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Das migalhas que recebem

Dedico à minha mãe, responsável por me introduzir ao pensamento crítico

E à minha amada companheira, mãe dos meus filhos, mulher guerreira por quem me apaixono diariamente



Passado o dia das mães com aquela típica mistura de sentimentos proporcionada por essas datas comemorativas: reconhecimento, satisfação, arrependimentos, saudade (termo popular na língua portuguesa, que curiosamente não se encontra tradução em outros idiomas), dentre outros que caracterizam essas comemorações, me proponho a refletir sobre essa referência que é muito significativa na formação pessoal e social.


Para além das distorções sentimentais e apelo ao consumo das datas comemorativas, o conceito de mãe é difundido e vivenciado como uma entidade, a pessoa a quem devemos nossas vidas, nossa criação, acolhimento, identidade moral, conquistas pessoais… Talvez possamos considerar que este processo opera com mais intensidade dependendo da formação cultural, como no Estado da Bahia, em que mainha é intocável.


Essas características materializam a posição da mulher de acordo com a divisão do trabalho e estrutura social determinada historicamente, já que às mulheres cabe gerar herdeiros, bem como os cuidados domésticos e submissão a seu cônjuge, encarregado dos assuntos públicos e provedor das condições de vida e reprodução humana. Essa estrutura é sustentada pelo patriarcado e é reforçada em datas comemorativas, como em nosso dia das mães, como se o mercado pudesse oferecer as melhores recompensas para os sacrifícios e opressões que acompanham as trajetórias maternas. Assim, pode-se inclusive, reivindicar algum biscoito por ter cozinhado para sua mãe, bem como para mãe de seus filhos, nesta data, exaltando-se pelo heroísmo praticado de forma egóica. Mas como é de conhecimento público, a exceção confirma a regra e qualquer ação individualista em datas específicas não é suficiente para superar opressões sociais históricas. Particularmente, sinto uma melancolia ao constatar como se oferece migalhas a quem merece o paraíso.


A concepção de mãe, considerando a estrutura patriarcal, corresponde ao conceito de família como unidade ou núcleo familiar, cuja gênese histórica é definida na obra: A Origem do estado, da Família e da Propriedade Privada, publicada em 1885 por Friedrich Engels, baseado em anotações de Karl Marx, que morrera no ano anterior, em 1891 Engels publicou a quarta edição revisada. A obra corresponde ao contexto histórico de meados do séc. XIX em que pensadores estavam discutindo as origens da formação da família, ocorrendo registros antropológicos que desmentiam a concepção bíblica de que a monogamia patriarcal determina sua origem desde sempre.


As publicações de Morgan e Bachofen, à que Marx se debruçou, relatam descobertas referentes a mais de 4.000 anos e retratam como em organizações sociais consideradas primitivas a mulher era considerada como referência “pública”, com ascensão política e social reconhecida. Por isso, se referiam a essas organizações como determinadas pelo matriarcado. Marx e Engels, analisando esses estudos, definem o processo de transição do matriarcado para o patriarcado monogâmico - em que os homens assumiram esse protagonismo social e político, garantindo o direito de herança a seus descendentes, criando as condições para a propriedade privada, com a definição das unidades familiares lideradas pelos homens, bem como a restrição das mulheres à função reprodutora monogâmica - como sendo o primeiro antagonismo histórico de luta de classes, em que as mulheres saem prejudicadas. Estudos mais atuais vão demonstrar que a generalização do matriarcado como determinante nas organizações consideradas primitivas foram precipitadas, já que haviam variadas manifestações que se diferenciavam das relatadas nas descobertas, porém é inegável que a consolidação do patriarcado monogâmico está localizado historicamente e sua constituição é a gênese da submissão e opressões de gênero relegadas às mulheres.


As opressões vividas pelas mulheres considerando as concepções de maternidade, família e divisão do social do trabalho se expressam de forma cada vez mais complexa e diversificada quando relacionada à diversidade de gênero, sexualidade, relacionamentos abusivos, racismo estrutural, sobrecarga emocional e produtiva, dentre outras. Tais problemáticas correspondem ao desenvolvimento histórico do Patriarcado, se manifestando de acordo com os contextos materiais e históricos e variando de acordo com as classes sociais. Este cenário está muito bem representado na adaptação para o cinema, dirigida por Karim Aïunouz, da obra A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha.


No enredo, Eurídice se separa de sua irmã, por quem é muito apegada, após a irmã viajar escondida para Grécia com um homem com quem se relacionava. Sua irmã volta à casa de seus pais desacompanhada e é rejeitada pelo pai por estar grávida. Eurídice havia se casado e já não residia com os pais no momento do reencontro. Os pais escondem de Eurídice o retorno de sua irmã, que pensa que Eurídice está no Conservatório em Viena. A narrativa avança com as duas residentes na cidade do Rio Janeiro, com ambas pensando estarem a milhares de kilómetros. Enquanto Eurídice, que mantém o vínculo com seu núcleo familiar e se constitui em condições sociais típicas da classe média em seu matrimônio, vive seus dilemas referentes ao medo de engravidar e ter que abandonar seus planos, repressão da sexualidade e assédio moral matrimonial. Enquanto sua irmã, abandonada pela família e sem nenhuma estrutura financeira, vive dramas como a possibilidade de abandono do filho, abuso sexual e moral no trabalho, dificuldade com relacionamentos amorosos. Um momento de destaque da trama é o vínculo da irmã de Eurídice com a “mãe preta”, que cuida das crianças da comunidade quando as mães solteiras precisam dessa ajuda, sendo que o destino mais comum à essas mulheres é caracterizado pela solidão.


Parêntese aberto, nunca é demais valorizar as referências artísticas brasileiras, que possibilita uma reflexão crítica da nossa realidade. Ainda mais quando a politica institucional da cultura no Brasil está representada pela decadência estética.. A cultura do palhaço peidando talco sustenta um projeto de domesticação das mulheres, em que as mães têm a missão de criar machos intransigentes, mimados e opressores, recorrendo ao fundamentalismo religioso e falso patriotismo (já que não dá pra considerar patriota a exaltação dos símbolos estadunidense) como suporte. Nesta lógica, o dia das mães é perfeito, já que essa domesticação pode ser enaltecida, associada ao apelo mercadológico para limpar a consciência pelos sacrifícios maternos.


A consciência crítica sobre a gênese histórica do conceito de família e maternidade, que se constitui em opressões cotidianas vivenciadas, não impede que tenhamos um feliz dia das mães, com comilança, carinho, reconhecimento e presentes. Mas é conveniente constatar, como bem lembrado pela minha querida irmã em suas mídias sociais, que o reforço das condições maternas de submissão não é produtivo, já que o que projetamos são relações em que as mulheres não sejam obrigadas a abrir mão de seus sonhos e projetos para que seja domesticada pelo patriarcado e recebam suas migalhas em datas específicas. A publicação de minha irmã segue sugerindo que o que as mães mais precisam é de orgasmos múltiplos e cachacinha, impossível discordar, só acrescentaria - para efeito de conclusão desse escrito, já que certamente minha irmã já tem essa consciência - a necessidade de superação da estrutura que as subestimam e consequente emancipação das opressões históricas a que estão submetidas.


Mais orgasmos múltiplos e cachaça para nossas mães e menos migalhas ressentidas.

Lian Guilherme


Bacharel em Ciências Sociais pela UFSCar. Escreve sobre temas relacionados à Política, Sociologia, Antropologia e História. Boleiro, antifascista e comunista.




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