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No Painel convida #18 : -Paulo Roberto -VAR: Tecnologia nova, problema antigo

No Painel Convida de hoje: Paulo Roberto Filho, Gestor de Tecnologia da Informação, produtor e editor audiovisual na Pafmapiu, brasileiro nato e mais uma cabeça pensante pra somar, dentre tantas, Acredita na emancipação da sociedade civil por meio da educação. Sujeito esquisito.

Em TI, o termo User Experience (UX) é designado para tudo que envolve o modo como qualquer usuário interage com o sistema, site ou aplicativo.Quanto melhor for a experiência do usuário desde o primeiro contato, e incluímos aqui também as emoções desses momentos, maior deve ser a satisfação do cliente e mais provável será sua fidelização.


A tecnologia e justiça absoluta proporcionada pelo VAR é incontestável, mas na ótica da experiência dos envolvidos (jogadores, técnicos, torcedores e telespectadores) é um fiasco. Vivenciar a êxtase de um gol e vê-lo invalidado após 5 minutos, é tão arrebatador quanto tomar um gol. Sofrer um pênalti aos 47 do segundo tempo, ter a partida paralisada por 7 minutos, para que em seguida a decisão inicial seja anulada , interrompendo o ímpeto do time nos minutos finais, é como pedir para que o fato nunca tivesse acontecido.


Essa necessidade de desempenhar um papel não só cirúrgico no âmbito da arbitragem mas também sobretudo ser veloz, reforça o alto grau de complexidade que esse tipo de tecnologia demanda no contexto do jogo.


Vale fazer um recorte quanto a implantação do VAR, especialmente no Brasil, quando foi oficializado há pouco mais de 1 ano atrás no torneio nacional. De lá pra cá, colecionamos episódios envolvendo falhas de comunicação entre a cabine e juízes gerando demora durante a análise e tomada de decisões, enquanto na Europa a média de tempo de paralisação com o uso da revisão de vídeo, está em cerca de 46% menor que o tempo que registramos por aqui, segundo o último balanço da FIFA. Além deste fator, o recurso é demasiadamente usado em cenários de jogo onde não é indicado, afetando diretamente placares de partidas oficiais.


Mas antes de se precipitar e dizer que aqui no Brasil “nada funciona” ou assumir tranquilamente que as instituições são corruptas e por essa razão a tecnologia não é adequadamente usada (falaremos disso ainda no texto), é necessário se desdobrar na maneira que o VAR foi implementado no país, a partir de uma visão técnica.

As boas práticas no setor da tecnologia da informação sugerem que todo novo software, aplicativo ou sistema passem pelo que chamamos de ROADMAP (traduzindo pro português, um mapa do caminho) que traça, passo a passo, de que forma a equipe irá gradualmente implementar as partes da solução, ou seja, é a partir do Roadmap, que é possível identificar potenciais problemas quanto ao uso e com isso, poder avançar com o cronograma de melhorias (ou retroceder, se necessário).

O único roadmap feito até aqui, basicamente, foi a programação prévia do uso do VAR com relação às competições (inicialmente,em decisões da Copa do Brasil, em 2018, depois Brasileirão e estaduais). Acontece que o calendário é extenso e não favorece simulações adequadas, além de não ter definido em nenhum momento, limitações quanto ao seu uso, permitindo um método de incremento contínuo da tecnologia, a fim de validar variados contextos. Mas Ok, não se chora o leite derramado, seguimos.


Outra prática de suma importância durante o processo de adoção de uma nova tecnologia, é o treinamento dos profissionais diretamente ligados a ela, seja os técnicos de suporte ou o que chamamos de “usuário final”, aquele que satisfaz seus objetivos por meio da solução, ou seja os árbitros. Popularmente contestados devido a alta incidência de erros técnicos, entre os mais citados, a falta de consistência de critérios e a interrupção incessante do fluxo do jogo, não foi exatamente a capacitação inicial dos juízes perante ao primeiro contato com a tecnologia que foi ineficiente. Pelo contrário, a empresa responsável por trazer o treinamento de VAR no país,é a mesma responsável por conduzir o treino dos árbitros da Copa do Mundo em 2018, onde o recurso foi lançado para o mundo.

Então afinal, porque ainda estamos presenciando erros que comprometem o esporte como um todo, mesmo com a adoção do vídeo?



O descompasso entre o desempenho brasileiro e europeu toma contornos culturais quando vemos que ocorre principalmente por causa da ausência de capacidade dos árbitros brasileiros de discernir suas ações em campo (e na cabine, rs) com relação às implicações e efeitos colaterais destas, fora das 4 linhas. Aqui no Brasil, os cartolas (como chamamos a corja de dirigentes e executivos que ocupam cargos altos nos clubes) sentenciam carreiras, não só de jogadores e técnicos mas também de juízes, que uma vez assumindo a culpa pelo erro, são sistematicamente removidos da escalação de jogos e ficam “na geladeira” até a pressão dos agentes diluir sob a instituição e eventualmente ser esquecida (o processo demora, graças a cobertura da imprensa e em alguns casos, as ações nunca são esquecidas, principalmente por parte de torcedores).


Dada as circunstâncias, é possível dizer que ainda que filiados pela CBF, instituição responsável pelo quadro e preparação de árbitros e mais conhecida pelos episódios de corrupção, estes profissionais são constantemente assediados por todos os lados causando invariavelmente danos na performance do ofício, fadados a repercussão externa de cada pênalti ou gol anulado, mesmo com ajuda da tecnologia.


Não sabemos ao certo quais foram todos os fatores em torno da decisão de implantar o VAR no futebol brasileiro, além da necessidade urgente de extinguir e evitar os erros capitais de jogo, mas é certo que foi uma “virada de chave” abrupta no ecossistema do futebol, ainda mais sendo considerado uma tecnologia disruptiva, que provoca ruptura nos padrões do esporte. A implantação mal planejada somada ao conservadorismo que assola o Brasil, compõe o panorama reacionário do esporte, afinal se tem algo que uma classe detentora de privilégios, seja no futebol ou fora dele, insiste em sustentar, é a constante oposição à mudanças entre estruturas já estabelecidas. Resta saber, até quando essa resistência ao avanço vai perdurar e até quanto, a influência dos bastidores pode interferir na incontível vontade de transformarmos esse esporte na melhor e mais justa experiência possível. Pra quem acredita que futebol e política não se misturam, pasmem, já interagem há muito tempo. Haja paixão...


Conheça o Trabalho do Paulo:https://www.youtube.com/user/PAFMAPIU

Ilustração capa: CBF

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