No painel de hoje 
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GUERRA E PAZ

Depois de uma semana de folga do projeto, em que me concentrei mais na atenção com as crianças, que estão há mais de dois meses sem nenhum contato externo, pude me envolver mais com o empreendimento familiar que está sendo fundamental na complementação de renda durante esta crise, além de imprevistos desgastantes e desagradáveis que exigiram minha atuação durante este período ausente No Painel.


Acompanhei as exposições com entusiasmo, pois nas últimas semanas foram estabelecidas importantes parcerias, com convidados de peso, além de exposições expressivas que merecem destaque.


Durante este tempo estive refletindo sobre temas que já queria expôr desde que me comprometi com o projeto e que se faz indispensável no momento, por ter ganhado muita visibilidade, especialmente nos últimos dias.


A compreensão das relações do fascismo, bem como do nazismo, com o governo federal, eleito em 2018 no Brasil, sustentado por um empreendimento moral, reacionário e extremista conhecido como bolsonarismo, produz controvérsias entre diversas perspectivas analíticas das ciências sociais. Particularmente, entendo que é coerente localizar historicamente os conceitos de fascismo e nazismo, caracterizar as particularidades de cada movimento, deixar bem claro que não se trata dos mesmo conceitos e movimentos e que não devemos analisar os objetos contemporâneos de forma simplista e anacrônica.

O governo Bolsonaro é parte de um projeto do capitalismo internacional para a América Latina, que entendemos como neoliberalismo. É um modelo de liberalismo que se diferencia da tradição liberal européia, que se consolidou por reformas econômicas e sociais em que a circulação de capital pudesse ocorrer de forma menos concentrada, estimulando a competição no mercado interno. Com isso, o liberalismo clássico europeu historicamente tratou o conceito de livre mercado como fim a ser alcançado, em que as condições para alcançar este fim passa pela participação do Estado, garantido as reformas necessárias. Essa tradição tem sua gênese na Revolução Francesa (Revolução Burguesa), em que o liberalismo coloca a concentração fundiária e de renda, representada pela nobreza, como entrave para o desenvolvimento capitalista. Enquanto o neoliberalismo inverte essa lógica, tratando o livre mercado como uma entidade, que por meio desta é que seria mais apropriado o desenvolvimento capitalista e circulação de capital.


É notável como essa caracterização não passa de propaganda ideológica, já que essa política é financiada por aglomerações capitalistas que têm o interesse na concentração de capital, não em sua distribuição competitiva, não é por acaso que teremos o primeiro trilionário da história em alguns anos, superando as expectativas iniciais, como foi trazido pelo amigo Felipe Cará em sua exposição na última semana No Painel. Assim, o neoliberalismo é uma fase do colonialismo, conhecido como imperialismo, em que o capitalismo internacional, representado pelos Estados em que a burguesia se emancipou e se desenvolveu pelas reformas liberais, explora os mercados emergentes, onde nenhum tipo de reforma distributiva possa ocorrer, favorecendo o acúmulo de capital, mantendo assim o contexto de submissão das economias latino americanas. Para uma introdução à essa análise recomendo a leitura sobre o Capitalismo de Dependência, discutido por Florestan Fernandes.


Porém, entender a sustentação material que garante a permanência do governo Bolsonaro, mesmo com tantas contradições institucionais, não é suficiente para explicar sua defesa por parte da população, que se mobiliza pelo bolsonarismo. Não seria muito complicado para uma trabalhadora identificar que essa propaganda ideológica lhe é prejudicial, pois sem a intervenção do Estado, numa sociedade com extrema desigualdade social e econômica, a tendência é a concentração de recursos e formação de monopólios, o que objetivamente não interessa sequer aos pequenos empresários.


Então que passamos a analisar o empreendimento moral, reacionário e extremista, que citei acima, e cujos processos são desenvolvidos nas táticas e estratégias de Guerra Híbrida, da qual temos especialistas se debruçando para entender e explicar, como o Piero Leinier. Também é muito analisado pelos conceitos de pós-política e ultra-política, no livro Sintomas Mórbidos, de Sabrina Fernandes. Aqui pretendo analisar os elementos históricos sendo projetados pelo bolsonarismo, tanto do fascismo, quanto do nazismo.


O bolsonarismo sempre utiliza de associações entre o comunismo e o fascismo para justificar seus posicionamentos. Isso ocorre porque os ideólogos deste movimento como Olavo de Carvalho, são picaretas, sem nenhum compromisso com os fatos históricos. O fascismo tem uma de suas características mais marcantes o anticomunismo, essa característica associada ao nacionalismo exacerbado no discurso e o apontamento de inimigos para a identificação com o grupo, apelando sempre pela subjetividade e moral conservadora, estão muito bem associados a caracterização bolsonarista. O “cidadão de bem” não tem uma definição objetiva, é um pseudo conceito do discurso bolsonarista para identificar quem apoia Bolsonaro, acusando quem não o apoia de vagabundo, terrorista, comunista, mesmo que não haja nenhuma fundamentação para as acusações, assim, estes acusados são tratados como inimigos por estarem de fora.


Tanto é assim que o movimento integralista, conhecidos como galinhas verdes, fundado por Plínio Salgado nos anos 1930, que é uma versão tupiniquim do fascismo italiano, carrega essas características e se identificam com o bolsonarismo, tendo membros indicados dentro de pastas no governo, como o dirigente da Frente Integralista Brasileira Paulo Fernando Melo da Costa, indicado para assessor especial no Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.


É irônico como os galinhas verdes de hoje negam publicamente a relação do movimento com o fascismo italiano, mesmo ficando muito evidente nos princípios filosóficos e na estética adotada.


As características fascistas que estão associadas ao bolsonarismo, tendo o anticomunismo como a principal dentre elas, foi fundamental para que Mussolini conquistasse o apoio dos proprietários agrícolas e mobilizando os camisas pretas, milícia paramilitar que liderava, interromperam as organizações de greve de trabalhadores e destruíram grande parte dos sindicatos mesmo antes da ascensão ao poder. A aversão à organizações de trabalhadores é compartilhada pelo bolsonarismo, mas não foi preciso destruir essas organizações que se encontram desacreditadas e não mobilizam as categorias tanto quanto acontecia num passado recente. Mesmo assim, os ataques das chamadas milícias virtuais bolsonaristas são constantes.


Outro absurdo difundido pelo bolsonarismo para confundir as referências históricas é que o governo Bolsonaro não estaria sendo representado pelo autoritarismo, pois supostamente nunca uma ditadura teria defendido o armamento da população. Como a mentira é regra para este governo e para sua defesa, essa é mais uma mentira descarada. Qualquer pesquisa simples encontra as notícias da época, em que Mussolini sempre defendeu o armamento civil. O armamento vinculado ao apelo nacionalista conservador, a identidade com o grupo, do qual os que não se identificam são tratados como inimigos mortais, em que o comunismo é utilizado como escudo para justificar todo tipo de ações arbitrárias, são características fundamentais do fascismo italiano.


Impossível negar como esses elementos estão na base do bolsonarismo e acompanhamos nos próximos dias como os ataques vão se direcionando para além do comunismo, mirando o antifascismo. As ameaças à democracia, recorrendo ao AI 5, debochando das pessoas torturadas e perseguidas durante a Ditadura Militar (1964-1985) não podem ser desprezadas também, já que esse clima de terror e guerra também é típica do fascismo.


E a relação com o nazismo? Podemos afirmar que está nas práticas bolsonaristas? Para além das últimas polêmicas pouco conclusivas nas redes se os neonazistas são bebedores compulsivos de leite ou se são veganos moralistas, o anticomunismo aparece como um fundamento essencial da ideologia nazista. Isso está demonstrado de forma enfática em Mein Kampf, livro de Hitler e também em declarações posteriores do mesmo. Os grupos atuais neonazistas estão declaradamente mobilizados por este fundamento.


É nítido como o bolsonarismo se apropria da estética nazista como forma de provocar reações da oposição e produzir narrativas. Foi assim com o pronunciamento de Roberto Alvim ano passado, quando era secretário da cultura e reproduziu falas do ministro da propaganda nazista no III Reich, Joseph Goebbels. O secretário foi exonerado, apesar do governo ter se manifestado desconfiado com uma possível sabotagem. Em seu lugar assumiu Regina Duarte, atriz muito conhecida por sua participação em inúmeras telenovelas, saudosista da ditadura militar. Quando questionada sobre ser coerente defender a ditadura responde com um aleatório e inconclusivo “e o Stálin?”, típico subterfúgio utilizado pela milícia digital bolsonarista, que pode variar para “e o Lula?” ou “e o PT?”.


Outra provocação utilizada pelo bolsonarismo é a utilização de um tipo de efeito nas fotos de redes sociais, conhecido como fashwave, é uma prática comum entre a alt-right estadunidense, que tem em sua base inúmeros grupos neonazistas supremacistas brancos, que se identificam como nacionalistas brancos. O bolsonarismo pretende essa vinculação com a extrema direita estadunidense, tendo o Carluxo como referência, apesar de não ser muito expressiva as manifestações declaradas supremacistas no Brasil, já ficou caracterizado como Bolsonaro coloca-se subordinado aos interesses políticos do presidente Trump, que tem a alt-right como base.


Mas a associação do bolsonarismo com o neonazismo não se limita à apropriação da estética para provocar a oposição. Recorrer ao globalismo para justificar as políticas internacionais adotadas pelo governo, bem como tal conceito presente nas abordagens alucinadas do ministro da educação no twitter, é uma vinculação bem objetiva ao neonazismo nacionalista branco. Uma visita ao site NationalVanguard.com, que abriga as publicações que fundamentam os ideais supremacistas nacionalistas branco dos USA, comprovam como este conceito é difundido neste meio e as conclusões convergem com as justificativas do discurso bolsonarista quando se refere ao tema. Ou seja, o antiglobalismo, defendido com convicção pelo governo bolsonaro, é a principal pauta dos movimentos neonazistas supremacistas nacionalista branco da alt-right estadunidense, isso não é mera coincidência e não pode ser relativizado ou menosprezado. Estes grupos não são considerados neonazistas, eles o são declaradamente, tendo Adolph Hitler como principal referência.


Outro ponto que não pode ser desprezado é o acampamento dos 300, milícia idealizada por Olavo de Carvalho, liderada pela neonazista de São Carlos, para garantir apoio ao governo Bolsonaro. É de conhecimento na cidade de São Carlo/SP a participação da líder do acampamento em grupos neonazistas da cidade durante sua adolescência. Inclusive é contraditório por parte da oposição considerá-la como ex-feminista. A neonazista de São Carlos participou do FEMEN, que é uma organização que explora mulheres por padrões da indústria pornográfica, reforçando ideais supremacistas ucranianos ao definir a seleção das integrantes pelo fenótipo condizente para representar o grupo e expor seus corpos selecionados. Foi com isso que a sãocarlense se identificou, e é com isso que se relaciona sua fala de que seria preciso “ucranizar”. Não consigo identificar nenhuma característica do feminismo radical no FEMEN. A neonazista de São Carlos foi para Ucrânia ser subordinada dos empresários que financiam o FEMEN e agora já declarou que é subordinada do Olavo de Carvalho, com a missão de provocar terror na oposição e nas instituições, liderando a formação de uma milícia armada (se é só blefe sendo usado como estratégia para outras conquistas, não dúvido, mas não estamos mais em tempo de pagar para ver).


Para se desvencilhar das associações com o fascismo e o nazismo, o bolsonarismo utiliza, fundamentado por seus ideólogos picaretas, subterfúgios revisionistas e covardes. Voltando ao neoliberalismo, há uma propaganda em que se associa de formas anacrônicas modelos completamente diferentes como planificação econômica, privatizações x estatismo e corporativismo de Estado, colocando o liberalismo como oposição ao fascismo e nazismo e o comunismo como semelhante. Para além da precariedade conceitual ao definir os modelos, é ignorado as posições que serviram para fundamentação teórica do modelo neoliberal. Friedrich Hayek e Ludwig Von Mises, que compunham a Escola Austríaca, berço do neoliberalismo, eram entusiastas declarados dos regimes nazistas e fascistas, foram colaboradores inclusive. Nas palavras de Mises, em seu livro Liberalismo: "Não se pode negar que o fascismo e movimentos semelhantes que visam o estabelecimento de ditaduras estão cheios das melhores intenções, e que sua intervenção no momento salvou a civilização europeia. O mérito que o fascismo teve, deu-lhe um reconhecimento eterno na história". Essa relação entre os movimentos nazistas, fascistas e neoliberais é compreendida por compartilharem a mesma matriz teórica/ideológica, sendo o anticomunismo o ponto de partida de todos eles.


Com isto posto, estabelecendo as relações existentes do bolsonarismo com ideologias autoritárias e supremacistas, escrevo para me posicionar frente ao dilema que se coloca para todas as organizações, movimentos e mesmo indivíduos frente à conjuntura brasileira, mas principalmente esse dilema é caracterizado em minha formação e atuação, bem como a todos os colegas das Ciências Sociais. Estamos no olho do furacão, com acontecimentos diversos, contraditórios e complexos acontecendo em velocidade galopante. O medo de errar na análise é eminente, pois nos comprometemos com este retorno quando escolhemos nos apropriar das categorias metodológicas capazes de explicar estes fenômenos, além de que quem erra na análise erra na ação.


Mas as trabalhadoras brasileiras não podem mais esperar um especialista acadêmico decodificar as causas de suas angústias, as forças que lhes oprimem. Muito menos esperar que as representações institucionais vão salvar a democracia, pois o imobilismo e o aparelhamento já sufoca.


Apoio às manifestações populares das Torcidas Organizadas, lideradas pela Gaviões da Fiel em São Paulo, com oportuna referência à Democracia Corinthiana.


É impossível prever os desdobramentos, por isso é necessário além de coragem, organização politizada e estratégias de luta.


Ficou evidente que o apoio ao governo não é significativo frente a uma revolta popular. Já houve um recuo estratégico do governo para evitar evidenciar esta sobreposição. Agora temos que estar preparados para as armadilhas que serão postas. Já estão pipocando na internet chamamentos para manifestações fakes, os infiltrados para causar discórdia também é inevitável, e a criminalização das manifestações populares, que já se encaminham, coloca desafios à organização.


Não podemos deixar a preocupação com a pandemia, pelo contrário, agora todos temos que ter ainda mais rigor com as precauções e recomendações. Mas como a camarada Verônica Domingues bem lembrou em suas redes, nunca houve isolamento no país, a contaminação rola solta e o governo só atende aos interesses de mercado. Os bolsonaristas nunca deixaram de se aglomerar para defender ideais desumanos e espalhar o vírus entre nós. Não tem nenhuma condição de cuidar da população, bem como garantir o funcionamento do sistema público de saúde, enquanto a estabilidade democrática não for restabelecida. Considero que o momento é oportuno para assumir esta luta como um risco calculado.


E o alerta mais importante é para que não sejam repetidos os erros de 2013 que favoreceram a atual conjuntura, quando a direita se apropriou da despolitização que acompanha a ideia de apartidarismo e embalou seu projeto com a etiqueta da tecnocracia, colocando a escória no poder. Não existe democracia sem partidos e organizações políticas. Os “independentes” não são excluídos, mas moralizar manifestações com concepções conservadoras persecutórias não é produtivo e pode trazer consequência mais desastrosas, intolerância para com os intolerantes. As bandeiras progressistas, revolucionárias, moderadas e democráticas devem estar unidas para restaurar as garantias das liberdades democráticas liberais e com isso, ter condições para almejar outras lutas, tendo a democracia popular como horizonte.


Pra que não se morra mais de fome

Pra que não se morra mais de vírus

Pra que não se morra mais pela ação do Estado racista


Paz entre as torcidas

Guerra aos facínoras


Lian Guilherme


Bacharel em Ciências Sociais pela UFSCar. Escreve sobre temas relacionados à Política, Sociologia, Antropologia e História. Boleiro, antifascista e comunista.



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