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Falando das flores

A Esmeraldos, Emílias, Limas e Flávios.



Não vivi durante a ditadura. Nasci depois, no ano do impeachment de Collor. Não vivi, mas convivo com as memórias de quem viveu a vida atravessada e marcada por ela. Arrisco a dizer: convivi e convivo ao menos com aquelas lembranças que conseguiram me contar. Outras tantas, eu mesma tentei reconstruir juntando os cacos.


Leio livros que foram censurados durante a ditadura e tantos outros sobre ela que vieram depois. Ouço Chico, Gil, Gal, Caetano, Elis... Algo sobrou de tudo ali. Sempre sobra. Talvez eu tenha carregado um pouco disso em mim - o suficiente para não querer viver o que viveram, nem ver o que viram tão de perto. Talvez toda gente carregue um pouco disso em si - talvez nem tão pouco assim. Basta enxergar.


Meus pais cantaram juntos “Pra não dizer que não falei das flores” por esses dias na sala de casa. Disseram-me que os operários da fábrica do ABC - onde trabalhavam nos anos 1980 - sempre caminhavam com ela. Dentre esses operários, estava o meu avô, pai de minha mãe. Lembro-me dele e do seu silêncio. Não tive muito tempo para ouvir toda sua história - contada por ele mesmo. Também não o ouvi cantar essa música. Ouvi poucas outras. Sei que nasceu em Pernambuco. Morou no Rio de Janeiro, depois São Paulo - na cidade São Caetano do Sul, onde nasci. Foi engraxate e operário. Carregou Lula na luta, no coração, nas urnas.


Lembro-me do seu cabelo preto brilhante, do bigode ajeitado, das camisas azuis, do Luiz Gonzaga, de seus óculos grandes e que gostava de bolachas de coco. Lembro-me sempre do seu silêncio e das nossas idas ao correio. Meu vô Mera sempre escrevia a sua mãe, a bisa Emília. Eu nunca a conheci pessoalmente. Ela morava em Caruaru, Pernambuco - outro lugar que só conheço pelas andanças dos outros.


Às vezes, meu avô mostrava fotos e as mensagens que recebia de volta. Assim, conheci minha bisavó, pelas linhas narradas de suas cartas. Meu avô faleceu há vinte anos, eu tinha quase oito. Perdi a conta de quanto tempo a bisa faleceu, só me lembro que foi depois de meu avô. Talvez essas cartas ainda estejam guardadas em algumas gavetas em Caruaru e São Caetano. Talvez. Saber mesmo, eu sei que estão guardadas no emaranhado das minhas lembranças da infância.


Por esses dias, vi a mensagem que Lima Duarte deixou a Flávio Migliaccio. Meu avô, se estivesse vivo, ainda teria menos idade que os dois. A bisa um tanto a mais. Pensei em tudo o que me foi dito sobre e pelo meu avô e também o que não foi - porque não era preciso, só bastava enxergar. Os anos de operário durante a ditadura estavam ali, guardados em seu silêncio. Assim como a vida em Pernambuco, guardada nas músicas em que ouvia e cantava. Tudo virou palavra em carta e palavra cantada. Apesar dessas palavras, havia um silêncio que se arrastou no tempo. Silêncio que chegou, também, a mim. Chegou em forma de palavra lida, palavra cantada, palavra não falada.


Também por esses dias - não sei dizer se por acaso ou coincidência - reli um livro da infância. Dele, recorto este trecho:


— “[...] as pessoas velhas muitas vezes parecem ter os bolsos cheios de tempo. Cuidadosamente guardam cada minuto, cada hora e cada dia de sua existência, como outros colecionam quadros, porcelanas e móveis”. ¹


Penso que a mensagem de Lima denunciou o peso do bolso cheio de Flávio, que transbordou. O do meu avô desfez-se pelo caminho. O bolso de Lima continua carregado de lembranças de um tempo que gostaria de esquecer - e, mais ainda, que gostaria de não encarar fora do seu próprio bolso. No bolso de Flávio, o tempo já não cabia mais


Flávio guardou seu tempo em quadros, móveis e porcelanas que cultivou ao longo de sua existência - da existência para além daquilo que guardou seu próprio bolso - que chega a nós em forma de arte e alerta. Da bisa, guardo as linhas das cartas que narrava - narrava, pois palavra escrita não conhecia. Penso que ela e meu avô enchiam seus bolso narrando e escrevendo cartas. Do meu avô, guardo também o silêncio falado e o silêncio sentido. Por vezes, pego seu silêncio emprestado e também escrevo. Pego as linhas da bisa e também escrevo.


Sei que meu bolso ainda não está cheio. Teria emprestado espaço ao meu avô se não fosse a saúde que lhe faltou. Posso, ainda, emprestar um pedaço a Lima para que emende um pouco com o seu. Há de haver uma linha de esperança que os costure. Uma linha de esperança assim como aquelas das cartas que a bisa narrava. Penso que ela também não se importaria em dividi-las. Há de haver mais linhas de esperança cruzando a vida das pessoas, basta ver. Fechar os olhos e sentir Esmeraldos, Emílias e Flávios com seus bolsos meio cheios, cheios ou transbordados de flores do tempo.


Lima segue colecionando seus quadros, móveis e porcelanas, devolvendo-os a nós em forma de arte. Em forma de flor lúcida, atenta. Conheço Lima e conheci Flávio pela suas artes, assim como conheci a bisa pelas palavras. Conheci meu avô pela sua quietude, que hoje ainda me diz muito. Ainda vejo suas flores.


Lamento sobre as/os Reginas. Penso que colecionaram móveis, quadros e porcelanas sem cuidado algum. Estão hoje quebrados, arranhados, corroídos. Mesmo assim, não se envergonham em mostrar tudo isso. Seus bolsos estão cheios de flores murchas que cultivaram nas suas próprias existências. Reginas insistem em devolver flores murchas, móveis, quadros e porcelanas quebrados, arranhados e corroídos para o mundo. Lamento - mas que os engulam.


Ainda espero ver flores do tempo - daquelas que ofuscam qualquer podridão que saia do bolso de Reginas. Ainda vejo flores do tempo - daquelas que florescem nos bolsos e transbordam nas linhas das cartas da minha bisa Emília, nas linhas dos silêncios e das músicas cantadas pelo meu avô Mera. Daquelas cultivadas nos móveis, quadros e porcelanas de Lima e Flávio, transformadas em arte e flores perfumadas que perduram no tempo.



Nota

¹ FETH, Monika; BORATYSŃSKI, Antoni. O catador de Pensamentos. São Paulo - SP: Editora Brinque-Book, 1993. p. [5].



Ana Sabadin


Socióloga, doutoranda na UFSCar.  O emaranhado de palavras que trago aqui alivia o cansaço das minhas inquietações com o mundo.




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