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No painel Convida #11-Pandeminicanos-Marco Sartori

No painel convida dessa semana: Marco Sartori é formado em Jornalismo pela Faculdade Prudente de Moraes, e Imagem e Som pela UFSCar. Assume as rédeas como Operador de Áudio e Microfonista, além de se arriscar também como roteirista, cronista, cineasta e cozinheiro. Dizem que faz uma boa moqueca. 

Ritual do sono. Deito na cama, deixo tudo ir embora para dormir. Enquanto o silêncio reivindica seu lugar na cabeça, a atenção se volta para minha garganta. Algo cresce ali. Um sussurro apenas, um presságio. Uma sensação familiar, como de uma película revestindo o pescoço por dentro. Quebro o silêncio na mente, em seu lugar surge um mantra. "Não há nada de errado". Deixo o mantra se repetir até cair no sono.

Pela manhã seguinte, de fato, nada de errado. As profecias não se cumpriram, os astros continuam alinhados, o universo conspira a meu favor. Deixo pra lá. A noite, um novo aviso. Nada na garganta, contudo um calor sobe pelas entranhas, cruza o peito e se aloja

no rosto. Pequena fadiga. Mas nada na garganta. Assim mesmo, uma certeza começa a tomar corpo. Mesmo assim, nada na garganta. Já escutou aquela do cara que se joga da cobertura do prédio e a cada andar passado diz "Até aqui, tudo bem!"? Pois é.

Outra manhã. Na garganta, nada de película. Agora é uma semente. Uma semente com uma promessa que começa a espalhar seus primeiros ramos, galgando carne e músculo em direção à cabeça. Não há mais mantras, apenas uma constatação que se repete como

um disco em rotação baixa, as palavras cuspidas tão vagarosamente que perdem o sentido. "Você tá doente, se conforme".

Mas doente como? Ali do outro lado das paredes de casa, covid tá comendo solto. Dividindo espaço com os pais, ambos acima dos 60, ambos vacinados. Saindo uma ou duas vezes pra pegar o básico do básico do básico. A mão ressecada de tanto álcool em gel. Contando os segundos com elas embaixo da água na pia. 1, 2, 3... 20 segundos. O dia todo. Saio de casa, bato as mãos no bolso e confiro a cara: carteira, celular, chaves, máscara. Ok, pode sair. Como aconteceu isso de ficar doente?

Bola pra frente. Mas perae, qual doença? É como no inverno, quando a gente vai tirar a roupa do varal. "Isso daqui tá molhado ou tá gelado?" "Isso daqui é gripe ou é covid?". A primeira luta é travada na mente, não deixar a paranóia se apoderar de tudo é o objetivo. Ao mesmo tempo, não baixar a guarda e não infectar mais ninguém da casa. A companheira também espirra. Já é 50% da nossa população. Apesar de tudo, até aqui, tudo bem

Cuidar do nosso frágil bioma. O microcosmo particular que consiste em quatro humanos, um cachorro, um gato e várias plantas. Visita do irmão e dos sobrinhos. Melhor não ficar muito perto, vai que eu passo. Mas a criança é pequena. "Vamo brinca tio." Tá, mas respeitando o distanciamento social. Como? Dá-se um jeito. Mas é diferente. O riso do menino vai sumindo, perde o interesse.

Coceira no nariz, espirro na curva do braço. Olho pro pano da blusa e penso em quem vive ali. Coço o nariz. Droga, contaminou. Melhor lavar a mão. Abre a porta do banheiro, abre o registro de água. 20 segundos. fecha a torneira. Seca a mão. Fecha a porta.

Paro no limiar e penso um instante. A maçaneta, deve tá contaminada também. Cadê o álcool?

Melhor fazer um chá quente, nariz tá tapando. Deixo o vapor da caneca entrar no nariz. Canela e cravo. Opa, eu sinto cheiro! Experimento o chá, gosto de maçã. Isso é bom sinal né? Sentir aromas e sabores. Parece que o covid tira isso. Deixo o líquido quente descer pela garganta. Alivia ao mesmo tempo em que o calor envolve como um abraço. Respiro fundo. Também consigo fazer isso bem, o ar tá entrando legal. Esboço um sorriso. Mas e os assintomáticos? E se? O sorriso vai embora. Manter o alerta, porque até aqui, tudo bem.

O tal do novo normal é uma estranha fase de readaptação. Readaptar os sentidos, controlar a cabeça. Respirar pra não pirar nunca pareceu tão real. Viver um dia de cada vez, sem esperar pelo fim. Nessa nova etapa, nos sentimos logrados. Diziam que as distâncias entre as pessoas iria encurtar através da tecnologia. Presos em casa, não há tecnologia que vença em nos aproximar. Nunca o nosso mundo pareceu tão menor. De tanto ver os mesmos quartos, os mesmos móveis, às vezes parece que nem os reconhecemos mais. A casa perdeu o caráter de conforto, ganha novos significados, alguns deles não tão otimistas. Estrangeiros dentro de nossos próprios lares.

Mas por hora, o importante é que dá pra respirar. Por enquanto, até aqui, tudo bem.


Ilustração capa: Idu online

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