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No Painel convida #2 : Mariana Reis -UMA AVÓ, UMA NETA E UMA QUARENTENA

No Painel convida essa semana Mariana Reis, pedagoga, educadora, brincante e em busca da arte, apresenta uma história real vivida em meio a quarentena.


Nem só de pandemia vive uma quarentena! Depende de como você treina seu olhar para o mundo, as vezes é preciso desembaçar a vista e fazer-se enxergar melhor! De repente tudo se torna diferente, e foi assim, desembaçando os meus olhos que tive a oportunidade de enxergar uma nova avó e descobrir mais sobre as profundezas daquela alma.


Amélia: 92 anos, mãe de 9, avó de muitos e bisavó de alguns. Cozinheira, costureira, benzedeira, rezadeira e trabalheira.


Os dias ao lado dela são mais lentos, esse rítmo faz com que eu possa observar a vida e de fato viver o presente, coisa difícil nos tempos modernos não é mesmo? Ela não tem instagram ou facebook, nem mesmo número de telefone, não liga pra televisão, a não ser na hora da missa, mas ela valoriza os instantes e os detalhes.


Esses dias fizemos um doce, o famoso doce de litria, ela queria presentear cada filho mandando entregar na casa de cada um (tempos de quarentena), mas o danado não ficou como ela queria. Vovó dormiu pensando nele e acordou pensando nele, decidida a refazer tudo de novo. Eu fui resistente e tentei convencê-la de que não era necessário (pra quê “perder” tempo refazendo tudo?) Mas no exercício de aprender a ceder, lá fomos nós pro fogão. Não é que ela estava certa? O doce ficou perfeito e ela com sua grande sabedoria disse “Se for pra eu fazer algo, eu vou fazer direito, não entrego coisa mal feita”.E sigo refletindo sobre a dedicação que cada um de nós deveria colocar nos afazeres diários, nos trabalhos a serem entregues, nos cuidados consigo mesmo.


Cada gesto que acompanha ela durante o dia é feito de uma maneira tão sutil que me toca. Ela não bebe um copo de água digitando uma mensagem, ou ligando pra alguém ou pensando no que tem que fazer sem mesmo lembrar se bebeu ou não a água. Ela caminha até a água, arrastando a pantufa, abre a garrafa, bebe alguns golinhos mirando os olhos na janela, engole, mata a sede, aprecia e vai se sentar na poltrona. Me custou uns dias para enxergar esse movimento. É uma das lições sobre o tempo que tem me acompanhado nessa estadia. Aliás, o que é o tempo? Quanto tempo o tempo tem? (documentário no Netflix) Você tem tempo?


Vovó reza de manhã e de noite, muito além de uma religião, ela é uma mulher de fé. Ela acredita no bom, no belo e no verdadeiro. Faz uma cruz na massa dos biscoitos antes de amassar ou na panela com o doce antes de ligar o fogo. Em um de seus calsos contou que no aniversário de 90 anos, após a celebração da missa onde todos os familiares e amigos estavam presentes e após uma chuva de homenagens, foi parada na porta da igreja por uma Dona desconhecida que disse: “Amélia, você plantou muito nessa vida hein? Estou impressionada com sua colheita”. Ela plantou sem a intenção de receber nada em troca, mas porque sua alma é pura e generosa. Sobre doação e entrega. Por onde andam essas almas nesse mundo aurívoro?


Em uma das nossas tardes de prosa e cantoria, ela me contou que meu bisavô, pai dela, tocava um acordeon de 48 baixos, como ele não tinha a mão esquerda, foi adaptado um, onde tocava com o pé esquerdo e a mão direita lindas canções que alegravam e animavam o povoado do Lamim (cidade no interior de Minas onde ela nasceu). Pro dia das mães eu procurei um sanfoneiro que pudesse fazer uma serenata e alegrar o dia dela. Encontrei doutor, engenheiro, advogado.. mas e os sanfoneiros? Por onde andam? Será que pelos interiores do Brasil afora tocando para suas senhoras? Dessa vez não pudemos apreciar o som de um Dó ou de um Lá.


E quando me vê pulando corda na sala da casa, dá uma pausa no crochê, olha, observa e comenta “Ah, eu, a Ruth, a Rita e as meninas gostávamos de pular corda pra trás contando quem pulava mais, ichi era uma folia só no meio das ruas de terra”. Será que os asfaltos que já engoliram nossos rios e árvores vão nos engolir também? Ou há de restar um pedaço de terra pras nossas crianças se permitirem serem crianças e brincarem como vovó brincou?


O crochê ocupa algumas das manhãs e tardes dela, ocupa a cabeça também, onde borbulham memórias tristes e felizes. Quando a tristeza bate na porta ela diz que não deixa entrar, começa a cantar ou a trabalhar. A delicadeza dela ao segurar a agulha naquelas mãos cheias de rugas e marcas de história e a perfeição em controlá-la com a linha que as vezes teima em desobedecer, se dedica a fazer panos de prato para vender, forrinhos de mesa e até sapatinhos para os bisnetos. Será que quando tivermos a idade dela seremos capazes de produzir algo tão sublime com as mãos? Ou vai ser preciso encomendar pela internet algo pronto e de pouco afeto?


Quando anoitece, o sol se despede e os olhos dela também parecem se despedirem sentada no sofá eles se fecham por alguns instantes. Olho pra ela, vejo um corpo cansado de um dia bem vivido, e chega a hora de ajudá-la no ritual do banho. Nesse momento eu percebo o sentido literário de presença. Nesses dias frios coloco muitas cobertas em cima dela, Vovó não pode gripar em plena crise de Covid-19. Vale uma massagem nos pés inchados e cansados, uma gota de colírio em cada olho, olho que transmite serenidade e um boa noite sem beijos e abraços como recomendou o Ministro da Saúde em tempos de pandemia. Como falar da vovó e não falar de amor? É mais simples do que pensamos, está presente nos pequenos gestos. Não exige muito esforço, mas o retorno, ah, esse é imensurável.


Esses dias por aqui, também aprendi um pouco de crochê, a fazer biscoitão, pão de queijo, suspiro, bolo e que não há limites, como disse vovó “tudo que a pessoa quer ela pode aprender, basta querer”.


Aprendi que a juventude ou a velhice estão dentro de nós, não importa qual seja a idade. Vovó jogou buraco, ganhou e perdeu; brincou de ‘Quem sou eu’ e deu boas risadas; ganhou escalda pés; cuidou e cuida de cada detalhe da casa, “acabou o povilho, tá faltando isso no armário”, pariu 9 filhos em casa, sem anestesia, só com a presença da parteira; perdeu um, e contou que “a vida é assim, boa e ruim, alguns dias estamos animados e outros não queremos ver ninguém, mas Deus sabe o que faz”.


E eu sigo a vida processando tantos ensinamentos. Espero seguir me inspirando na história dela, plantando, cultivando e pausando.. não posso me esquecer das pausas.



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