No painel de hoje 
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GUEDES, O BIPOLAR

A contingencia neoliberal no sentido estrito, como politica macro econômica sempre flertou com as rédeas da gerencia estatal, produzindo por vezes uma relação de amor e ódio, ora mitigada, ora convidada para jantar, portanto, ela permaneceu.


Entretanto com a eleição de Jair Bolsonaro e a nomeação de Paulo Guedes para a pasta conformou-se que era o marco para a sua inserção definitiva. O reformista e desonerador Paulo Guedes tinha uma vasta carreira no mercado especulativo, além de formação na escola de Chicago fazendo jus aos seus predicados liberais.


Sua consolidação de agenda se baseava em uma configuração de estado enxugado, sem gastos, através de uma enxurrada de reformas, as quais tinham o objetivo de desonerar as responsabilidades, visto que, na ideologia proposta a ineficiência de gestão era o norte de todos os problemas.


Portanto, operando essa ideologia que o estado é incapaz de gerir a si mesmo, se operam as reformas, sendo a primeira delas a da previdência, afastando-se sobre elas os holofotes do capital financeiro. Assim os operadores do capital não se manifestaram e produziram a estabilidade necessária no mercado para ela se consolidar, já por parte do controle legislativo, a reforma sofreu poucas contestações, sendo que o espirito de liturgia e inoperância publica atingiu setores, até mesmo de oposição.


Com esse mar calmo a reforma de Guedes emplacou e esse parecia ser o caminho traçado pela condução econômica de Bolsonaro – parecia -. O que não se esperava é que uma catástrofe da natureza, um vírus, de razão improcedente se apresentaria, essa situação atípica transformou até mesmo a cabeça de um liberal como Paulo Guedes.


A necessidade de fortalecer o consumo e produzir uma certa produtividade em tempos adversos de corona vírus fez com que Guedes em uma manhã de Keynes adotasse medidas de tutela totalmente sociais democratas em se tratando de convicções macro econômicos.


O auxilio emergencial, a taxa Selic baixa e a linha de credito mediada por bancos privados foram os instrumentos para fomentar o estimulo ao consumo necessário e produziram um efeito que nem mesmo os anos áureos de Lula produziram. Dois milhões de brasileiros saíram da zona de extrema pobreza, veja o paradigma, Guedes coagido pelas circunstancias operou um sistema de transferência de renda nunca visto, ou seja, a possibilidade do estado operar os fluxos de consumo para um liberal se fez novidade e Guedes desfrutou.


Desfrutou, tanto que se maculou em uma própria contradição, a transferência de renda é uma afinidade que ele não pode ter, sobretudo por ter feito um grande compromisso de enxugar o estado através de reformas e privatizações.


Todavia, como mediar uma estabilidade econômica sem a moderação estatal em tempos de crise, nessa dualidade Guedes se encontra, e as eleições estão se aproximando, as reformas agradam o capital financeiro, porém, essas não são as fontes de votos suficientes para o êxito eleitoral.


Tendo em vista essa tensão entre ceder ou não, em seus ideais e alinhar uma pretensão de reeleição para o seu chefe, Guedes caminha sobre cacos, cacos esses que são sustentados pela tríade bolsonarista, os neoliberais já citados, os militares e os lunáticos, todos querem uma parcela do bolo, hoje, apreendida pela lei de teto de gastos.


A pedra no sapato chamada de lei de teto de gastos gerou a primeira cisão entre os “neo liberais”, e estes abandonaram a pasta, dois pilares da agenda de privatizações e reformas, Salim Mattar e Paulo Uebel os quais não conseguiram implementar suas politicas de desoneração, veja, a ineficiência das formas liberais encontrou um Brasil que necessita e muito do estado.


Somado a esse choque de realidade, Bolsonaro almeja constituir um programa de auxilio econômico, conhecido primordialmente como renda Brasil, ele seria uma ampliação da assistência governamental para os mais necessitados, seria uma política de capitalização do já conhecido Bolsa Família, a arrepio de toda convicção do “menino de Chicago”.


Nosso liberal as avessas percebeu que para a perpetuação de governabilidade é necessário a mediação do estado nos fluxos de capital, de modo que, com o Renda Brasil, Bolsonaro se solidifica no prisma das politicas populistas que tem respostas nas urnas e essa continuidade é positiva para Guedes que precisa de tempo sobretudo para encaminhar reformas fiscais e administrativas.


Em ambas as esferas, essas reformas causam fortes debates no corpo legislativo, ou seja, o sucesso nos programas de renda possibilitam à pasta econômica uma seguridade necessária para seu desenvolvimento.


A bipolaridade macroeconômica do ministro da economia não tem mais tratamento, as tensões serão constantes de fato, e se acentuaram com a proximidade da próxima eleição, a confusão será uma tônica da gestão de Guedes, na busca de apoio material para a possibilidade da vitória formal, condenado esta “Chicago boy”.



Haron Francelin


Bacharel em Ciências Sociais, graduando em Direito. Fazer voz é observar o tempo, entusiasta das palavras.



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