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Indica #9- Se meu Apartamento Falasse- Filme

Em 2020, o clássico de Billy Wilder celebra seus sessenta anos e assusta pela atemporalidade de seus temas. O produtor, diretor e roteirista teve que esperar dez anos para a vigilância macarthista - com sua temida “Lista Negra de Hollywood”, que após junho de 1950 já marcava a presença de figuras ilustres como Charles Chaplin, Luís Buñuel e Richard Attenborough - perdesse o fôlego, podendo contar a história “romântica” de um par envolto por uma atmosfera corporativista, hierárquica e misógina na sociedade americana dos anos de 1950.


“Se Meu Apartamento Falasse” (The Apartment, 1960) narra a história de C. C “Bud” Baxter (Jack Lemmon), um franzino burocrata, funcionário em uma grande agência de seguros. Após o exaustivo e monótono expediente, Baxter cede seu apartamento para que seus superiores promovam seus encontros extraconjugais. Baxter não tem controle sobre a duração e disposição dos encontros, o privando de noites bem dormidas e de usufruir adequadamente de seu espaço doméstico. Seus vizinhos, o excêntrico Dr. Dreyfuss, um terapeuta comportamental e a rígida viúva Miss Olsen, presumem que Baxter leva uma vida de libertinagem, pelo excesso de barulho vindo de seu apartamento e pela disposição de seu lixo, repleto de bitucas de cigarro e garrafas de gin. Com o anseio de subir na empresa, utilizando a disposição de sua residência, o protagonista vê-se refém de uma situação que não pode mais administrar e, ao mesmo tempo, da impossibilidade de romper com a prática regular de seus patrões, por sua natureza passiva e cordial.


Tudo muda quando Baxter se apaixona pela sua colega de trabalho, Fran Kubelik (Shirley MacLaine), uma encantadora e espirituosa ascensorista de elevador. Primeiramente, Kubelik se mostra resiliente e combativa às investidas recorrentemente grosseiras de seus colegas e superiores. Porém, Baxter agora tem a real possibilidade de promoção, mas com o preço de ser álibi dos encontros amorosos de seu chefe com a mulher que ama e tenta proteger.


Mas como um filme com temas tão sensíveis como o adultério, o corporativismo e o fisiologismo empresarial, não deixou o público médio americano, praticante dessa mesma estrutura de relações, desconfortável, ao ponto de se dirigir à seção de Western ao lado, com temas bem mais “digeríveis”? Fácil. “Se Meu Apartamento Falasse” é inacreditavelmente uma comédia. Billy Wilder ao transpor a trama para uma comédia romântica, fez o público americano rir de si mesmo, de sua composição familiar e profissional.


Engana-se que o simples fato do longa ser um precursor das comédias românticas modernas, sua crítica social seja abafada. A cor da risada aqui é a mais “amarelada” possível. A atuação de Jack Lemmon remonta um “Bud” Baxter passivo. Não somente pelas falas, mas por conta de sua linguagem corporal. Sua postura é levemente curvada e suas mãos estão sempre em constante atrito, passando a idéia de submissão e ansiedade frente às situações impostas por seus mandantes. Em uma cena particular, seu chefe pergunta-lhe as qualidades que ele tem à oferecer para a empresa, uma “entrevista” a tão sonhada promoção. Baxter depois de enumerar suas características profissionais e pessoais, não impressiona seu superior, que só é convencido depois que o empregado mostra a chave de seu apartamento e confidencia a prática. Não vemos, após as sucessivas promoções que concedem à Baxter, depois de ceder seu apartamento inúmeras vezes, nenhuma progressão material do protagonista. Pelo contrário. Seu apartamento continua o mesmo, tendo que recorrer a uma raquete de tênis como escorredor de macarrão em um encontro amoroso.


O longa é filmado por um Cinemascope em aspecto widescreen, uma novidade que o cinema na época utilizou para confrontar a televisão, concorrente mais popular. Ao abdicar da técnica de coloração Technicolor, o diretor deu um ar mais melancólico ao escuro e desajeitado apartamento, onde a “comédia” é transposta para a configuração visual de um filme noir.


Se Meu Apartamento Falasse” não chega a ser “revolucionário” no ponto de vista de seu enredo. Ao contrário de seus colegas que habitaram a “lista negra” do macarthismo, citada no começo do texto, Billy Wilder conseguiu pautar esses temas no cinema comercial americano - ganhando o reconhecimento da Academia e levando cinco estatuetas em 1960, incluindo de “melhor filme” - mas não chegou a combatê-los na trama. Tanto Baxter quanto Kubelik não lutam contra a ordem imposta pelo ambiente corporativo, que transpassa e violenta suas rotinas, seus espaços, sentimentos e relações. Os dois, inevitavelmente, estão submergidos na lógica “clientelista” da agência de seguros. Ele por oferecer o espaço aos encontros; ela pelo ceticismo de não acreditar nas intenções puras de Baxter, tão iludida e exaurida por relacionamentos temporários e descartáveis oferecidos por seus superiores. É a história de duas pessoas tentando serem felizes dentro de um contexto ditado e, de como nossos amores e afetos, são plasmados por nossa atividade profissional. Talvez seja o grande tema do filme.


Trailer:

Filme completo:




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Texto do Indica: Felipe Amador Cará

Ilustração Capa: Amazon prime

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