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No painel Convida #10-“Sobre encontros: a experiência da rádio entre o presencial e o online”

No Painel Convida dessa semana: Luiz Gustavo e Juliana Alcantara são graduandos em Ciências Sociais pela UFSCar e pesquisadores do NaMargem (Núcleo de Pesquisas Urbanas), da mesma instituição. Luiz, no processo de compor textos, rabiscos e narrativas, tece a si e à escrita. Juliana escreve para não esquecer.

Luiz Gustavo Pereira e Juliana Alcantara


Lavo minhas mãos

Ligo as antenas

Os próximos episódios

Eu espero a cena

-Quarentena - Verso Livre, Rincon Sapiência


Manhã de uma terça-feira anterior à pandemia. Tempos diferentes dos que passamos agora eram os que podíamos nos encontrar nas ruas de São Carlos, no caminho para o mercado, para a faculdade. Muitas vezes nos encontrávamos ao acaso; o acaso fortuito dos encontros, dos mal encontros, dos desencontros, dos que encontrávamos sem querer, e dos que sem querer encontrávamos. Marcávamos, também, em algumas vezes. Em uma dessas, combinamos de nos encontrar na entrada do Departamento de Sociologia, na área Sul da UFSCar. Para os que não conhecem, a universidade é dividida em dois grandes espaços imaginários, sem delimitações concretas como muros: a “área norte”, que compreende cursos de ciências biológicas e exatas, e a “área sul”, dos cursos de ciências humanas e sociais. Essas divisões têm consequências bem concretas: pela roupa reconhecemos, julgamos, hierarquizamos e sofremos os pesos de todos esses procedimentos. Quem é da “área norte” veste sapatênis e camiseta polo, paira sob o nosso imaginário quase que compartilhado por comunicação em rede, que facilita a informação circular de maneira livre. Do lado oposto, os chinelos são sempre bem aceitos. Assim é parte de como as fronteiras simbólicas que nos cercam são desenhadas e inscritas no cotidiano, sobretudo nas formas espaciais.


O caminho era sempre o mesmo, ainda que parecesse novo para alguns de nós. Lado a lado descíamos, com as mochilas nas costas, observando a piscina à nossa esquerda, há tempos não muito frequentada. Atravessávamos para a calçada da frente e, assim, podíamos nos enxergar espelhados na porta de vidro da agência bancária. Alguns passos são suficientes para percorrer o gramado e alcançar a rua. Nesse trecho do caminho, a passagem de veículos estava interditada, o que permitia que nós e outros caminhássemos despreocupados pela via. Na primavera, exatamente ali, um espetáculo acontecia: os ipês brancos desprendiam-se das árvores, flutuando em cascatas até o chão, de onde formavam uma densa e acolchoada camada de matéria orgânica. Ao passo que andávamos, sentíamos também o pé levemente afundar nesse tipo de revestimento. Adiante, os gansos e o lago.


Daí, sob o sol da manhã incidindo diretamente sobre nossa face, subiríamos as escadas que nos levariam diretamente ao outro espaço. Passaríamos, antes, pelo RU (Restaurante Universitário), local onde sapatênis e chinelos ocupam um lugar comum. Compartilhado. Nesse espaço de transição entre "área norte" e "área sul", costumávamos experienciar a alteridade com mais força através das músicas nas caixas de som, das vendas de convites para festas, da panfletagem, dos olhares furtivos do outro lado da mesa, e até do modo como se descasca uma laranja. Por meio dessas relações contrastantes, no entanto, é que o cotidiano era compartido. Naquela manhã de terça, porém, éramos apenas nós. Estávamos nos preparando para gravar um programa da rádio UFSCar, que iria “ao ar” já na próxima segunda-feira.


O programa na rádio UFSCar, o Às Margens da Cidade, nasceu em 2015 como um projeto de extensão. De lá pra cá, muita coisa mudou, como também muita coisa permanece a mesma.


Ainda que possa parecer um trabalho razoavelmente fácil quando ouvimos o produto final, gravar um programa esconde uma série de procedimentos, de modos de falar, de respirar, que acabamos conhecendo a complexidade só no momento. “Chega mais perto do microfone” e “errei, posso voltar? Qual era a última frase?” são apenas algumas das situações que ilustram bem esse processo, para nós. Do outro lado, o do técnico de som que é o responsável pela padronização dos áudios, não conseguimos sequer imaginar os trâmites: estabelecer um padrão em todos os demais programas, editar, “colocar no ar” no dia e horário corretos. É verdade que por vezes ouvimos os trabalhos prontos e esquecemos de quem está por detrás do “palco”, possibilitando que os “atores” entrem “em cena”. Se admitimos esse processo como várias pessoas trabalhando juntas, a cena só pode ser entendida enquanto uma junção dos bastidores, de fato, e de quem apresenta.


Vencemos o último degrau. Caminhávamos, então, para a biblioteca, nosso segundo ponto de encontro, onde estariam nossos convidados, Matheus e Domila. Ambos foram - e continuam sendo - figuras importantes na construção do Às Margens da Cidade. A ideia de reuni-los para uma gravação nos pareceu preciosa, já que gostaríamos de rememorar os cinco anos de existência do projeto de extensão. Matheus foi quem escreveu o projeto e quem, logo depois, passou a apresentar os programas semanais. Domila veio somar em seguida, juntando-se à Matheus na função de apresentadora. Nosso encontro, combinado e remarcado há dias, era um esforço de conservar e comemorar o que eles começaram e que nós continuamos. Rememorar em conjunto é compartilhar experiências que nos tocam, nos sensibilizam e, no limite, nos afetam. O passar do tempo, assim, não é apenas o passar do tempo; é também a construção de uma relação que, quando em companhia, fornece um eixo comum. Nesse sentido, ali o programa nos unia. De lá, partimos para a Rádio, finalmente.


Enquanto nós ainda éramos rostos desconhecidos, vagando pelos corredores de um lado para o outro, para os que lá trabalham Matheus e Domila eram recepcionados com intimidade. Sequer foi preciso mostrar-lhes o caminho; ao contrário, foram eles que nos guiaram até o estúdio. Para quem acompanha pela primeira vez, o estúdio fornece mesmo imagens que recorrentemente vemos em filmes, séries e gravações de videoclipes. A imagem é fortificada pelos microfones, enormes, que partem de um pedestal fixado no chão e vão diretamente em encontro com as nossas bocas; ou então pela parede, na pequena sala, com isolamento acústico. Tudo muito profissional, sem condições materiais e técnicas de reprodutibilidade em nossas casas. Um vidro, também, separa nós do técnico de som. Inaudível, em gravações anteriores recebíamos suas falas e instruções por intermédio de mímicas e gestos. Um levantar de sua mão, para nós, é entendido como um aumentar da voz; um mexer na boca perto de sua mão, como falar mais próximo ao microfone. Assim vamos nos ajeitando, nos entendendo.


Naquele dia, já familiarizado, Matheus pediu um microfone. Recebeu um desses grandes, que cobrem as duas orelhas, bem diferentes dos que acompanham nossos aparelhos celulares. O dispositivo serviria para facilitar a nossa comunicação com o técnico de som, para estabelecer um canal de comunicação mais fácil de reconhecimento por ambos os lados. Após todos os ajustes, começamos a gravar.


A voz saía tímida e atropelada, por vezes, nada parecido com as vozes experientes e articuladas de radialistas. Profissionais que não somos, de fato, mas que nos servem de algum parâmetro, afinal. Uma sensação estranha no estômago fazia parte das impressões que nos perpassavam no momento. Ele roncava, não de fome; se remexia, não de dor. Um entusiasmo ainda acanhado, balbuciando palavras, as pronunciando com receio diante do grande microfone também somava-se em parte à nossa experiência, ainda inicial, com as gravações naquele dia. Pouco a pouco, a estranheza foi se dissipando e cedendo lugar a um impulso novo.


O ambiente, daí em diante, foi tomado pelas lembranças de nossos convidados. Memórias desde o programa piloto, gravado por Matheus naquele mesmo estúdio há cinco anos, e o reconhecimento daqueles que passaram - e permanecem, de diversas formas - por ali, como afetos de Domila, nos contagiaram. Enquanto ocupávamos o papel de entrevistadores, pouco a pouco fomos sendo embalados pelo fluxo de suas ideias, que nos guiaram pela quase uma hora que ali permanecemos. Pode parecer estranho, mas não raras são as vezes em que o tempo de gravação é menor do que o tempo do programa. Explicamos: isso porque não tocamos as músicas; gravamos somente as falas. Chamamos as músicas, sim, mas entre um “bloco” e outro repousa apenas alguns segundos de espera. Esse hiato é o espaço destinado às músicas. Elas aparecem somente no trabalho de edição, para o técnico de som, e, para nós, ouvintes, somente às segundas-feiras a partir das 22 horas. Aparecem depois, também, no próprio site da rádio, onde os programas são armazenados em formato podcast.


***


Naquelas primeiras gravações que realizamos na rádio, a sensação inicial era quase que sempre a mesma. A escolha da cena repassada ao leitor pela escrita, não selecionada ao acaso, resume boa parte daquilo que sentíamos, das emoções que experienciávamos. O caminho, na maioria das vezes feito a pé, era também o caminho de preocupações com as nossas falas, com a quantidade de tempo, em minutos, que teríamos, com as nossas pontualidades. Era o caminhar junto compartilhando sobre medos, anseios, fofocas. Sobre um trecho interessante da música do BG, som que fica ao fundo enquanto falamos, que despertara curiosidades, indagações e pensamentos diversos; sobre coisas que não vão “ao ar”. Uma soma de diversos fatores, esperados ou não, compõem a obra apresentada como um produto final. Evidentemente, é também verdade que cada gravação é única: a junção, embaralhamento e sobreposição desses fatores não é quantificável.


Desde o início da pandemia, nossa dinâmica vem se alterando. Se antes nos encontrávamos de forma presencial, inserindo nosso corpos no mesmo espaço físico e compartilhando do mesmo ar, hoje somos restringidos às ligações de vídeo, de áudio, em plataformas das mais diversas. Isso porque temos condições para fazer isso, diferentemente de tantas outras pessoas. Internet “boa”, computador, celular ainda não são uma realidade para muitos dos brasileiros, mesmo que avanços significativos tenham ocorrido nas últimas décadas. Quando a classe trabalhadora é inserida nessa sociedade do consumo, em um movimento que seguiu nas últimas décadas, o policiamento das fronteiras sociais é refinado pelas classes médias e altas com o intuito de manter separações e distanciamentos bem delimitados. Quando o João, que mora no bairro longe e que pega dois ônibus para chegar no trabalho compra um iPhone, seu uso do dinheiro é visto como não moderno, como não seguindo uma lógica que teria, em seu funcionamento, a inteligência como pressuposto central. Seu gosto, como vemos estampado em muitas postagens e falas corriqueiras do dia a dia, deveria ser pela necessidade. Uma necessidade de consumo que exclui e não inclui; que segrega, e não agrega.


Mesmo que não estejamos juntos, e salvo o adendo, nos vemos nas telas de nossos aparelhos tecnológicos. Reconhecemos os traços, as faces, os sorrisos e o fone pendurado na orelha, um importante símbolo de todo esse processo. Hoje gravamos assim: por intermédio de nossos celulares, computadores. A rádio, como um projeto de extensão, é também algo que nos liga a um projeto de difusão de conhecimento.


Nessa migração que estamos tendo, as condições de reprodutibilidade do que seria um áudio "ideal" não são por nós alcançadas, é verdade. Ainda que tenhamos os aparelhos mínimos necessários à gravação, nada se compara aos que tínhamos na sede da rádio. Sobre o tempo, é também verdade que ao longo desses últimos 5 anos muita coisa mudou. Na situação política enquanto acontecimentos recentes, nem se fala. Se nós já não somos mais os mesmos de antes, rememorando quem passou por aqui apresentando também vemos que fomos muitos. Muitas vozes dessemelhantes, muitas entonações diferentes, sotaques, jeitos diversos de conduzir as gravações. Por vezes, até mesmo o formato já chegou a mudar: com convidados fizemos algumas gravações, como só com os apresentadores, vinculados ao NaMargem – Núcleo de Pesquisas Urbanas, também chegamos a gravar. Em todo esse tempo fomos – e continuamos sendo - muitos.


No decurso dos anos, entretanto, algumas coisas não mudaram. Como quando em uma máquina fotográfica, desde o começo a nossa lente foi a música e, em especial, das periferias urbanas brasileiras e estrangeiras. É com ela que enxergamos as mudanças sociais nas cidades e em suas margens. A música, como um elemento sociológico, além de contextualizar o período também nos conta muito sobre temas que são tratados posteriormente pela bibliografia. De lá pra cá estivemos debatendo Sociologia, sempre com muita vontade, e continuamente embalados por uma playlist finíssima!

[1] Para ouvir os programas anteriores, em formato podcast, acessar em: https://www.radio.ufscar.br/podcastfilter/as-margens-da-cidade/. Estamos também no Facebook, no link: https://www.facebook.com/asmargensdacidade/, e no Instagram, no @asmargensdacidade.


ilustraçao capa:Luiz Gustavo



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