No painel de hoje 
Buscar
  • Painel

Indica #4- Hibisco Roxo -Livro

Hibisco Roxo, Chimamanda Ngozi Adichie


ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Hibisco Roxo. Tradução Julia Romeu. Companhia das

Letras: São Paulo, 2011


Inauguro as minhas contribuições no #Indica, comentando um pouco sobre o tanto que a leitura de Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie, me despertou. Este é o meu primeiro contato com a escritora nigeriana, nascida em Enugu no ano de 1977. Soube do livro durante a Oficina de Criação Literária, conduzida pela escritora Leila de Souza Texeira[i]. A minha motivação, de imediato, era explorar a estrutura narrativa — certamente, as descobertas não pararam por aí.


Coloquei na fila das minhas leituras, outros romances da Chimamanda, já traduzidos para o português: Além de Meio Sol Amarelo (2008) e Americanah (2014) — quem sabe não volto com eles numa próxima! A escrita e a presença potente da escritora também viraram ensaios como Sejamos todos feministas (2015) e Para educar crianças feministas (2017); e a coleção de contos No seu pescoço (2017), todos publicados pela Companhia das Letras.


- - - - -

Numa manhã, o entregador presenteia-me com a chegada dos livros novos. Dentre eles, o Hibisco Roxo, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Lá pelo meio daquela tarde, estendo o colchonete na terra do quintal e ajeito o travesseiro encostado à parede. Os raios de sol mudam de cor num ritmo só deles, enquanto eu acompanho as linhas, ora densas de palavras leves, ora leves de palavras densas do livro. Viro poucas páginas e sinto a mistura lenta, apresentada aos meus olhos, do azul querendo escurecer em meio ao rosa claro. O laranja amarelado avança com a despedida do sol, e as palavras são atingidas pela mudança na luz. O céu dissolve-se gradativamente, e o roxo aparece ali — feito os hibiscos, feito o roxo da capa do livro.


Mal sei o rumo deste romance. Um amigo alertou-me sobre a leitura pesada — mesmo assim, surpreendo-me. Chimamanda conduz-me a um passeio por uma Nigéria desconhecida por mim. Lembro-me de como a escrita literária tem a capacidade de estremecer os nossos ossos e nos levar a tantos lugares, fazendo-nos perambular pelos detalhes e sentires através das personagens.


A narrativa de Kambili, a personagem principal, leva-me aos cômodos da casa imensa da família e às estatuetas da Mama. Passeio pelos jardins e os hibiscos, pelos enfrentamentos de Jaja e o missal do Papa. Sinto o gosto das comidas preparadas por Sisi e dos biscoitos e sucos, produzidos na fábrica de Eugene. Navego pelo apartamento estreito da tia Ifeoma, pelas ruas de Enugu e Nsukka, também pelas igrejas de St. Peters e St. Agnes. Encontro a potência de todas as mulheres apresentadas na história. Encaro a crueza da(s) violência(s) dentro e fora do núcleo familiar. Vejo beleza no conto do jabuti do casco partido, contado por Papa-Nnumc.


Percorro no enredo, os estragos do colonialismo, as faíscas do — dito — progresso. Enxergo paralelos com o cotidiano brasileiro: a falta de gás de cozinha, as desigualdades socioambientais de acesso à água, o preço abusivo de alimentos, a censura e o avanço da opressão política. Hibisco roxo incentiva-me a estender os olhos às questões estruturais não apenas da escrita. Reflito sobre a falta de freios do progresso. Deparo com estruturas persistentes, muitas vezes, dissolvidas nas existências — estruturas exterminadoras de existências no Brasil, na Nigéria, em outros cantos dos horizontes do sul.


Enxergo as miudezas do cotidiano — as desigualdades, as várias facetas da violência, da intolerância religiosa e questiono a História. Também as miudezas da natureza, dos hibiscos, dos gafanhotos, dos cupins voadores que perdem as asas. Volto à História que nos é contada, a oficial, a dos vencedores, a qual nos alerta Walter Benjamin. Fecho o livro defronte as resistências observadas nos nós das cangas das mulheres, nos lenços levados à cabeça, nos cabelos trançados, na carreira acadêmica de Tia Ifeoma, no desfecho da Mama e da Kambili. Vejo em Hibisco roxo não apenas o avesso da História, mas a História que não é única — e nunca será [ii] — avançar sobre as faíscas do progresso.


[i] Abro um parêntese para também indicar as oficinas ofertadas pela Leila de Souza Texeira: Labirintos da Ficção, Literatura Confessional e Aspectos do conto. Mensalmente, novas turmas são criadas e tem sido uma experiência de aprendizado e partilha gigantesca com colegas de outras regiões e países. Mais informações podem ser consultadas na página da Oficina de Criação Literária Brasília no Facebook: https://www.facebook.com/oficinacriacaoliterariabrasilia. [ii] Palestra O perigo da história única, ministrada por Chimamanda Ngozi Adichie (TEDGlobal, 2009): https://www.ted.com/talks/chimamanda_ngozi_adichie_the_danger_of_a_single_story/transcript?language=pt.

Texto e Foto: Ana Sabadin.

Capa e ilustração do livro: Claudia Espínola de Carvalho

86 visualizações
O que você achou dessa exposição ?
APOIE A NOSSA CAUSA
Deixe uma doação única de R$10
arrow&v
logo painel.jpg
logo painel.jpg