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Indica #6- O cheiro do ralo- Livro

O sexto indica é escrito por Bárbara Fragalle (Quase) Licenciada em Letras pela UFSCar. Revisora de textos que pesquisa Análise do Discurso, objetos culturais e editoração. Louca dos museus e das plantas.


Nem todas as narrativas são escritas para que o leitor simpatize com o narrador. Essa, definitivamente não foi. O Indica que trago aqui é sobre O cheiro do ralo, conhecido romance escrito pelo brasileiro Lourenço Mutarelli.


Antes de falar da obra em si, é importante comentar a trajetória do grande artista que é Mutarelli. Isso porque o autor nascido em 1964 em São Paulo é também cartunista renomado, dramaturgo e ilustrador de suas obras. O paulistano começou a fazer histórias em quadrinhos no final da década de 1980 e se consagrou como importante figura das artes e da literatura brasileira contemporânea com seus romances e graphic novels estranhos.


O cheiro do ralo, publicado em 2002 pela Devir Livraria e reeditado em 2011 pela gigante Companhia das Letras, é a obra de estréia do autor nesse gênero tão tradicional e conhecido da ficção que é o romance. A começar pelo título – que já depreende certa repugnância –, entre a ousadia da narração e uma filosofia visceral, O cheiro do ralo nos convida a conhecer toda a sujeira que existe num narrador-personagem que é, sem abrandamentos, podre.


O romance do cartunista é a narração frenética e sem censuras da mente de um homem que é dono de uma loja de antiguidades e quinquilharias no centro da cidade de São Paulo. Experiente nos próprios negócios, esse homem narra a ida e vinda de seus possíveis clientes e a fórmula que encontrou para comprar barato e vender caro, se aproveitando de pessoas desesperadas por trocar seus objetos por dinheiro. Além disso, esse narrador-personagem se apaixona platonicamente pela bunda de uma garçonete da lanchonete que ele frequenta, mas detesta.


No transcorrer do enredo há sempre um problema, uma questão, um fedor inquietante: o cheiro do ralo do banheirinho que fica em sua loja, que propaga a podridão das atitudes, dos pensamentos, da comida da lanchonete e do intestino desse narrador que se revela a cada capítulo e se envolve com os objetos, devolvendo para a trama uma condição de trajetória existencial.


Leitor assíduo, esse personagem constrói uma narrativa ora poética e filosófica e sempre egoísta, cruel e sórdida, que anuncia uma sensibilidade através do insensível. Os efeitos de humor e sobrenatural, adicionados ao ritmo acelerado da escrita que lembra muito o dos quadrinhos, deixam o enredo cada vez mais envolvente. Faz grande uso dos pronomes pessoais e não apresenta o nome de nenhum personagem, nem o seu – indiscutivelmente porque não se importa com ninguém. E esse modo de narrar revela uma desumanização que se torna típica nas obras do autor.


Importante citar também que a obra ganhou filme – talvez mais conhecido que o próprio livro. Dirigido por Heitor Dhalia e interpretado por Selton Mello, o longa de 2006 é uma adaptação digna que também virou um clássico do cinema brasileiro e conta com a atuação do próprio Mutarelli no elenco para enriquecer sua trajetória de artista completo. Ambos, livro e filme, valem muito a pena.


Fica aqui a indicação de O cheiro do ralo, que, além de ser um importante nome da literatura contemporânea brasileira escrita por um artista cuja obra vale a pena conhecer, é uma perfeita narrativa sobre a crueldade e o desinteresse, que revela a escrita consistente que é a de Lourenço Mutarelli.


Deixo uma frase do livro da qual gosto muito: “Tudo se incorpora ao todo, e é então que o encanto se desfaz”.



MUTARELLI, Lourenço. O cheiro do ralo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Texto: Barbara Fragalle

Ilustraçao Capa :Companhia das Letras, Lourenço Mutarelli

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