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Indica #11- Ave Sangria- Musica

Três palavras poderiam ser o suficiente para descrever o Ave Sangria: psicodelia pernambucana setentista.


O conjunto que, na verdade, iniciou a carreira no finalzinho da década de 60, ainda com o nome de Tamarineira Village, foi parte responsável por trazer à tona o movimento musical underground pernambucano que nos presenteou com nomes como Flavio Lira, Lula Côrtes, e claro, Alceu Valença.


Fato curioso sobre a banda é que, assim como outro cantor pernambucano, Di Melo, Ave Sangria ficou sumida por 40 anos até que foi redescoberta e revivida nos anos 2010. Em 2019, o grupo lançou seu segundo álbum – Vendavais – 45 anos após o primeiro, o auto-intitulado – Ave Sangria – de 1974. Nessa segunda vida, a banda tem conseguido atrair novos fãs e se destaca principalmente em festivais alternativos de música.


O álbum de 74 e a primeira vida da banda são marcados por polêmicas. A postura, imagem e letras do conjunto foram mais de uma vez alvos de censura pela ditadura militar, a começar pela capa do disco que, de acordo com a banda, retrata “um papagaio drag queen” e precisou passar por alterações.


Entretanto, a polêmica que rodeou a canção “Seu Waldir” é que realmente marca a história do Ave. Assim como o rock and roll gringo que passava por uma fase de androginia, maquiagem e figurinos extravagantes – Bowie, Alice Cooper, New York Dolls – o Ave também chocava a parcela conservadora da população de Pernambuco e do Brasil com seus visuais, letras e histórias que se tornam maior do que a realidade. Coisa de rock star.


“Seu Waldir” é uma declaração de amor ao... Seu Waldir, claro. A letra da música não traz nenhum assunto axiomaticamente polêmico, tanto que foi inicialmente aprovada pela censura. Entretanto, o que os censores não perceberam logo de cara é que era um homem quem cantaria a declaração para Seu Waldir. O disco foi lançado e logo o teor homossexual da canção se tornou evidente. Pouco tempo depois, a censura havia tirado o disco de circulação e isso inevitavelmente culminou no fim – ou pausa de 40 anos – da banda, que contava com as vendas do disco para sobreviver.


Além de “Seu Waldir”, esse primeiro disco da banda traz diversas outras canções que misturam poesia, ritmos nordestinos, guitarras, sintetizadores e triângulos. A faixa mais conhecida do disco - a viciante “O Pirata”, é muito bem acompanhada por outros títulos como “Dois Navegantes” que traz sintetizadores que lembram Welcome to the Machine, embora o disco brasileiro tenha sido lançado um ano antes que a canção do Pink Floyd. Outras faixas de destaque são: “Hei! Man”, que tem feito muito sucesso com os novos fãs que a banda juntou nesse seu segundo sopro de vida; “Cidade Grande”, que tem uma pegada bem raulseixista; e as últimas faixas do disco que com andamento mais acelerado e guitarras mais proeminentes dão um gás para encerrar a obra com chave de ouro.


“Os Rolling Stones brasileiros” - apelido que a banda ganhou por sua postura polêmica - representam um pedaço importante da história do rock nacional pelo movimento musical que ajudaram a fundar e principalmente pelo não-conformismo e a não-aceitação do fim precoce que a censura tentou lhes forçar. Viva a resistência.


Album:



TEXTO DO INDICA: RAUL DE PAULA

ILUSTRAÇÃO CAPA: AVE SANGRIA

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