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Ano de Eleição.

Pode parecer trágico ou cômico, mas em ano eleitoral eu cansei de ouvir a pergunta “Em quem eu voto?”. Para além de críticas a um possível desinteresse da população sobre política e superando a crenças simplistas de que “político é tudo igual”, resolvi escrever um texto com características digamos “instrumentais”, apontando conceitos que considero importantes como ponto de partida para escolhas políticas. Espero que tais considerações auxiliem na definição das preferências eleitorais, porém, já destaco de antemão: eleição é apenas um momento da política. Suas causas, consequências e efeitos estão associadas às construções múltiplas e diárias.


Em uma bela tarde de sábado, após período de ócio criativo para escrita, ouvi um conselho de minha adorável irmã (colaboradora eventual deste site): por que você não escreve sobre a eleição? Um cientista político não poderia auxiliar na definição do voto?


Naturalmente essa não é atribuição da Ciência Política. Tal disciplina, enquanto ciência, está inserida no campo de estudo das Ciências Sociais e busca desenvolver pesquisas através de análises históricas, sistêmicas ou estruturais, estabelecendo inferências sobre fatos que envolvem grupos de poder, sistemas políticos, entre outros. Fora da academia, o cientista político acaba atuando, majoritariamente, em estratégias eleitorais ou no planejamento e avaliação de políticas públicas.


Mesmo assim, essa definição foi particularmente importante para estabelecer limites e alcances deste campo de conhecimento em minha vida. Inicialmente, para contextualizar a crise identitária causada pelas perguntas de minha adorável irmã (eu a amo, é sério!) e, posteriormente, para raciocinar onde poderia auxiliar em tais questões. É fato, que acredito muito no poder da difusão do conhecimento como artificio de construção, mas se tratando de política são necessários cuidados. O voto em si não segue lógicas congeladas e pré-existentes, sendo ele relacionados a motivos múltiplos.


O próprio estudo do comportamento eleitoral na Ciência Política, estabelece várias vertentes sobre a escolha do voto. Rapidamente consigo me lembrar das vertentes de estudo como a sociológica, que analisa o voto de forma coletiva pelas percepções sociais de determinado grupo; o modelo psico-sociológico, no qual o voto é produto das interações e atitudes do sujeito frente às suas experiências sociais e políticas; e o modelo racional, no qual o indivíduo isoladamente toma decisões de modo a garantir o melhor “ganho” possível. Não vou me aprofundar; meu objetivo de hoje é estabelecer considerações para que as preferências políticas sejam aproximadas as escolhas eleitorais.


Seria muita prepotência de minha parte querer “auxiliar” alguém a votar melhor ou corretamente. Além de não acreditar em uma lógica binária de “voto bom” e “voto ruim”, a eleição em si se relaciona muito mais a eventos múltiplos de caraterística social e econômica, do que qualquer razão isolada de resultado político. Definir preferências prévias e associá-las à decisão eleitoral, talvez seja a melhor forma de traduzir vontades em votos, porém, há um longo caminho, nem sempre objetivo a essa conclusão.


Além de estar relacionado a valores subjetivos, o voto pode se apegar às razões de justificativa pré-existentes na qual eu escolho os candidatos A, B ou C por múltiplos motivos e depois tento racionalizar seus argumentos (tipo votos em ex-jogadores). Não que tais personagens não possam ser ótimos políticos, porém, ao tentar aproximar preferências puramente emocionais as razões lógicas, posso ignorar outros valores ou acabar reduzindo a política a um campo individualizado, que ignora ideologias, culturas, grupos sociais e negociações de poder. A política não é individual. As escolhas podem até possuir caráter individual, mas construções e consequências são coletivas.


Então, vamos aos pontos conceituais:

1ª - A política não é neutra. Ideologia faz parte de seus fundamentos. - A definição de política elimina aspectos de neutralidade. Quando tratamos de relação de poder, estamos considerando a existência de interesses. Onde há interesses, não há isenção. Política é ideológica, ou seja, ela defende valores intrínsecos as suas ações. Logo afasta-se dos discursos de “não tenho partidos”. Estar na política é fazer escolhas, defendendo causas e desejando objetivos. E não há nada de errado nisso. O errado é tentar esconder este princípio relatando defesas imparciais ou que possuem independência de valores. Esse pressuposto é fundamental, pois desencadeia outros.


2ª - Política não se resume a escolha técnica - Por ser ideológica, qualquer tentativa de redução ou simplificação da política como escolhas puramente “técnicas” se relacionam a tentativa de esconder os valores inseridos nela. Nesse caso, política e gestão não são sinônimos. Não que não haja aspectos administrativos que são importantes na gerência do Estado, porém, a redução de política como técnica ignora seus princípios de definição de recursos, ações e possibilidades influenciadas por interesses valorativos.


3ª - Importância da Representação - não que a democracia representativa seja uma forma pura de soberania popular, pelo contrário, ela repassa poderes de escolha e execução a determinados grupos de poder (elite). Porém, sendo a forma atual e passível de organização, é muito importante que os representantes políticos se manifestem, como figuras expressivas dos valores culturais e sociais da população. Por isso, há necessidade, por exemplo, de um maior número de mulheres na política institucional em cargos do Executivo e Legislativo. Há obrigação coletiva para correções de arbitrariedades históricas, mas essa se realiza não apenas pelo discurso, como também pelo exemplo e ocupação de espaços de poder. E se você acredita que, independente do sexo, vale a “competência”, reveja os pontos 1 e 2.


4ª - Não menosprezar o poder individual e efeito coletivo do voto - Embora existam outros espaços de participação a política institucional, a eleição é o momento maior (infelizmente) de participação popular consolidada em nosso modelo político. Dessa forma, não menospreze os efeitos de sua escolha por consequências individuais e coletivas. Abdicar ou desprezar o direito de escolha é uma possibilidade, mas ela não abstém ninguém do efeito das escolhas dos outros.


5ª – Não Acredite em messias - Apesar do trocadilho avançado, a ideia de candidatos com poderes messiânicos não é nova e costuma ser criada em contextos de crise. Define-se um único modo de auxílio a determinado grupo pelas atribuições de determinado “cuidador”. Isso é utilizado inclusive por candidatos locais para conquista ou manutenção de poder. A ideia do político como “Salvador” se relaciona a princípios simplistas de combate as “ figuras malignas” pouco definidas e unificadas. Assim só o Candidato X pode nos amparar. Esta defesa esconde e simplifica interesses intrínsecos as escolhas políticas.


Futuramente escreverei sobre a parte “mecânica” do sistema político nacional, mas penso que os conceitos apresentados até então, podem auxiliar na reflexão da importância das escolhas eleitorais e futuras construções políticas para além de 15 de novembro. Como falei em outro texto, o tal do “eu avisei” defendido como bandeira no momento posterior as eleições me parece se constituir muito mais como ferramentas de revanchismo do que como elemento de construção para pleitos posteriores. Falemos sobre eleição, mas também sobre os outros elementos que compõe a política.


Heythor S. Oliveira


Cientista Social (UFSCar), Mestre em Ciência Política (UFSCar)  e especialista em gestão pública municipal (Unifesp). Trabalhador do SUAS e morador da Zona Sul da capital paulista. Falo sobre politica e assuntos diversos . Tentando acreditar em um mundo melhor, me ajudem.

ilustraçao capa : Estadao


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