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Meritocracia: fim ou meio?

Em toda sociedade existem dois grupos: Os governantes (as Elites detentoras do poder) e os governados (restante da população). As Elites se organizam visando à manutenção e perpetuação do poder alcançado. O poder se reproduz conforme pequenas concessões aos grupos externos ou apenas sendo distribuído internamente, a depender da sociedade e forma de governo. Confesso vaga recordação da construção teórica em si, mas esse era mais ou menos o embasamento da Teoria das Elites de Gaetano Mosca.


Já em Michels (esse sim que dei a devida atenção por meus trabalhos acadêmicos) dizia em sua Lei de Ferro da Oligarquia que por mais democrática que uma organização se apresente, há uma tendência natural interna a concentração e manutenção de poder em oligarquias (grupos minoritários) devido às complexidades administrativas e a tomada de decisão, replicando modelos “piramidais”.


Observa-se um pensamento pessimista enquanto a defesa de um modelo de Democracia baseada minimamente em princípios de Igualdade (Isonomia na garantia de direitos igual) e Equidade (Adaptação que garantem a justiça sobre a condição humana), e embora às vezes, eu seja pessimista em relação à oferta da democracia como método político, não sou fatalista ao ponto de ignorar a possibilidade de transformação da ordem social vigente, e assim colocá-la como objetivo!


Mas não estou aqui para falar de teoria. Na verdade peço desculpas por ter começado o texto dessa forma. Uma das coisas mais legais que obtive com a experiência em No Painel foi buscar reflexões sobre temas cotidianos e receber comentários de amigos pelo entendimento das referências e, também, de pessoas não tão próximas agradecendo as considerações. Sinto-me muito orgulhoso quando consigo estabelecer essa conexão sendo esse meu objetivo a cada escrita! Mas voltemos às danadas das Elites!


Recentemente conversei com um amigo próximo sobre o termo “meritocracia”. Com clara consciência das injustiças vigentes em nosso sistema social e entendendo que nunca houve um ponto de partida igual entre os diferentes integrantes dela, ele queria entender até que ponto a meritocracia poderia ser totalmente abolida, e assim, como seria a vida prática sem ela, algo que parecia inalcançável, partindo do seu conhecimento prioritário da hierarquia no Mercado de trabalho.


Tentei explicar, de forma rasa, que até onde eu sei, a utilização do termo inicialmente veio a contestar os privilégios de nascimento (baseados das sociedades absolutistas) sendo assim, o conceito isolado do contexto não teria que ser observado de forma totalmente negativa, mas que eu considerava ainda mais importante a consciência demonstrada por ele sobre contestação da máxima que nossa sociedade costuma enfiar goela a baixo (Fórmula matemática: SUCESSO = MÉRITO INDIVIDUAL).


“É ÓBVIO Heythor, isso eu já sei”, e por mais que pareça claro, eu mesmo tendo a naturalizar esse pensamento em vários momentos da minha vida. Tendemos a chamar de injustiça conquistas externas em geral e associar as nossas realizações às vitórias individuais. Não estou aqui excluindo mérito individual de cada um, sou da premissa de comemorar um Dez em uma prova como final de campeonato! Mas busco maior entendimento sobre o coletivo em que estamos inseridos. Acredito que o exercício de observação do outro e a negação do individualismo como órbita universal teriam que ser constantes, pois a lógica do auto-interesse e a competição são inertes à sociedade capitalista na qual estamos inseridos.


O tema ressurgiu em minhas reflexões recentemente com a fala da ilustríssima primeira dama do Estado de São Paulo (Bia Dória) em requintada reunião com Val Malchiori debatendo sobre pessoas em situação de rua. Não querendo utilizar um recorte de fala fora de contexto, mas Bia apresentou o seguinte argumento: “as pessoas que estão na rua, não é correto você chegar lá na rua e dar marmita e dar porque a pessoa tem que se conscientizar que ela tem que sair da rua. Porque a rua hoje é um atrativo, a pessoa gosta de ficar na rua”.


A fala por si só causa incômodo. Incômodo pela falta de reconhecimento e humanidade no outro, incômodo pela tentativa de uniformização e generalização de algo tão complexo e principalmente incômodo ao relatar que a rua é um atrativo em sua mansão no Jardins. Porém, meu ponto principal aqui não é na fala. Por mais absurda que ela seja, minha principal indisposição se relaciona à naturalização do pensamento, e isso não é exclusividade da Senhora Bia Dória. As elites nacionais compartilham de tal lógica relacionando sucesso à conquista financeira individual e, por conseqüência, o fracasso, a falta de esforço, ambição e trabalho. Acredito que o tema traga diversas outras reflexões e argumentos. Poderíamos aqui contestar a relação de trabalho à renda utilizando o viés marxista ou ainda descrever o“espírito do capitalismo” tratado por Weber nos valores relacionados à propriedade do individuo, mas busco aqui introduzir um debate sobre a insensatez que tratamos o “Sucesso”, como forma individual.


Outra observação derivou de meu interesse individual atual em estudar minimamente o mercado financeiro de ações. Comecei a acompanhar algumas páginas das redes sociais e ali a lógica do “sucesso depende de você” é reproduzida de forma insistente. Não aproveitar alguma “oportunidade de ficar rico” manifesta-se como erro tolo. “Trabalho + Dedicação = Sucesso” é instrumentalizado como fórmula matemática, como se seu esforço fosse maior do que qualquer outro relacionado aos inúmeros trabalhos existentes e a consequência desse processo resultasse em sucesso financeiro natural. Há também um incentivo ao individualismo relacionado à métrica do “Iluminado” na qual sua conquista é iminente, pois “você pensa mais que os outros”, logo, merece o sucesso. Talvez dedique outro texto apenas as minhas observações relacionadas a isso, porém, quis trazer um exemplo de condicionante de pensamento que relaciona o ganho à conquista individual ignorando todos os fatores que envolvem a partida, o contexto e o coletivo, refletindo na lógica de pensar em si mesmo e no outro.


Quando a Falsa-Lógica da meritocracia nos é escancarada, como no caso da fala de Bia, tendemos a nos incomodar de forma mais evidente. Outro exemplo disso foi o caso trágico do menino Miguel, causando justa comoção popular. Porém, enxergar o coletivo de forma não soberba, nem valorizar status pelo fundamento exclusivo do mérito pessoal tem que ser algo constante. Fico extremamente triste ao recordar que, sendo um jovem de classe média da capital paulista, presenciei diversas situações semelhantes ao ocorrido descaso com o menino Miguel, durante minha infância, sem a tragicidade de seu desfecho. Convido-os a refletirem sobre situações também presenciadas por vocês. Só assim podemos entender e mudar as situações vigentes.


Um amigo artista (acompanhem seu trabalho de @_rads) me relata que quando presencia alguém falar sobre conquistas individuais isoladas, ele já sabe que houve falta de entendimento sobre o processo percorrido - “Ele viajou sem olhar para janela”. Tendo a concordar sem acréscimos.


Retomo ao pensamento sobre a teoria das elites ressaltando que ela reforça a necessidade de utilizar uma fundamentação ideológica ao merecimento. O sistema socioeconômico que privilegia as camadas economicamente privilegiadas necessita de uma narrativa que permita a quem está em sua base acreditar que poderá chegar ao topo, através de seu próprio esforço. Nesse caso, são importantes os pequenos exemplos que sucesso financeiro partindo do zero (quem nunca ouviu a história do Silvio Santos?). Porém, a falácia do mérito se apresenta mais como um “fim”, uma justificativa a manutenção da ordem vigente, do que um meio que relaciona esforço individual a conquista, como se a isso fosse uma questão de escolha.


Além disso, esse pensamento reforça nossa condicionante passiva de aceitação a ordem vigente. Se chegar lá só depende de mim, por que devo me opor? Quando na prática apenas observamos o a reafirmação do ditado popular: O de cima sobe, o de baixo desce.


Finalizo a reflexão citando uma definição de meritocracia do Dicionário da Política, revelando algumas de suas consequências pela análise individual: “A atitude meritocrática, ao invés, representa o contrário de igualdade e de democracia, mesmo que, à primeira vista, isso não apareça claramente, por que uma seleção baseada na avaliação cientifica da inteligência e dos esforços de cada um pareça justa; o resultado, porém, será somente uma massa passiva cada vez mais desligada da elite intelectual”

Heythor S. Oliveira


Cientista Social (UFSCar), Mestre em Ciência Política (UFSCar)  e especialista em gestão pública municipal (Unifesp). Trabalhador do SUAS e morador da Zona Sul da capital paulista. Falo sobre politica e assuntos diversos . Tentando acreditar em um mundo melhor, me ajudem.

ilustração capa: Marivaldo Oliveira

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