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No Painel convida #13 : -Haluane Santana de Oliveira-O jardim na sacada

Apesar de ser uma pessoa bastante racional, pragmática e urbana (que prefere mil vezes conhecer uma nova cidade há uma praia paradisíaca), ultimamente, tenho tido a necessidade de me conectar com aspectos mais “naturais”, algum contato com a dita natureza. Isso tem se traduzido num novo hobbie: o cultivo de plantas na sacada do apartamento (não é todo mundo que tem um quintalzão ensolarado, não é verdade?). Os Vasos são organizados em uma estante simpática, encostada a única parede da sacada que pega sol.


Nas variedades cultivadas, gosto das flores, é claro, pela cor que elas trazem à casa. Mas tenho apreciado também das plantas “funcionais”, o que englobam temperos e chás, acho que por conseguir assim estabelecer uma conexão mais direta (e pragmática) com a nova prática, já que consigo consumir o que brota por lá. Também tenho me divertido estudado um pouco sobre as propriedades medicinais de algumas plantas e fazendo suas respectivas infusões, mesmo com ervas compradas à granel para complementar, já que não dá para criar tudo na sacadinha. Nessas novas descobertas, uma de minhas invenções foi carinhosamente chamada de “chá curandeiro” pelo meu namorado, já que a mistura focava em energia e imunidade. Já meu irmão me questionou se eu fazia parte de alguma nova seita quando, por ele ter adoecido, levei a sua casa chás para dormir, para diarreia, para gripe, entre outros.


Nunca me vi fazendo isso. É muito interessante quando vamos descobrindo novas versões de nós mesmos.


Mas esse passatempo foi fortalecido, é claro, pelo novo regime cotidiano imposto pela pandemia, que mistura a trabalho remoto, a ausência de passeios ou distrações internas, o estabelecimento de uma nova relação com sua própria casa (como escrevi em meu último texto). Adicionalmente, talvez ainda mais destacado pela premente necessidade de sentir que se está fazendo algo em benefício da sua própria saúde.


Assim, um dos objetivos de tentar cultivar temperos, é conseguir uma opção mais saudável de alimentação. De cultivar a hortelã do chazinho milagroso que ajuda em tudo, e a melissa (meu novo bebê) da infusão calmante que me ajuda na insônia, faz com que eu possa me sentir ativa em relação ao meu cuidado, fazendo algo, não esperando a situação passar - ou “o mundo acabar” como às vezes nos sentimos nos dias mais “donw” dessa quarentena.


Recomendo fortemente, para quem se interessar, tal divertimento que é cuidar de umas plantinhas.


No entanto, escrevo esse preambulo para destacar uma outra reflexão, a partir dos aprendizados que venho tirando desse meu jardim na estante. Gostaria de deixar claro que não sou exatamente uma exímia jardineira, o que em outras palavras significa: não faço a menor ideia de como cultivar uma planta, só aprendi na escola que precisam de água e luz. Então tudo aqui é na tentativa e erro. Não sei o que fazer quando a embalagem diz que a planta necessita de boa drenagem e certamente as rego demais – meu desafio atual vem sendo tentar regular a frequência para dia sim dia não, e acompanhar o que acontece.


Dessa forma, é obvio, uma parte das minhas tentativas não dá tão certo. Plantei mês passado sementes de abóbora e salsa que não chegaram a nascer. Meu coentro, depois de temperar até miojo, com muito orgulho, parece que deu uma secada, mas creio que vai se recuperar. Das minhas cinco orquídeas, só duas florescem, embora as outras tenham mais de ano, firmes e fortes, deve faltar algum nutriente para esse florescer.


E algumas plantas morrem. No início isso me deixava meio chateada. Ou me fazia pensar que não tinha talento (aqui é aquela voz interna da autocobrança me atormentando). O meu lado mais autocentrado se martirizava porque eu havia deixado a planta morrer! Que coisa feia, Haluane.

Um belo dia, enquanto meu namorado fazia sopa (plantar o tempero certamente não inclui cozinhar nos meus dotes, e nem nos meus planos) e eu ajudava a cortar legumes, pegamos do fundo da geladeira uma beterraba bem velha, que estava com duas folhinhas tímidas brotando em cima. Meu primeiro pensamento foi: “céus, esse negócio tá aqui a tanto tempo que está brotando! Deve estar estragado”. Porém, meu companheiro disse: “por que você não planta, Amor? Vi numa reportagem que se você planta esses tacos de beterraba, cenoura, eles brotam”


A princípio, achei uma ideia ruim, pensando que não tinha como nascer uma cenoura ou uma beterraba em um vasinho de 15 cm, que era o que eu tinha disponível. Se pegasse, não ia durar. Mas talvez até por certa empolgação dele em me dar essa ideia, e pela minha curiosidade em novos experimentos (já fazia um tempo que não plantava coisas novas) eu plantei a cabeça da beterraba com as duas folhinhas - o corpo dela foi pra sopa mesmo meio murcho, e deu tudo certo.


E não é que a bendita pegou!!! Em uns dois dias as duas folhinhas já estavam bem maiores. A cor da folha era linda, porque tinha um roxinho de beterraba no meio. Eu adorei! Logo também saiu outra folha. Meu novo Xodó. Me senti por alguns dias “a jardineira do século”, porque tinha BETERRABA plantada na sacada.


Mas obviamente eu estava certa no começo.... a beterraba não tem como crescer no pote de 15 cm. Calhou de acontecer logo na minha primeira tentativa de espaçar mais as regas, depois de um fim de semana preenchendo os vasinhos com um pouco de terra vegetal, para dar um “up”: a beterraba amanheceu murcha ☹.


Tentei nos dias seguintes por mais água, mas não surtiu efeito – a folha escureceu, e após uma longa vida de umas duas semanas, a beterraba foi decretada como morta. Fiquei triste, e depois até meio brava, no pique “que droga, nada dá certo” (a montanha russa de emoções na quarentena está a mil!). Outras plantas também estavam meio capengas, o que poderia reforçar minha sensação de fracasso.


Mas depois de uma boa respirada profunda, uma olhada no resto e, retomando o eixo, acho que tirei um grande aprendizado (a necessidade de filosofar com qualquer acontecimento na quarentena também está aflorada).


A natureza tem uma sabedoria, e tem seus ciclos. Nascer, viver, morrer, e renascer, fazem parte desses ciclos. E nós, como parte integrante da natureza, temos que aprender a operar melhor com eles.


Me parece que o ser humano tem uma relação meio ruim com a perda: o medo da morte, a evitando-a a todo custo. Contudo, a Morte faz parte da vida. A vida só existe porque existe a morte. E a gente tem que aprender a conviver com isso, ou seja, a deixar as coisas morrerem.


Eu não quero tratar aqui, em especial nesse momento delicado, do aspecto mais temido e literal da morte, a dos humanos, dos entes queridos. Mas sim da morte das coisas. Dos fins. Das perdas. Assim como temos pavor da morte (o fim dos fins) temos o medo, traduzido no apego, de perder, de ver o fim das diversas coisas que nos cercam. De perder um emprego, de romper uma relação, de nos afastar de um amigo. Às vezes, como nesse momento que escrevo, dá até um aperto no coração porque o Domingo morreu (e amanhã é segunda, e tem que trabalhar, que saco!). Temos receio e apreensão de “deixar ir”.


Eu particularmente sempre tive esses medos aflorados. Me corroí, na infância, com cada vez que tive que mudar de escola e me afastar das amizades, batalhadas a tanto custo, vencendo a timidez (e para o meu azar, foram muitas trocas de escola). Sofria ao colocar um brinquedo na caixa pra doar, mesmo já sabendo que não brincava com ele, porque o estava “abandonando”. No início da idade adulta, isso se traduziu em uma dificuldade em desistir. Isso a princípio pode ser uma virtude (e em muitos casos é), mas se aplicado a tudo, não dá certo: insisti em amizades que já não faziam sentido, em sonhos que já não traduziam o que eu queria. Demorei pra mudar o rumo profissional por que não queria assumir que o que eu achava que era para mim não era. Não terminei relacionamentos que já estavam fadados ao fim. Fui segurando as coisas, jogando água em plantas que já estavam secas, na esperança de reergue-las.


Mas a vida não flui assim, e tenho tentado ativamente aprender a deixar as coisas morrerem. E agora, com todo esse cenário mundial, exercitar esse aprendizado se torna ainda mais necessário. Pois, com certeza, as previsões de “novo normal”, na verdade denotam uma conclusão clara: a vida que boa parte de nós tínhamos como normal, morreu.


Diante da dificuldade de conter esse vírus, e do que já se veicula na imprensa sobre a possibilidade de outras pandemias surgirem. Nossa relação com nossos hábitos de higiene e saúde, de certa forma, morreram. Diante do “corre corre” que boa parte dos privilegiados trabalhadores de classe média se viram para transformar seus trabalhos presenciais em home offíce, a nossa relação com nosso trabalho, com nossas casas, com nossos colegas e com nossas famílias, do jeito que erram praticadas, morreram também. Nada mais será como antes.


Aquela muvuca na pipoca atrás do bloco de carnaval morreu também. Sinto informar.

Creeedo! Affe, menina, até parece que não vai ter mais carnaval! Diriam alguns críticos. Imagina, brasileiro esquece rápido, jajá está tudo igual. Diriam outros. E é verdade, em certa medida. Claro que eu não sou besta, e nem pessimista, e acho que tudo isso vai tornar a acontecer.

Mas não por resistir, totalmente - e sim porque, em alguma medida, uma parte de cada uma dessas coisas que vai voltar a acontecer na verdade estará renascendo, depois de morrer em partes. Vão estar se recriando, a partir da impossibilidade de permanecer igual, se configurando em uma nova forma de apresentação. São os ciclos de transformação, de vida-morte-vida. Ainda teremos carnaval, futebol, e tudo mais. Mas os olhos com os quais olharemos para eles serão diferentes. Como? Não faço ideia, mas serão. E teremos que aprender a deixar ser assim, nos readaptar.


Eu, à princípio, imaginava que teria uma dificuldade imensa para me adaptar a essas mudanças. Mas até que me virei bem. E ao olhar para o meu jardim de estante, percebi como ele tem me ajudado nessa prática.


Como eu disse, a beterraba não foi a primeira frustação – como iniciante, já perdi várias. Perdi um manjericão frondoso, maravilhoso, para uma praga estranha que apareceu, há um ano atrás. Uma verdadeira pandemia no meu jardim, tirou a vitalidade também de outra hortelã, varias kalanchoes (vulgo florzinha coloridas que crianças dão no dia das mães). Na época tentei recuperar as plantas de todo jeito. No entanto, em uma visita à minha casa, minha mãe sabiamente olhou pra mim e disse: “você tem que jogar fora, filha. Se não vai matar ainda as que estão boas”. Depois de mais de uma semana pensando e sofrendo, respirei fundo e joguei as plantas doentes fora.


Percebi que dessa vez, um ano mais sabia, decretei a morte da beterraba em um dia de tentativa. E tudo bem. E assim, nesse momento de reflexão, percebi como minhas plantinhas tem me ajudado a aprender a aceitar que a vida é assim. Que as coisas vivem o tempo que elas têm que viver, e depois completam seu ciclo, e são engolidas por outra força da natureza. Não que não mereçam cuidado – pois eu cuidei, mas nas minhas limitações, limitações que todos nós temos, cada um no “seu quadrado”. E assim, nessas circunstâncias, a beterrabinha viveu, pôde crescer, ter duas lindas semanas de sol, e deixar o vazo nutrido para a próxima coisa que eu me arriscar a plantar ali.


E tudo bem.


ilustraçao capa: bspar

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