No painel de hoje 
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No Painel convida #3 : Tainá Reis -DA FEIJOADA AO CAQUI

No painel convida dessa semana: Tainá Reis, socióloga, adora a vida, mas o mundo, nem tanto, tem uma cachorra fofa para abraçar nos dias difíceis, como o dia narrado no texto.


Uma amiga trouxe feijoada. Pelo portão, passou a embalagem, conversamos à distância por alguns minutos. Fiz arroz e couve. A couve comprei de um pequeno agricultor que passa de porta em porta todo final de semana vendendo seus produtos. Sou cliente fixa.


Almocei e depois comi uma laranja. A laranja comprei de outro produtor que passa com o carro vendendo ovos e laranja. Laranja docinha, fiz suco e também descasquei e comi depois da feijoada. Satisfeita.


Hoje é aniversário de um amigo. Na mensagem, disse que os tempos são difíceis, mas que ele estava vivo e isso já era um motivo de comemoração. Me pergunto como estão ele e sua família - minha amiga e afilhada -, trancados em uma casa há mais de dois meses.


Na rede social, vejo a história de João Pedro. Reportagens e tantas outras críticas. Catorze anos. Estava brincando DENTRO DE CASA. Mas não era qualquer casa, estava no Complexo do Salgueiro, numa favela no Rio de Janeiro. Não era qualquer garoto, era um garoto preto. Essa combinação foi o suficiente para a Polícia do Rio de Janeiro atirar e levar o corpo embora; num Estado fascista, necropolítica, política de morte, de assassinato.


Dentro da minha casa, com minha cachorra, depois da refeição, choro. Como pude dizer pro meu amigo que ele deve comemorar estar vivo apesar dos tempos difíceis? Como viver? Alguns já não vivem, morreram sem ar nos hospitais, morreram sem ar em casa, morreram com balas de armas do Estado, morreram pelas mãos dos “companheiros” violentos[1], morrem lentamente pela fome e marginalização.


O Estado matando os pretos e pobres não é novidade, assim como não é o feminicídio. Com horror, convivemos com mazelas sociais há tempos. Mas nessa situação de pandemia, e no meio da instauração de um Estado fascista e miliciano, essas mazelas se intensificam, parecem estar mais escancaradas. A sensação é de desamparo (e desespero) – alguns mais do que desamparados, abandonados, assassinados.


A kombi do moço que vende caqui está passando. Mais um pequeno produtor vendendo seus produtos na rua. Corro pra encontra-lo. O caqui está doce. Saboreio. Será essa a pequena coisa da vida que devemos dar foco, para evitar enlouquecer diante da pandemia e do pandemônio?

[1] Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os casos de feminicídio, lesões corporais, estupro e estupro de vulnerável aumentaram em diversos estados do Brasil. Em Mato Grosso, os casos de feminicídio quintuplicaram. Conforme a ONU Mulheres, essa tendência também foi observada na Espanha, Alemanha, Reino Unido, França, Canadá, Estados Unidos e Argentina. Austrália, Singapura e Chipre notificaram aumento 40% e 30% respectivamente de chamadas em serviços de auxílio à vítima de violência doméstica. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2020-04/sp-violencia-contra-mulher-aumenta-449-durante-pandemia>

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