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No Painel convida #17 : -Christian -United State of Portuguese Crown – Um Eterno (e Doentio) Retorno

“...O lábaro que ostentas estrelado/ E diga o verde louro dessa flâmula/ Paz no futuro e Glória no passado...” imediatamente ao pensar nesse trecho do Hino Nacional me vem à mente uma outra melodia: “...Será que é imaginação? / Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão?...” e a resposta, em 99% das vezes tem sido SIM: “nos perderemos entre monstros da nossa própria criação”, como profetizou Renato Manfredini Junior (1960-1996), apelidado de “Russo”; e muito mais conhecido da maioria de quem pacientemente me recebe NoPainel de hoje, pela primeira vez.


Guiado pelos meus queridos herdeiros, Heythor e Haluane, já praticantes de ricos diálogos com vocês, chamei à lembrança de um ícone de minha geração - o Sr. Legião Urbana – que, como eu, nasceu naquela delirante república dos Estados Unidos do Brasil (nosso nome oficial de 1889 a 1968). Mas que também como eu, e boa parte de vocês décadas antes e depois, alimentou um sonho americano de grandeza, riqueza, liberdade, consumo e felicidade... dizendo para si mesmo: Por que não nascemos nos EUA? Como versão futurista do sonho. Ou na versão passadista... Por que não nos livramos jamais dessa maldita herança da Coroa Portuguesa?


Duas perguntinhas tão fáceis de reeditar quanto as montagens visuais que adoro fazer com símbolos, gravuras e formas geométricas. Por isso, inspirado na primeira bandeira de República Golpista do Marechal Deodoro da Fonseca – tão expressiva do “sonho americano” e com vida útil de 4 dias (15-16-17-18/11/1889) resolvi trazer para seu canto direito inferior o brasão das armas da Coroa Portuguesa, cujo centro ainda identifica a atual República de Portugal, mas com sentido diverso. Explicado o delírio, que tal passarmos para o conteúdo? Afinal, onde você que chegar com essa brincadeira dos Estados Unidos da Coroa Portuguesa, meu delirante Professor Christian Dennys?


Calma lá, Pessoal. Vamos sim conversar sobre esse conteúdo, mas devo antes esclarecer duas coisas eticamente indispensáveis quando, nesse mundo de bombardeios radicais de julgamentos da Mídia Social, somos cobrados mais pelo que não dizemos do que pelo que aparentamos dizer. Primeiro: A ironia do título dessa crônica vem autocrítica social de um brasileiro, que respeita e valoriza profundamente povos vizinhos (na Terra, somos todos vizinhos), como os estadunidenses e lusitanos. E que tem com todas as demais Nações do planeta uma admiração sincera; mas que por óbvias razões, não conseguiria fazer um texto sobre nossos vínculos históricos com a Hungria, Eritréia ou Papua Nova Guiné, utilizando esse jogo de ideias. Deixo isso para conterrâneos mais inspirados, ok?


E, em segundo lugar, não esperem defesas “nacionalistas” dessa reflexão, pois já vivi um pouquinho (55 invernos tropicais, alguns infernais tal qual os verões) para saber na pele e na alma que as nações são “construções imaginárias” modernidade europeia. E podem no séc. XXIII ou XXXII simplesmente não existirem mais. Meu Deus, o que faríamos se esse novo delírio for verdadeiro? Resposta: Pouco importa; pois meu problema é falar do estado-nação-doentio que vivemos no eterno HOJE. E hoje, somos esse anômalo Estados Unidos da Coroa Portuguesa (EUCP, para abreviar). Vamos aos fatos.


Faz 5 meses, perseguimos o desempenho sanitarista americano na luta contra a COVID19; o “distanciamento diplomático” frente a OMS, por considerá-la oficialmente chinesa demais! E não estamos na cola apenas por questões estatísticas de contaminados, internados e falecidos. Reproduzimos os discursos e as polaridades; reconduzimos repetitivos debates, nas cadeias telejornalísticas; reinventamos formas de dizer que a Pandemia acabou, ou já nos adaptamos a ela; ou não mais novidades que as questões econômicas, tomadas como estrela maior de todas as constelações de problemas. Um museu de grandes novidades, como diria Cazuza, outro contemporâneo/conterrâneo que não assistiu esses últimos 20 anos do século mais conectado e mais desesperado de todos que Era Cristã nos proporcionou.


Ops... eis aí eu já assumindo a nacionalidade EUCPense ou EUCPeira, com a lógica plena do egocentrismo coletivo de achar que nunca se viveu um tempo/espaço assim. Bobagem! Ou distração do embalo da conversa. O que estou lembrando aqui é que continuamos em franca construção de uma sociedade democrática com referências desatualizadas sobre o chamado “Estado de Direito”. Porém, “perdidinhos da silva” sobre como fazer isso. Ainda mais porque o modelo de futuro, o norte-americano é simplesmente insustentável, pois via nacionalismos familiares e monopolistas, esmagou o Partido Republicano em nome de uma aventura mafiosa e integralista. Tudo pelo comando do “Czar” Donald Trump Primeiro e Único. Os Democratas – simbolizados pelo asno diante do elefante - pensam que já viveram e ouviram todos os alertas da Grande Depressão e da II Guerra Mundial, para não deixar o monstro crescer.


Acontece que ele já cresceu e se multiplicou! Basta olhar para Brasília e outras capitais da CNN/BBC internacional, saudando o Grande Irmão anunciado por G. Orwell no livro “1984”. O modelo de futuro, que concebemos, aqui é um eterno futuro de insanidades; mesmo que a maioria dos brasileiros, nascido pós o fim de nossos Estados Unidos do Brasil, não carregue nominalmente o sonho de estadunidense. Sinto dizer, mas o nome social de um coletivo de 212 milhões de sonhadores brazucas não apaga o outro modelo: o modelo imperial da coroa, carregado de brasões do passado. Há que se reinventar nossa pequenez nacional, como estratégia pedagógica – como Portugal e Espanha e tantos outros em estratégias confederativas, de contraditória unificação dos diferentes. Sim, uma União estilo “Europeu” é um começo de caminho. Mas incompleto, sabemos, porque os sonhos de gigantismo nacionalista ali também sonambulam (vide Belarus, Polônia e Hungria nas últimas eleições e nas que ainda virão).


O nosso caso é de um eterno retorno doentio, porque a Velha Coroa escravagista, patrimonialista e latifundiária, de nobreza lusitana, permanece nesse chão e vai “muito bem obrigada”. Seja com a desfaçatez absolutista dos clamores ao agronegócio, seja na defesa do armamentismo e dos ataques constitucionais; seja na estúpida desigualdade étnico-social; ou na certeza de que tudo começou com a corrupção política das máquinas partidárias (MDB, DEM, PSDB, PT etc.) e todas as suas variantes corporativas. Mas começou agorinha e democraticamente! Haja simplismo, Senhor! Pensam ainda que a judicialização total da vida nacional seja o único caminho de justiça (ou vingança) a ser conduzido por um Trump do Povo, capaz de exercer o Mito do Rei aclamado a passar mais 4, 4, 4...anos em campanha pela perpetuação da Sagrada Família Justiceira.


Não temos saída no modelo futuro (EUA trompista) nem no modelo passado (Coroa real).

Entretanto, temos como continuar conversando, sobre essas e mais outras alucinações vividas nesses United State of Portuguese Crown, enquanto desmatamos as riquezas de nossos biomas. Assim como quem sente a dor das pelas perdas de inocentes estejam eles tombados na guerra antiviral dos hospitais; nas retaliações urbanas das facções ou no abandono dos sertões desconectados. Neste desespero, tocar fogo é tentar a reinvenção existencial de nossos ancestrais.


Se não conseguirmos o controle do cozimento; queimamos tudo ao redor. E se conseguimos, fazemos uma festa para beber e esquecer o que conquistamos! Tem sentido, tanta ignorância na pátria Eterno Retorno? Sentido descompromissado, sim. Bom mais aí é um salve-se quem puder!

Para não nos estendermos nas semelhanças, que eternizam no Brasil o que há de pior nos Estados Unidos e o que há de melhor na Coroa Portuguesa, busquemos, nesse finalzinho de papo, uma luz de sabedoria na contramão dos modelos. O Professor Doutor Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Souza, um plebeu que virou catedrático na Universidade de Lisboa - e que nas horas vagas de seu trabalho docente, em ensino remoto, preside a atual República de Portugal – causou-nos “espanto” por viver a grandiosidade do cargo na pequenez da cidadania. Ele sabe que qualquer saída para crises depende da capacidade de negociação a exaustão, 24horas/dia. Por isso surpreende tanto que um “político” possa ou deva viver como um cidadão comum.https://brasil.elpais.com/verne/2020-05-19/a-foto-do-presidente-portugues-no-supermercado-que-surpreende-mais-o-resto-do-mundo-que-portugal.html E que sonhe para além da Política, justamente por compreender a forte vulnerabilidade de seu povo e de seu país.


Nunca desejei tanto ser cidadão de um paisinho sem expressão nem empoderamento midiático. Ser alguém na fila do supermercado em Lisboa, Montevidéu, San Jose, Reykjavik, Acra ou qualquer urbe que não tenha pelo se orgulhar de um Gigante Adormecido; tipo o corpinho do Abaporu de Tarcila do Amaral. Precisamos achar um jeito de rasgar essas bandeiras do delírio sobre os Modelos. E nos modelar com o que realmente torna uma nação sadia. Até o próximo!

Convida#17: Christian Dennys

Ilustraçao capa : Christian Dennys


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