tempos que se não eram-lhe necessariamente bons pareciam agora minimamente saudosos, foi interrompido pelas palavras de sua sogra, proferidas em um tom bem baixo, audíveis com o silêncio gerado pela situação embaraçosa, trazendo-a de volta para o quintal: “Minha filha, sei que não é fácil. Odair sempre foi muito mimado e aqui faço minha culpa. Sempre foi cabeça dura igual seu pai. Porém acredito que nunca lhe faltou nada a ponto de precisar passar alguma necessidade. Aliás, ele é o pai de seus filhos”. Ao ouvir o “consolo” de sua sogra, mudou repentinamente de assunto. “Acho que o tempo vai virar Dona Magda. Está vendo daí? O céu carregado? Uma chuva agora não seria nada mal...”. Depois, começou a ajeitar a mesa delicadamente - sem a menor pressa - como se aquele quintal não existisse por alguns instantes.


Ao término do churrasco com a vinda de uma chuva fina, o quintal ficou absolutamente vazio. Salete havia terminado a arrumação da louça e aguardava sentada seu marido na meia-luz da copa da cozinha. Dona Magda já estava suficientemente acomodada em um canto da casa no seu último sono. Imperceptível, como sempre. Odair se despedia, com a presença das últimas latas de cerveja, de alguns convidados remanescentes no portão. Ao chegar com um ar desdenhado na cozinha, já em companhia da esposa, se estirou no vão da porta. Não disse uma única palavra com a esposa, bocejou algumas vezes e começou a assoviar uma canção militar. A canção foi rompida por Salete, que naquela altura da noite, já tinha tomado seu banho e vestido o pijama. “Odair, quero que hoje você durma fora de casa. Vou pedir uma única vez”. O ar debochado de seu marido, ainda bêbado e molhado pela garoa, saltou para uma postura agressiva. Parou o assovio, expandiu o volume de seu corpo sobre o vão da porta em que estava debruçado, fitou sua esposa com um olhar direto, dizendo-lhe somente: “Tente”.


Diante da recusa e da ameaça proferida por seu marido, Salete se resignou novamente. Agora a idéia em sua mente era como seria custoso todo o processo para retirá-lo de seu quintal. Não faltava-lhe a coragem necessária, mas pesou muito o preço que representaria para seu aparente “conforto” e de como talvez o quintal ficaria vazio. Depois de um longo silêncio, agora em companhia de uma tempestade, voltou-se para o marido. “Tem café forte no bule, vai curar a bebedeira. Não beba muito que amanhã já é segunda-feira. Temos serviço logo cedo. Tome um banho, pelo amor de Deus!”. Odair retornou para sua postura original e com seu assovio, agora em um tom mais alto. Tomou seu café e passou para sua refeição corriqueira nos últimos tempos, o de comer pão com leite condensado.





Felipe Cará



 Bacharel em Ciências Sociais pela UFSCar. Mestrando no programa de pós em Ciência Política (PPGPol - UFSCar), estuda Reforma Política, Sistemas Partidários e Legislação Eleitoral. Amante de gatos, filmes e gastronomia.






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