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Insônia

Vocês vêm brigando com o seu cérebro ultimamente? Estão sentindo sua sabotagem? Bem, no meu caso quase todo dia, e isso se intensificou na quarentena. Ontem mesmo, não consegui dormir. No meu estado de descanso, “grudou” a Caneta Azul - composição de Manuel Gomes que lhe rendeu uma live milionária - repetidamente, me custando o sono. Pode ser essa ferramenta de nosso subconsciente, nos fazendo pensar na coisa mais inusitada em momentos estressantes, justamente os que exigem o máximo de seriedade. Lembro de um seminário sobre um livro completo, extenso e cansativo, que um axé dos anos noventa me fez companhia e não foi embora durante toda a apresentação. Ontem, a notícia da alteração (leia-se sabotagem) dos dados oficiais sobre a pandemia pelo Ministério da Saúde, resultando em uma contagem paralela fornecida pelo consórcio das secretarias estaduais de saúde com veículos de imprensa, me tirou do sério. O episódio evidencia o nível da insanidade em que vivemos. Talvez a notícia se manifestou como Caneta Azul no momento de minha ansiedade antes de dormir.


Reflexo de todo este panorama, produzindo um desgaste generalizado, também é comum o esquecimento. No decorrer dos dias, ando mais distraído com o acúmulo de noites mal dormidas. Arroz sem queimar é iguaria em casa; dia do lixo, inexistente; São Longuinho virou meu padroeiro, tendo que por várias vezes recorre-lo. Chegando ao quarto os sons da trilha do filme Máquina Mortífera, vindos da televisão de outro cômodo, na calada da noite, os nomes dos protagonistas da trama me fugiram da cabeça. Fiquei a madrugada inteira na tentativa de lembrá-los. Ainda não sei por que me prestei a esse exercício. Mais estranho ainda é a sensação de culpa por situações inúteis na hora do sono. Ao não responder o “ótimo final de semana” de uma simpática atendente do mercado que frequento, me fez retornar na vez seguinte e esperar em uma fila gigante, só para agora ser muito mais educado no momento final da compra. Ela não me respondeu de volta, nem ao menos lembrava da “deselegância”. Este exagero de dramas domésticos banais tem sido frequente neste período. No fim foi justamente para selar a paz com esse pensamento absurdo e desfrutar de um sono mais tranquilo. Outro sentimento noturno é a visita de memórias constrangedoras. São várias. Uma em especial sempre tira meu sossego: o estranho ataque de riso que velórios me causam, situação que se manifesta até em sepultamentos de entes queridos. A lembrança tem sido companheira também amarga na pandemia. Em outras pessoas, a inquietação surge na forma de buscas estranhas na internet - como se os tubarões dormem, por que homens têm mamilos ou se pinguins possuem joelhos.


Não conhecia antes a Fiona Apple. O que despertou meu interesse na cantora foi a reportagem de um site que destacou o crédito dado à participação de seus cães em seu último álbum na ficha técnica. Gravado em um home studio, pelo período de quarentena, seus latidos saíram em algumas faixas. Achei a atitude simpática e resolvi descobri-la. Fui parar, inevitavelmente, na faixa de outro álbum, bem anterior - com um nome muito estranho. Every Single Night narra de maneira poética, mas com metáforas muito cruas, o sentimento de confronto com o nosso cérebro antes do sono. É quase um recitativo. Os únicos instrumento que acompanham a voz potente da cantora - que situa-se entre Florence Welch e a de Mama Cass - são algumas notas do piano e um xilofone, que simulam uma canção de ninar. A música descreve como a artista tem que suportar a viagem de seus pensamentos e de como esse sentimento, do "enxame" de sensações acumuladas nos dias, invade e toma conta de seu corpo, gradativamente. A melodia tranquila é interrompida pelo estrondo vocal do refrão. Quase um grito de guerra tribal, onde acentua-se o combate com seu cérebro, membro dissociado e completamente livre na obra. Após o refrão, agora novamente com a companhia do xilofone, a artista demonstra o desejo de sentir tudo que se passou, talvez de uma maneira mais gentil e organizada. Genial! Não somente ilustra as passagens dos parágrafos anteriores, mas de uma maneira muito artística e sensível.


De certa forma, a música associa-se à minha leitura do momento, A Terra Inútil de T.S. Eliot. Fruto de outra inquietação noturna, suscitada pela dúvida de um amigo, também não conhecia o livro. Não tinha muito tempo ou a disponibilidade para ler o clássico, mas se tratando de uma obra curta, compostas por apenas cinco partes, resolvi aventurar-me. Foi uma feliz roubada. É o conjunto de versos mais malucos que li até hoje. Nunca me deparei com obra tão abstrata, prolongando a minha leitura e enterrando minhas esperanças de eliminá-la rapidamente. Sempre será digna de outras releituras.


Dedicada ao seu amigo, mentor e entusiasta Ezra Pound - personagem aqui que prefiro não dar maior atenção, é uma coletânea de idéias e “retratos” compostos em versos que vão atropelando-se. O livro é debruçado em lendas sobre o Santo Graal e de uma obra antropológica que trata de cerimônias dedicadas ao mundo vegetal. Tudo é intencionalmente vago e os títulos não ajudam a nos orientar totalmente na confusão narrativa - se é que ela existe. Apenas nos indicam a idéia de um enterro; um jogo de xadrez; um afogamento; a pancada de um trovão; um culto em chamas. Não é a sublimação do sonho a inspiração para os recortes abstratos, ou seja, nosso estado de repouso, mas justamente a sobreposição de pensamentos e sensações descontroladas que nosso cérebro nos impõe. Um crítico não muito simpatizante da obra a chamou de “retrato fiel do ferro velho de nossas memórias”. O próprio autor a definiu como “o desabafo de uma queixa pessoal e totalmente insignificante contra a vida; é só um momento de resmungo incontido”.


Talvez o título do livro, A Terra Inútil, seja realmente uma analogia a todo esse fluxo de nossos pensamentos e resmungos que nos visitam em momentos de desatenção e ansiedade, sendo realmentes inférteis, estéreis. Inútil com certeza não foi sua influência, obra que garantiu ao autor o Nobel de literatura de 1948, assim como o reconhecimento de ser um dos grandes expoentes do modernismo literário. O exemplo de T.S. Eliot nos mostra que, com certo grau de genialidade e criatividade, nossa briga diária com o cérebro e sua sabotagem, pode render bons frutos. Como diria o velho ditado...aquele...putz...daquele cara lá...aquele do...ah, juro que esqueci.


Para meu tio Mauro.


Referências:

BOORSTIN, Daniel - Os Criadores, Uma História da Criatividade Humana. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 1995.


ELIOT, T. S. - A Terra Inútil. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 1956.


Fiona Apple credita seus cães em seu novo disco; veja a lista. www.tenhomaisdiscosqueamigos.com




Felipe Cará


 Bacharel em Ciências Sociais pela UFSCar. Mestrando no programa de pós em Ciência Política (PPGPol - UFSCar), estuda Reforma Política, Sistemas Partidários e Legislação Eleitoral. Amante de gatos, filmes e gastronomia





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