No painel de hoje 
Buscar
  • Painel

Malditos Robôs! IV

Falar em polarização política no Brasil na anômala normalidade política cultural que estamos é chover no molhado. Estamos metidos em bolhas em que nazistas de esquerda, marxistas culturais, e Youtubers revolucionários povoam nossos pesadelos. Hoje existem aproximadamente 3500 estirpes de esquerdistas e direitistas no Brasil, das mais variadas matizes e credos. Pois bem, o problema está exatamente em como definir e conceituar o que é esquerda e direita no Brasil steampunk pós-2013. Esse não é o intuito deste texto devido a minha incompetência histórica e política sobre a temática. Mas é um debate que busco estudar quando posso. Por isso vou experimentar aqui um pequeno debate resenha a partir do livro do historiador inglês Richard Barbrook.


Me deparei com o livro Futuros Imaginários ao fazer algumas pesquisas sobre cibernética. O argumento do livro é mostrar como um imaginário de desenvolvimento tecnocientífico perpassou a sociedade estadunidense ao longo do século XX como sinônimo de desenvolvimento nacional. Dentro desse argumento, Barbrook desdobra variados debates sobre como as noções de uma sociedade integrada, porém descentralizada, era um dos ideais modernos norte americanos no período pós segunda Guerra. Isso posteriormente se desdobrou em todo um desenvolvimento tecnocientífico militarizado difuso com relação a produção de uma "sociedade da informação", uma "aldeia global". Toda a questão dos comandos e controles de informação que foram sendo desenvolvidos na área conhecida como cibernética, tinham seus fundamentos informáticos aplicados às lógicas frias das disputas geopolíticas entre "capitalistas" e "comunistas" nos anos 1950. Segundo Barbrook, o próprio Wiener, um dos teóricos propulsores da cibernética, era um pesquisador bastante a esquerda, enquanto von Neumann, outro teórico também propulsor das pesquisas cibernéticas, já vinha com uma crítica aguçada e polêmica ao mal que o comunismo poderia fazer ao mundo.


Com essa passagem pela cibernética, e pelos departamentos de governo estadunidenses como os futuros propulsores do que hoje chamamos amplamente de "world wide web", Barbrook aponta como essa "ameaça comunista" era uma preocupação de republicanos e democratas. Geralmente os republicanos são os conservadores e os democratas, liberais. Entretanto, quando trazemos esses termos para a semântica brasileira, a coisa fica complicada. Temos conservadores de esquerda e direita, temos liberais de direita e esquerda e, atualmente, novas estirpes de liberais-conservadores se proliferam em velocidade pandêmica. Aqui no Brasil temos uma ideia de que ser liberal é, efetivamente, ser de direita, efetivamente por que a noção de liberalismo referida é a econômica e, com isso, o liberalismo econômico se transmuta em uma visão política conservadora. Contudo, nos últimos anos, um certo movimento de liberalização dos "costumes" passou a ser forjado por movimentos de direita, que passaram a reivindicar um liberalismo econômico, porém politicamente incorreto, Transante e festivo. O verdadeiro bonde do rolê. O monopólio do bunda-lele não era mais da esquerda, que acabou se tornando quase a defensora da "moral e dos bons costumes".


Mas não é disso que trata Richard Barbrook em Futuros Imaginados. O que o autor nos dá é uma perspectiva tecno-cultural de como a esquerda estadunidense se moldou ideologicamente a partir de meados do século XX. Os principais teóricos da esquerda estadunidense formada ao longo da primeira metade do século XX eram "ex-comunistas". E comunismo para a elite governamental e de pensamento estadunidense passou a ser sinônimo de "Stalinismo" depois da 2ªGG.


Caras como Burham, Bell e Rostow, segundo a pesquisa histórica e teórica de Barbrook, retiraram Marx e a luta de classes do materialismo histórico dialético e forjaram muitos elementos para uma terceira via político-econômica que foi útil aos Democratas na Guerra Fria. Barbrook chama essa terceira via estadunidense, baseada num fordismo cibernético de bem estar social (um certo 'capitalismo planejado'), de "Esquerda da Guerra Fria". Depois da segunda guerra mundial, os próprios democratas operaram de várias formas a questão da ameaça comunista nos EUA. Isso se refletiu fundamentalmente na academia, nas teorias sociais. Muitos teóricos, para combater a ideologia soviética, passaram a fazer uma leitura dos trabalhos de Marx , mas retirando o peso que esse autor dava a luta de classes no modo de produção capitalista. É isso que o Barbrook chama de "esquerda da guerra fria". Ou seja: uma expressão teórica que se mesclou com as políticas do partido Democrata. Essa esquerda estadunidense trabalhou em cooperação com a política de desestabilização geopolítica levada a cabo pelas políticas de Estado norte americano e suas agências de Inteligência (Lembrar que a CIA é praticamente um tanque Cultural criado para o combate do "comunismo" na guerra fria e congrega republicanos e democratas). Resumindo: é muito provável que a atual noção popular que todo o espectro de “esquerda” é “comunista” ou “marxista cultural”, tenha ligações plausíveis com um processo geopolítico de produção de “identidades teóricas” que parece se tornar agudo nos últimos tempos. E isso também poderia ser pensado para todo um “espectro destro” que circula em intenso conflito e busca de coesão, ou não, por aí.


Sabendo que é muito conspiração teórica para vocês de uma vez, Semana que vem a conclusão desse debate resenha buscando pensar como são vistas essas influências da "esquerda americana" nos atuais debates políticos ideológicos no Brasil contemporâneo.


Referência: Futuros Imaginários: das Máquinas Pensantes à Aldeia Global. São Paulo, Peirópolis. 2012.





Mrc


escreve solto quando possível No Painel






168 visualizações
O que você achou dessa exposição ?
APOIE A NOSSA CAUSA
Deixe uma doação única de R$10
arrow&v
logo painel.jpg
logo painel.jpg