No painel de hoje 
Buscar
  • Painel

Caminho Interrompido

As gotas caem no chão da manhã, o asfalto reflete a agua, transmitindo para o ambiente um odor de frescor, natural nos dias chuvosos. O vento acentua o frio de maneira a provocar sutis assobios nas dobras das esquinas, exercício corriqueiro que se perpetua no tempo. Parado no cenário, um rapaz negro de media altura, careca, de porte físico franzino amparado no ferro do ponto de ônibus. Com uma blusa grossa, uma calça jeans e uma sapato de bico de ferro, conhecido popularmente como ‘’ botinão’’. O rapaz segura em uma das mãos um saco plástico entrelaço com um nó. Dentro dele, uma marmita de plastico em temperatura morna, preenchida com arroz, feijão, ovo e um pedaço de carne de porco, preparados religiosamente pela sua mãe todo dia antes mesmo do cantar do galo.


Sucumbindo ao frio, ele abriga a outra mão no bolso da jaqueta e espera o ônibus uma das duas conduções que o leva ao trabalho, O ponto está vazio, não é comum. Às vezes, acontece principalmente, em manhãs geladas assim. Ele permanece ali e, vez ou outra, manuseia o celular para abstrair o tempo.


Enfim o ônibus chega. Com um bom dia cordial, cumprimenta o motorista, passa o cartão de passe, pergunta do time e do tempo. Pega sempre a mesma linha, no mesmo horário. Já tem um vínculo com o motorista, a situação de classe fizera deles singelos colegas. Procura um lugar pra sentar, sabe que em poucos minutos essa possibilidade não será fácil assim.


Senta no fim do ônibus, como de costume, no lado direito perto da janela. A janela gelada retém o vapor que sai da boca, e ele se distrai ali por alguns segundos. Novamente, manuseia o celular, enquanto outros passageiros adentram no ônibus, trabalhadores em sua maioria. Alguns idosos ao lado do motorista. A condução começa a encher, o calor humano, de certo modo aquece. O odor e os bocejos são característicos da rotina


Já com bastante gente, o ônibus começa a abrigar pessoas em pé de todo jeito segurando nas cadeiras e apoiando-se nos ferros. Pessoas ancoradas de todas as maneiras para não cair. O treme-treme começa a fazer com que elas se encostem de forma involuntária e no percurso elas se concentram. Na eminência de descer, levanta-se, desvia das pessoas com a sutileza necessária. Bradando palavras educadas, desce pelas escadas de ferro do ônibus, seguindo para o caminho do segundo ponto. O sol já aquece de algum modo os seus passos, e, às vezes, frestas de luminosidade encontram seus olhos, gerando uma sensação de ardência.


O segundo ponto já está cheio. Vendedores informais, vendedores de loteria, e o ritmo do dia já começam a ecoar na dança do povo. Uma injeção de ânimo se evidencia ali. Adentra ao segundo ônibus, passa seu cartão de passe. Já não há lugar para se sentar. A aglomeração do ônibus faz com que ele se reserve a um pequeno espaço em pé. Com o sol crescente, a aglomeração provoca uma sensação de calor, quis tirar a blusa, mas a restrição de movimentos o impediu. O treme - treme do ônibus nas imperfeições do asfalto continua. Dentro de alguns minutos, no mesmo ritual, desprende-se da massa e desce do ônibus, pulando de uma poça de água entre o meio fio e o último degrau.


Seu percurso ao destino está quase ao fim. Necessita de apenas mais um esforço de caminhada. Passo a passo vai adentrando nas ruas e vielas centrais, tira a blusa e a segura em uma das mãos, na outra o saco plástico com a boia. Em contraposição ao caminhar objetivo, um homem em alta velocidade dobra a esquina, distraído pelo tempo e desespero não se veem e se chocam ambos caem no chão. A blusa, a sacola, e uma bolsa de couro italiano espalham-se em uma implosão do atrito dos dois. O choque e a força fazem com que eles permaneçam no chão abatidos.


Atrás desse evento de colisao dois oficiais da polícia fazem uma ronda rotineira quando são chamados por uma transeunte, que grita pela subtração de um bem , apontando para os homens da lei a direção do transgressor. Os oficiais se empenham na procura do infrator, ligam a sirene das motos e aceleram. Tornam a esquina e, para surpresa, encontram uma situação inusitada: dois homens desacordados, uma marmita espalhada pelo chão, uma blusa, e uma bolsa de couro italiano jogado ao relento.


Cercam ambos, o barulho da sirene somada à luz vermelha os acorda. Os policiais altivos e prepotentes, gritam para que eles permaneçam no chão. Na relutância de não chegar atrasado no trabalho e na substancia da inocência , o rapaz se levanta, tenta uma explicação em vão, é amordaçado pela força física de um dos policiais e levado para a outra extremidade da rua por essa mesma força. Reluta em vão pela verdade, ninguém o escuta .


O outro recolhe como não se importar os objetos do chão. O fugitivo, de pele clara tonalizada pela exposição ao sol, olhos castanhos, alto e com os cabelos cacheados, permanece calado, observando toda a cena. Discretamente senta-se e é indagado pelo policial que está de pé. sobre seu destino e se está machucado. O jovem diz que esta tudo bem e que não conhecera o outro rapaz.


O policial, sem nenhuma suspeição o libera, pedindo desculpas pela abordagem. Espantosamente ainda o entrega a blusa que não era dele. Conta-lhe sobre o fato, o furto e se despede do próprio fugitivo de maneira inofensiva. Já na outra extremidade, a tortura se acentua sem chance de proferir defesa. Socos e chutes na incumbência de uma suposta confissão, proferida por palavras como “confessa”, “perdeu”, “a casa caiu”.


O outro policial atravessa a rua com uma naturalidade pacífica. Ao lado de seu parceiro, observa sem nenhum remorso e ressentimento a cena. As pessoas se afastam da ocorrência. A agressividade aumenta em sintonia às negações sussurrantes do rapaz. Cansados de esperar e efetivos na audácia, a dupla o apaga com um golpe de asfixia. Por aqui chega...


Confusões policiais acontecem todo dia, não é mesmo? Não. Não se trata de confusão e nem de escolha entre corpos desacordados. Trata-se do racismo, presente na corporação. O contraditório e a chance de ser escutado não são levados em conta em muitas abordagens. Essa é a premissa em questão, bate depois pergunta, é evidente que existe uma prática doméstica racista naturalizada nas atitudes policiais.


Trilhando seu caminho, ferido de muitas formas, em busca do ganham pão, o rapaz ainda tem que encontrar mais entraves pela cor de pele. É constrangedor que ainda temos que fomentar discussões como essas. Constrangedor, mas é mais do que necessário . O racismo é estruturado nos detalhes do nosso cotidiano. As permissibilidades que certos corpos tem em espaços e outros não, a descriminação corporativa, a falta de voz e escuta, são elementos que compõe esse enredo.


Ultimamente essa suplica se tornou mais potencializada devido a evidencia de arbitrariedades policias como no caso do americano George Floyd nos Estados unidos morto clamando pela vida em plena luz do dia e, do menino Joao Pedro no Rio de Janeiro alvejado por três tiros de fuzil.


Me afasto aqui do lugar de fala que não é o meu, entretanto ressalvo que devemos todos expor de maneira clara nossas criticas sobretudo aquelas que semeiam a justiça, o monopólio excessivo e racista de força do estado tem que acabar.





Haron Francelin


Bacharel em Ciências Sociais, graduando em Direito. Fazer voz é observar o tempo, entusiasta das palavras.





117 visualizações
O que você achou dessa exposição ?
APOIE A NOSSA CAUSA
Deixe uma doação única de R$10
arrow&v
logo painel.jpg
logo painel.jpg