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Indica #3-O Segredo dos Seus Olhos -Filme

Procurei este filme após uma indicação de nosso editor chefe, por quem estimo grande amizade. Trata-se de uma produção entre Espanha e Argentina, de 2010, dirigida por Juan José Campanella, passada em dois momentos num espaço de 25 anos.


É uma estória de amor entre o oficial de Justiça Benjamin Esposito (Ricardo Darín) e Irene Menéndez Hastings (Soledad Villamil), sua chefe no Departamento de Justiça. As personagens são separadas quando Benjamin é obrigado a se transferir à outra cidade, antes que pudessem começar o relacionamento amoroso.


Vinte e cinco anos depois Benjamin reencontra Irene para recordar um caso que investigaram e que seria fundamental para escrita de um romance pretendido por Benjamin. O caso foi de um estupro seguido de assassinato acobertado pela ditadura militar argentina.


O filme explora bem a relação de amizade de Benjamin com seu subordinado no Departamento, questões relativas à hierarquia e burocracia jurídica, a dicotomia entre juventude e maturidade sob a perspectiva deste intervalo de 25 anos.


O ponto alto caracterizado é o senso de justiça, que levou Benjamin a estabelecer uma relação de empatia com o viúvo da vítima do caso recordado, envolvendo seu amigo e sua amada na investigação e resolução do caso. Nesse sentido as personagens são perseguidas pela ditadura militar, mesmo não sendo explicitado suas convicções políticas e ideológicas.


Essa caracterização me levou a refletir sobre o revisionismo que é propagandeado nos dias de hoje sobre a atuação das ditaduras militares na América Latina nos anos 60, 70 e 80 do séc. XX. Além de ter sido um recurso imperialista capitalista para impedir o desenvolvimento estrutural e cultural autônomo e independente dos países colonizados das Américas, ao contrário do que é defendido por alguns ideólogos, o regime autoritário, sem o equilíbrio institucional dos poderes, com ocultamento de informações à população e perseguição à oposição, e instituição de crimes à vida humana como política de Estado, escondeu violações e crimes bárbaros, mesmo os que não tinham nenhuma nenhuma relação com conflito político, pois muitos criminosos estavam no alto escalão da ditadura ou poderiam ser utilizados como informantes, como é o caso descrito no filme. Tudo isso garantido pelo alto grau de corrupção sistêmica instituído. O discurso de que a ditadura garantia a ordem e a paz é uma mentira deslavada sem nenhuma sustentação, o período é marcado por muita violência, corrupção e impunidade.


No caso do filme, se trata de uma obra de ficção, mas é difícil não remeter ao bárbaro caso Araceli (cuja referência é feita na canção Tão Iguais da banda capixaba Dead Fish), menina de 8 anos, abusada, violentada e assassinada em Serra, município do Espírito Santo. Caso ocorrido em 1973, em que os principais acusados pertencem à família latifundiária Michelini, apoiadores estratégicos da ditadura militar brasileira. Seu corpo foi encontrado desfigurado e carbonizado 6 dias após seu desaparecimento. Segundo o livro Araceli, Meu Amor, de José Louzeiro, 14 assassinatos teriam sido relacionados a queima de arquivo. Em 1980 os acusados foram condenados à 18 anos de prisão, mas recorreram e alguns anos depois foram inocentados e o caso encerrado por falta de provas.


O dia 18 de Maio, dia em que Araceli desapareceu, foi aprovado no Congresso Nacional em 2000 como Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.


A reflexão que me foi instigada pelo filme O Segredo de Seus Olhos, demonstra ainda a incoerência de ainda vigorar a lei da anistia aos crimes cometidos na ditadura militar brasileira, quando nossos hermanos argentinos derrubaram essa lei ainda no começo dos anos 90 e desde então, fazem a faxina no armário que precisamos fazer aqui também.


O senso de justiça e caráter pessoal de nossos heróis valorizaram o enredo de O Segredo de Seus Olhos. É uma boa inspiração à luta para que sejam revelados segredos convenientes que permanecem intocáveis, sobre o pior momento da nossa história.


Em memória e solidariedade à todas as vítimas das ditaduras militares latino americanas


Trailer





por: Lian Guilherme

Ilustraçao capa: Thorpa dercy



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