No painel de hoje 
Buscar
  • Painel

A VISITA

Semana passada, recebi a visita do beija-flor. Entrou na casa, passou brevemente pela cozinha e resolveu explorar a sala. Enquanto procurava algum jeito de escapar daquela gaiola de concreto, num desespero paciente, pousava no ventilador e no aro das cortinas. Saltava por entre as lâmpadas do lustre. Sobrevoava quase tocando o teto com seu bico esticado. Eu acompanhei o seu voo com os olhos. Não sei se notou a minha presença, mas torci em silêncio para que encontrasse o caminho de volta ao quintal. Dali, partiria para onde as asas quisessem. Encontrei-me presa ao meu concreto ao observar todo o empenho do bicho. Precisava sair do lugar que havia me prendido — não a gaiola de concreto, mas a gaiola da angústia. Feito o beija-flor, arrisquei uma das portas — assim, conduzimos a angústia até o quintal. Ele voou ao longe, seguiu o seu caminho. Eu parei ali no lugar mais longe que um ser sem asas de quarentena poderia alcançar. A angústia dissolvia-se no ar sereno e gelado das manhãs de outono. O velho-novo espaço tornava-se parte do meu cotidiano sem rotina alguma. Passei a ganhar o meu tempo sentindo o tempo do meu quintal — fugindo do tempo do resto do mundo. Vejo beija-flores perambulando entre as pétalas. Presencio a falta de descanso dos galhos, flores e folhas que, além dos beija-flores, recebem pardais, bem-te-vis, andorinhas. Um deles prepara o ninho no galho mais alto. Aos poucos, chegam as borboletas, abelhas, os mandruvás e tantas outras cores que mal sei o nome. Há muitas vidas naquela árvore – outras tantas além da sua própria. Outras se preparando para chegar. Vidas visíveis ou não aos meus olhos. A natureza, emoldurada no pedaço daquele chão, sai da terra e toca ao céu. Reparo nos voos rápidos que cruzam o quintal em menos de um segundo do nosso tempo — voos lentos, altos ou rasteiros. Percebo os encontros, as fugas, os cantos dos pássaros e dos pequenos insetos, os barulhos das suas asas. O percurso das borboletas da árvore florida à mangueira, da mangueira ao pé de romã. As pausas, os piares. O tempo da natureza é outro. É ágil e é paciente. É lento e repetitivo. É novo e incansável. É um constante inconstante. Do tempo da natureza, a gente acha que escapa, mas não. Dentro do meu peito, a angústia se desfaz — ao menos naquele fragmento de tempo no tempo do meu quintal.

Às vidas arrancadas da Floresta em nome do progresso.

Ana Sabadin


Socióloga, doutoranda na UFSCar.  O emaranhado de palavras que trago aqui alivia o cansaço das minhas inquietações com o mundo.



178 visualizações
O que você achou dessa exposição ?
APOIE A NOSSA CAUSA
Deixe uma doação única de R$10
arrow&v
logo painel.jpg
logo painel.jpg