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Indica #19 – Absorvendo o Tabu- Documentario

Você já ouviu falar em Pobreza Menstrual?


Falar sobre menstruação ainda é considerado um grande tabu. O assunto precisa ser discutido e a menstruação precisa ser vista como uma questão social e global.


Pobreza menstrual – ou precariedade menstrual – é o termo usado para descrever não só a falta de acesso a produtos de higiene adequados durante o período menstrual, mas também a ausência de água, saneamento básico e banheiros com privacidade.


A pobreza menstrual é um marco da desigualdade social que está presente em todos os cantos do mundo e, inclusive, atinge mensalmente não só muitas mulheres cis e homens trans no Brasil. De acordo com uma pesquisa realizada no Brasil conduzida por uma marca de absorventes, cerca de 26% das meninas com idade entre 15 e 17 anos não possuem acesso a produtos de higiene seguros para usar durante a menstruação. Em nosso país, itens de higiene básica, como sabonete e pasta de dente, não são tributados. Acreditem ou não, absorventes, coletores menstruais e outros itens de higiene pessoal ligados à menstruação não são considerados higiene básica e são tributados, aumentando, por consequência, seu preço final.


Pessoas moradoras de rua ou abrigos, em situação de pobreza ou encarceradas, são as mais vulneráveis em relação à pobreza menstrual. Com pouco acesso aos itens de higiene, para conter o fluxo de sangue, elas apelam para o improviso fazendo uso de panos, papelão, jornal, absorventes já usados e até mesmo miolo de pão.


Em um levantamento feito pela ONG Trata Brasil, em 2016, 1,6 milhões das mulheres não tinham banheiro em casa, 15 milhões não acessavam água tratada e 26,9 milhões moravam em locais sem coleta de esgoto.


Como consequência da falta de acesso às condições básicas de higiene e saúde, muitas meninas acabam faltando da escola durante o período menstrual, afetando seu desempenho escolar. Já as mulheres adultas têm dificuldades para trabalhar durante o período menstrual sem as condições básicas.


Para romper esse ciclo é preciso, primeiramente, abordar o assunto e conversar sobre menstruação como questão social e não com repulsa e afastamento. Existem alguns projetos locais que organizam uma rede de coleta e distribuição de absorventes e outros itens de higiene para doações. Por exemplo, em São Carlos-SP, existe o Unidas Pelas Mulheres (@unidaspelasmulheres.sc), projeto que visa o combate à pobreza menstrual na cidade através de arrecadação, doação, venda de produtos para reversão do lucro e conscientização sobre o tema.


Claro que fazer nossa parte enquanto indivíduo é fundamental, mas, como este é um problema estrutural, é responsabilidade dos governos elaborar políticas públicas e ações para melhorar e garantir estruturas de saneamento básico, acesso à educação, conscientização e disponibilização dos itens de higiene menstrual por meio de do sistema de saúde.


Atualmente, em Brasília, tramitam dois projetos de lei que abordam a pobreza menstrual e visam distribuir absorventes de forma gratuita. Um é o PL 4.968/2019, elaborado pela deputada federal Marília Arraes (PT-PE), que objetiva a distribuição de absorventes em escolas públicas e aguarda parecer da Comissão de Educação. Outra proposta foi apresentada em março de 2020 pela deputada federal Tabata Amaral (PDT-SP), que propõe a distribuição de absorventes em locais públicos, proposta que foi ridicularizada virtualmente por membros do (des)governo atual.

Para divulgar informações e dialogar sobre a questão da pobreza menstrual com governos, agências internacionais e ONGs, em 2014 a ONG alemã WASH United criou o Dia da Higiene Menstrual (@menstrualhygieneday), que passou a ser celebrado em 28 de maio.


Para quem desejar conhecer mais sobre o assunto da pobreza menstrual e seus impactos, recomendo o documentário Absorvendo o Tabu (Period. End of Sentence, no título original), do ano de 2018, dirigido por Rayka Zehtabchi e vencedor do Oscar em 2019 na categoria Melhor Documentário de Curta-metragem. Em 26 minutos a cineasta mostra o grande tabu que é a menstruação na Índia, inclusive entre as mulheres.


Tendo como recorte o vilarejo de Harpur, Zehtabchi revela que vários homens não sabem o que é menstruação – ou ficam com vergonha de falar sobre o assunto na frente das câmeras – e que a vida e a independência das mulheres são diretamente afetadas pela falta de conhecimento e conversa sobre menstruação.


O documentário mostra mulheres que largam empregos, estudos e deixam de conviver em locais públicos por causa de julgamentos devido aos cheiros exalados no período menstrual e por serem consideradas “sujas” enquanto menstruam.


Logo na primeira parte do documentário é apresentado que apenas 10% das mulheres do país têm acesso a absorventes. Em um segundo momento é apresentada a implantação de um projeto no vilarejo de uma máquina que produz absorventes biodegradáveis de baixo custo.


As mulheres locais são capacitadas em relação à operação da máquina e os absorventes passam a ser produzidos e comercializados por elas mesmas, impactando suas vidas, dando a elas independência financeira, empoderamento e liberdade.


O documentário está disponível no streaming Netflix.

Texto Indica: Leticia Fragalle

Ilustraçao capa: Netflix



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