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No Painel convida #5 : Helder França- Infância quebrada 333

No painel convida essa semana: Helder França. Tricolor doente. Advogado. Mestrando em Políticas Públicas pela UFABC. Especialista em “Direito Penal e Criminologia” e em “Direitos Humanos, Diversidade e Violência”. Cria do Grajaú, cidadão de Capão Redondo City.


“Olha só aquele clube que daora, olha o pretinho vendo tudo do lado de fora. Nem se lembra do dinheiro que tem que levar, do seu pai bem louco gritando dentro do bar”. Edi Rock fez das dores e lágrimas da zona sul, o hino que ecoa no peito de cada universo em crise.


333 é onde me escondo, em uma rua que teve 9 pessoas chacinadas dentro de um bar há 3 meses atrás. O fim de semana no Parque continua ensolarado, com os bares cheios em meio ao coronavírus. Mas quem se importa?


As ruas podem não ser de terra. Essas agora estão na Terra de Vera Cruz, capitania hereditária do Fundão do Jardim Ângela, onde faço visitas domiciliares entre becos e vielas de segunda à sexta-feira, como trabalhador conveniado da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social.


O público? Desajustados, disfuncionais, desvalidos do pior quilate, bestializados que Kubrick jamais teria o mérito de projetar. Respondem a um processo, é verdade, sem sequer terem tido a chance de se reaverem com os seus.


Muitas vezes me pergunto se a fórmula mágica da paz é o “salário mínimo com base no DIEESE” ou ter um carnê pra parcelar, como um conterrâneo poeta gosta de cantar. Talvez aí esteja o problema. E o preço que se paga pela falta que a falta faz é não saber o que se quer.


Mas aí, como um mero mortal, curioso no sentido bisbilhoteiro mesmo (de uma personalidade transtornada que sei da qual sou detentor e ferrenho defensor), me lembro que existem pelo menos alguns caminhos que fogem um pouco da inspiração messiânica que lideranças históricas (e boa parte das quais, sem qualquer compostura ética para ocupar cargos de tamanha grandeza) disseminam em afronta à liberdade de imprensa na TV.


Nasceu em 1988, resultado de uma Assembleia Nacional Constituinte, com representação de diferentes camadas, setores, movimentos, organizações e grupos da sociedade civil, reforçando compromissos globais com outros engravatados na Babel dos povos, definindo que “é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.”


Primeiro como tragédia, depois como farsa, as chacinas se repetem sob as mais diferentes formas, inclusive como naquela fatídica noite de domingo. Asfaltadas ou não, as ruas da Brasilândia não tem Hospitais Gerais prometidos há anos. Concretamente, os abismos continuam sendo erigidos sob estruturas que nos expõem ainda mais às suas frágeis sustentações.


O bar é o epicentro das indiferenças, mas também a falsa promessa de cura de uma única realização possível. Na matemática, o 333 indefinidamente é o que se chama dizima periódica, pois jamais deixa de existir. No plano espiritual, 33 anos foi a idade da morte do Messias. Número emblemático, já que a Primeira Grande Guerra Mundial, conflito sem precedentes na história da humanidade, culminaria anos mais tarde na edificação do Terceiro Reich Alemão, com criação em 1933.


3 anos também é o período em que um adolescente autor de ato infracional pode permanecer internado em uma Fundação CASA. Muitos não terminam o 3º ano do Ensino Médio. Boa parte não possui uma família tradicional, com 3 integrantes em seu núcleo. Talvez 3 refeições diárias na mesa nem seja uma realidade. E quem se importa?


Todos lidaram, a seu modo, de algum jeito e em algum momento, com promessas de uma vida que não pediu permissão pra chegar. Seja em qual Capitania for, é amplo o seu pequeno universo, quiçá baixas suas expectativas e perspectivas, mas ainda assim múltiplas suas possibilidades.


Mais uma vez, temos a oportunidade de revisitar a memória para nunca mais retroceder. Como nas asas da Sankofa, é tempo de olhar para trás e ressignificarmos o presente, sendo nós mesmos nossos próprios Capitães.



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