No painel de hoje 
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No Painel convida #14 : -Luiz Francisco Francelin(Chico) -“DO CIGARRINHO DO GERSON” AO “TO NEM AI”

No painel convida dessa semana: Luiz Francisco Francelin (chico) jornalista com mais de 35 anos de experiencia em diferentes meios de comunicação.


A pandemia no Brasil escancarou aos quatro cantos do país uma divisão social aqui existente, que mostra o quão individualista é grande parte da população brasileira.


Essa tendência que teve seu fomento na década de 70 – em pleno auge do governo militar – com o famoso comercial de cigarros da marca Vila Rica, protagonizado pelo craque da seleção brasileira e tri campeão do mundo, Gerson, o canhota de ouro.


Nele, o craque dizia que o brasileiro tinha que aprender a levar vantagem em tudo certo? Esse tão famigerado comercial espelhou uma sociedade que já existia naquela época e passou a ser uma marca da sociedade brasileira por muitos anos após sua divulgação.


Este conceito de levar vantagem em tudo, de ser esperto, ladino, de ser safro moldou gerações e criou costumes muito utilizados aqui no pais, que comumente observamos nas ruas, que vão desde um semáforo ultrapassado no vermelho, como furar a fila no supermercado, ações estas estereotipadas como: “o famoso jeitinho brasileiro”.


Recentemente assistimos o desembargador de Santos usando o “jeitinho brasileiro”, para se safar de uma multa, mas, para nossa felicidade isso vazou e ele acabou ridicularizado por grande parte da sociedade.


Mas, seguindo um conceito bíblico onde Jesus disse “ Aquele que dentre vós está sem pecado, seja o primeiro que lhe atire uma pedra”, fica a pergunta, quem nunca, mesmo que por uma vez já se utilizou desse “jeitinho brasileiro” “para levar vantagem em tudo certo?”.


Muitos dirão que não, e outros poucos assumirão que sim, mas o que vale analisar é o contexto histórico desta tendência. O “jeitinho brasileiro” que hoje aliás, está bem mais enfraquecido que outrora - no regime militar isso era mais claro e evidente entre as pessoas -, mesmo assim, hoje ele ainda é muito praticado por uma pequena parcela de nossa população.


Após a promulgação da nova constituição em 1988, que é mais nova que muitos brasileiros – inclusive eu -, isso passou a ser mais combatido, a ser mais divulgado, mas apesar disso, o que observamos ainda no dia a dia é que estamos longe de uma sociedade organizada, igualitária e mais cidadã.


“O cigarrinho do Gerson e o jeitinho brasileiro” ainda permanecem estruturados no alicerce social deste país e este concreto duro e maciço foi reforçado com a mudança na direção pedagógica da educação brasileira, já que a escola passou a formar cidadãos para o mercado de trabalho e esqueceu dos direitos e deveres, da educação moral e cívica, muito utilizada no governo militar e esquecida nos governos néo liberais e socialistas. A deturpação de sua essência por ambos sepultou essa esperança.


Formar trabalhadores cidadãos e não cidadãos trabalhadores traz uma grande diferença quando se olha o espectro da grande massa brasileira. Temos hoje mais da metade da população que não completou o segundo grau, uma grande parte nem o fundamental e a universidade ainda é privilégio para poucos.


A deturpação da função da escola na sociedade formou gerações de famílias com essa “cara”, fomentando ainda mais o conceito “do cigarrinho do Gerson e do jeitinho brasileiro”.


Essa grande massa vem por décadas fortalecendo esta tendência e o fruto disso se colhe quando a pandemia escancara a necessidade de uma ajuda mutua entre as pessoas, para que os efeitos devastadores desse mal, sejam amenizados e para que a morte não passe a ser uma noticia de jornal no dia a dia das pessoas.


Anteriormente, observávamos na televisão notícias ruins diárias que eram esquecidas por outras notícias ruins, que passavam a ser comentadas somente naquele momento e logo caiam no esquecimento, já que outras noticias mais fresquinhas e igualmente ruins nos chamavam a atenção.


A pandemia escancarou a morte em massa como um fato medíocre do cotidiano, como mais uma noticia ruim e hoje você liga a tv e o apresentador fala - nas últimas 24 horas morreram mais mil pessoas -, como se você estivesse em um supermercado pedindo – por favor me venda mil gramas de carne crua -.


Esse “ to nem ai, to nem ai “ foi a prova de que desde “o cigarrinho do Gerson”, passando “pelo jeitinho brasileiro” e culminando agora com o “ senão me afeta, então foda-se”, evidenciam comportamentos sociais do brasileiro que devem ser repensados e combatidos no seio familiar, no ambiente escolar, pelos governos e principalmente na consciência de cada um.


Isso mostra que após a pandemia se nada for feito, poderemos no futuro, termos aqui gerações de crianças insensíveis a qualquer coisa e a violência pode ganhar, se nada for feito “ares” de governo. Aliás, ela - “violência” -, já está hoje muito próxima disso, quando observamos que a arma hoje se mostra mais importante que um livro.


Mas, a intenção deste texto não é falar de governos e de políticos, pois cada povo tem o governo que merece, pois é ele, esse mesmo povo que o elege democraticamente. Essa é a nossa realidade e não adianta reclamar, pois os culpados ou os inocentes são os próprios brasileiros quando exercem o seu direito ao voto.


Fica aqui uma breve reflexão para a sociedade que temos e à sociedade que queremos. Nós iremos morrer um dia, mais cedo, ou mais tarde, deste ou daquele jeito ou modo, mas nossos filhos, nossos netos, as futuras gerações de brasileiros aqui neste solo ainda estarão e cabe a cada um de nós colocar uma semente de cidadania, de respeito e amor ao próximo, de patriotismo – não o fundamentalista -, mas sim, o que semeia a união entre pessoas neste local chamado Brasil

Como sempre dizia o meu grade amigo Rui Cereda “QUEM VIVER VERA”.

ilustração capa: diário do comercio


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