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Abram as cortinas

Não me lembro ao certo quando passei a admirar janelas, muito menos sei o porquê. Quando andava pelas ruas, meu olhar esteve sempre atento a isso. Cada janela com seu fascínio, seus traços e peculiaridades. Vitrais, molduras de ferro, madeira, alumínio, molduras de concreto. Coloridas, pintadas em cores neutras, enferrujadas, de madeira crua. Arredondadas, quadradas, ovais. Com ou sem grades. Com ou sem telas.

Claraboias, tábuas de madeira, ventanas, fenestras, uma abertura quadriculada entre tijolos, uma abertura em meio ao barro batido. Abertas, fechadas, entreabertas. Com cortina em tecido suave que acompanha o ritmo do vento. Sem cortinas. Com cortinas pesadas que parecem reforçar o isolamento, a privacidade, talvez o silêncio que ali se privilegia.

As janelas permitem e impedem o acesso à luz do dia, à água das chuvas, ao pó e à terra que circulam pelo mundo afora. Fechadas, amenizam o barulho dos carros na rua, de gente nas ruas, da gente que está deste lado. Abertas, fazem o contrário. Semiabertas podem ponderar o barulho e o silêncio, a luz e a escuridão, o vazio e a multidão. Um meio termo de um dia terno. De todo modo - e, no fim, - as janelas delimitam e interligam o dentro e o fora. Abertas, fechadas, semiabertas. Intermediam a interação com o lado de fora, com o lado de dentro - a interação que se permite ter, ou não.

Janelas carregam um despertar curioso. Não sei o que está reservado do lado de lá das molduras. Não sei o que todas elas emolduram do lado de cá. Escondem ou escancaram. Tudo depende de quem e o que se observa. Depende de como se observa, do detalhe que capta, até do que escapa. Vistas do lado de dentro, funcionam como uma moldura de algum fragmento da paisagem, da rua, da própria casa, de alguma cena. Algo que apesar de parecer inconstante, não o é. A inconstância é de fora e de dentro. Varia de acordo com a estação, os tempos, a luminosidade ou escuridão. Varia em cores e tons, em cheiros. Mudam a depender da mão de gente que mexeu ali, e o porquê de ter mexido. Do lado de dentro, olhando para fora, a inconstância permanece.

Olhadas do lado de fora, não deixam também de ser moldura. Moldura do que é guardado e preservado ali dentro. Da mesma forma, inconstante. Mudam-se as cenas, as dinâmicas, os ritmos e relações a depender do humor, do dia, das mãos da gente que vive ali. A janela permanece no lugar. São os olhos da casa. Olhos que captam o dentro e o fora. O que mudam são as cenas, de dentro, de fora.

As janelas presenciam as violências, os desesperos e ansiedades. Observam momentos de angústia, de prazer, de pequenas alegrias. Presenciam a exaustão. Emolduram o convívio mais intenso. Emolduram a solidão de estar preso dentro da própria alma. As janelas permitem e captam pequenas fugas. Funcionam feito saídas de emergência. Saídas, ao extremo, desesperadas. Uma passagem para o fim daquela vida. Uma passagem para a queda de um edifício alto. Uma passagem constante de ar, de respiro.

Há quem divida uma única janela. Há quem viva sem janelas. Há quem tenha como janela as grades e as celas. Como paisagem, os vizinhos da cela da frente. Há quem tenha como paisagem os fragmentos das estradas emoldurados pelas janelas dos ônibus, pelas janelas dos caminhões. Fragmentos inconstantes. Já nas UTIs, nada se movimenta do lado de fora. Não há janelas ao alcance dos olhos. Do lado de dentro, há solidão, isolamento, esperança, desespero.

Nos últimos meses, as janelas parecem ser mais notadas. São mais observadas. Continuam, elas mesmas, observando. São vistas como escape. Seguem escancarando inconstâncias. Velhas e desgastadas inconstâncias, por agora, mais notadas. Permitem observar os ritmos mais intensos e tensos da rua. Escancaram ares de medo, de descaso. Ares de zombaria e ignorância. Um desacelero acelerado do lado de fora.

Pessoas na rua aflitas, atônicas. Pessoas na rua em negação. Pessoas na rua despreocupadas, abraçadas com seus egoísmos. Pessoas na rua por necessidade. Pessoas na luta contra a fome, fugindo dela. Em contraste, na contramão, as passeatas em meio ao isolamento. Pessoas na rua querendo estar ali. Outras tantas não. Gente que só queria se emoldurar do lado de dentro das janelas - e não pode. Outras sequer têm janelas para se esquivar. Suas únicas molduras são os próprios olhos, seu abrigo é o próprio corpo.

Janelas de madeira, de ferro, alumínio, de vidro ou de alma. Janelas que, de muitas formas, presenciam espetáculos. Tornam-se palco de violinos, vozes, violões. De panelaços, de amparo, de aplausos. Janelas que permitem presenciar um respiro ao acender um cigarro. Janelas que permitem contemplar o externo, temer o externo. Permitem ver a vida passar, ouvir a banda passar naquela rua vazia. Presenciam repulsa, tristeza. Presenciam tragédias imensuráveis. Permitem ver o soar das sirenes, ouvir o caos expresso pelo silêncio. Ver a tropa de caminhões que carregam vidas levadas embora. Vida que passa, morte que pousa rápida e assustadoramente. Centenas de uma vez em um só país. Milhares pelas ruas do mundo. Vida que se lamenta. Perdas infinitas escancaradas através das cortinas abertas do mundo. Abertas das janelas - das janelas dos olhos.

Abro as cortinas enquanto há tempo de ver a vida passar pela janela. Quero poder voltar a ver as janelas do lado de fora. Quero poder voltar a ver outras janelas do lado de dentro. Vitrais, molduras de ferro, madeira, alumínio, molduras de concreto. Coloridas, pintadas em cores neutras, enferrujadas, de madeira crua. Arredondadas, quadradas, ovais. Com ou sem grades. Com ou sem telas. Com tecidos ou pálpebras. Abram as cortinas ou a constância é de ver vidas indo embora. Quero poder voltar a ver as janelas do lado de fora com a certeza de que a vida passa, mas não em virtude de tamanha ignorância.

Ana Sabadin

Socióloga, doutoranda na UFSCar. 

O emaranhado de palavras que trago aqui alivia o cansaço das minhas inquietações com o mundo.




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