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No Painel convida #7 : - Haluane Santana de Oliveira- Casa dos sonhos


No painel convida dessa semana : Haluane Santana de Oliveira. Arquiteta e Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela FAU - USP. Escrevo para passar o tempo e pensar na vida


Que a pandemia tem afetado a saúde mental de todo mundo já é um assunto que vem sendo discutido amplamente. Ansiedade e medo se tornaram companheiros diários de muita gente, e uma das primeiras manifestações físicas que podem aparecer são os distúrbios de sono.


No texto publicado aqui pelo Felipe, “Insônia”, temos um belo exemplo de como nossa mente gosta de nos sabotar, nos mantendo focados em coisas inúteis quando o que mais precisamos é descansar – fruto, talvez, de um estado de alerta no qual nosso instinto tenta nos manter vigilantes, a todo custo, frente às incertezas cotidianas.


Na minha experiência pessoal, tenho enfrentando uma segunda faceta dos possíveis distúrbios do sono – os sonhos “em excesso”. Não que sonhar, em si, seja ruim. Porém, caracterizo aqui o excesso prejudicial com noites em que sonhamos tanto que não conseguimos descansar, pois a fuga da perseguição zumbi durante os devaneios noturnos nos faz acordar com a sensação de termos sido atropelados por um trator!


Eu sempre sonhei demais, visões com enredos que meus amigos classificam como, no mínimo, curiosos. Também costumo me lembrar de tais sonhos logo quando acordo, e tento memorizá-los, para fazer uma análise mais tarde. Durante os seis anos em que fiz psicoterapia, eles foram uma fonte interessante de achados sobre minha própria pessoa.


Em um desses viajantes sonhos durante a quarentena, o enredo retratava-me mudando para uma nova casa: um enorme apartamento, com dezenas de quartos, que eu dividiria com todas as minhas amigas de faculdade, grupo com o qual tenho contato até hoje. Um sonho que me despertou uma certa saudade – tendo feito uma faculdade integral, na qual chegava a passar de dez a doze horas por dia, e morando longe dos meus pais, as “meninas super poderosas” (o nome de nosso grupo no WhatsApp), se tornaram minha segunda família. Quem nunca sonhou em juntar todas as pessoas queridas sob o mesmo teto, ainda mais num momento onde não podemos vê-las? Dividi com minhas amigas tal pensamento, acho que curtiram a ideia! Mas como nenhum sonho meu é uma maravilha, me atormentava uma grande aflição de não conseguir escolher um quarto no meio daqueles muitos – como se algo não se alinhasse, não surgindo aquele “estalo”,

para que eu me identificasse com um quarto, me sentindo à vontade.


Um segundo sonho recente me fez voltar à casa onde passei minha pré e plena adolescência (dos 10 aos 16 anos), em um condomínio na zona sul de São Paulo. Era a casa dos sonhos da minha família de classe média, que me permitiu pela primeira vez não ter que dividir o quarto com o “pentelho” do meu irmão, hoje autor ilustre do NO PAINEL. Nesse sonho, tive direito à nostálgica sensação de ver minha mãe pondo a mesa do café da manhã, na cozinha, e me sentir em casa.


Contudo, dessa vez a aflição do sonho foi representada pelo cachorro – o cachorro errado compunha aquele cenário, não era a querida Branquinha, a cadela que tive e de fato viveu nessa casa, no passado, mas sim meu atual filho canino, Dimitri. E, nesse caso, sua bolinha pequena de apartamento “passava” pela grade do portão da casa e se perdia, deixando-o meio louco no quintal.


O terceiro sonho de quarentena que resistiu ao esquecimento me colocava em uma família nuclear não com um, mas com onze irmãos (o filme “Doze é demais” e um clássico de minha infância!). Eu, a mais velha, passeava no centro da cidade com meu pai e alguns deles, mas voltei para casa mais cedo com uma de minhas novas irmãs – gordinha, baixinha, de óculos, cabelo Joãozinho e moletom laranja, para exemplificar a descrição realista que consigo encontrar nesses sonhos!


Nossa casa, um enorme galpão convertido nesse uso residencial – na maior tendência arquitetura cool de New York – continha uma área de banheiros grandes para dar conta da enorme família, com um box de vaso sanitário para cada um dos membros, seus nomes estampados nas portas.


Verdade que no lugar de doze vasos, poderiam ser só seis, já que seria ecologicamente mais viável revezarmos os dias de uso com um irmão, dia sim dia não, conforme algumas orientações oficiais de lideranças, mas não podemos impor a sustentabilidade relativa no mundo dos sonhos!


Minha querida nova irmã vai ao seu box e encontra uma surpresa: um peixinho dourado que apareceu na sua privada! Vai correndo perguntar à mamãe se pode ficar com ele - o meu “eu do sonho” se diverte em imaginar a cara de mamãe com essa pergunta – e me pede para vigiar o peixe enquanto isso. Vigiando, chego então à parte aflitiva – um outro peixe, cinza e grande, surge na privada de maninha, e pula para fora. Tento pegá-lo e colocá-lo de volta, mas ele me encara com olhos centrados e pula repetidamente para fora outras vezes. Entretanto, em uma dessas tentativas de pegá-lo, enfio a mão em uma de suas brânquias respiratórias e fico com a mão presa – tenho aflição de encostar em peixes, o que me deixa muito “nojentinha”, por exemplo, em banhos de mar e de rio, e a sensação pegajosa me faz acordar de supetão.


Talvez decepcione alguns o fato de eu ter dado todos esses relatos, e aqui informar que eram só relatos mesmo, não tendo chegado a nenhuma conclusão específica sobre nenhum deles. Minhas desculpas!


Contudo, notei nesses sonhos – e em alguns outros – um fio que talvez os conectem. As diferentes formas que se apresentaram a figura da casa. Afinal, são tempos nos quais, mais do que bom dia, nós ouvimos o #fiqueemcasa a todo momento. Mas que papel assume a nossa casa em tempos de pandemia?


Minha atual leitura, “Mulheres que correm com os lobos” de Clarissa Estés, me ensinou em uma passagem recente que a casa, em nossos sonhos, “reflete a organização do espaço psíquico” habitado por nós, consciente e inconscientemente. Representa como habitamos nós mesmos.


Minha psiquê evidentemente é meio bagunçada, como demonstram meus sonhos, e a realidade não ajuda a organizá-la: eu tive muitas referências de casa na minha vida – com trinta anos, atualmente moro em meu décimo endereço. No início da vida adulta, me comparando à colegas próximos, percebi que era um número relativamente grande. A “mudança” acabou virando um processo bem conhecido de minha família. Sob tal perspectiva, a Casa deixa uma pouco de ser um lugar físico, para se tornar um conceito meio nômade.


Apesar disso, eu posso dizer que tive também dez lares – porque a noção de casa como lar, esse aconchego, esse pertencimento, o acolhimento em cada uma delas, foi algo que sempre me acompanhou, em maior ou menor medida. Conheci pessoas de minha idade, nos meus círculos íntimos, que passando a vida inteira na mesma casa, não se sentiam tão bem ali quanto eu em minhas dez moradas.


Em parte, talvez, porque a essência da diferença entre casa e lar, house vs. home, esteja forte na interação pessoa-ambiente. Como arquiteta, na minha pouca experiência com o projeto de casas (passadas ou esporádicas, uma vez que trabalho no serviço público) não é raro ouvir de um cliente que quer projetar em uma casa coisas como “queremos aqui um lugar para receber amigos, fazer um churrasco, dar uma festa”; ou “um quarto para eu receber minha mãe, meu filho, alguém da família”, “um espaço paras crianças trazerem seus amigos para brincar”. Assim, é fácil perceber que o significado de lar se esvazia, quando não podemos compartilhá-lo com outras pessoas, internas ou externas a ele – mesmo esses visitantes queridos, que embora só apareçam uma vez no ano, nos fazem dedicar alas inteiras de nossos lares ideais para uso deles.


O significado do lar também fica prejudicado quando não vem acompanhado daquela sensação de chegar em casa como ambiente de refúgio, depois de um dia de trabalho cansativo, para ter momentos de paz, deixando de lado nosso “eu social”, profissional, para podermos passar a interpretar nosso “eu íntimo” e familiar – afinal, também somos todos mais de uma persona, donos e visitantes de nossos lares. A pandemia nos tirou isso – nossas “personas” têm se fundido.


E a casa virou o ambiente gerador do estresse (se já não era, no caso de pessoas com relações familiares, ou solitárias, mas são outros assuntos que merecem sua profundidade ao serem discutidos, em outros momentos). É agora o local do trabalho, e também da reunião chata, da briga com o chefe, fonte de cansaço para quem está trabalhando em home office; ou local de confinamento, de tédio, de tensão, para quem não tem esse trabalho para se ocupar.


Óbvio que escrevo isso ciente de minha “bolha privilegiada” de pessoa que manteve o emprego e os comodismos da vida estável frente ao cenário caótico que boa parte dos brasileiros enfrentam na outra ponta – só esse privilégio todo que me permite estar aqui escrevendo esse monte de groselhas. Infelizmente, nosso mundo se estrutura assim, e tento usar outros espaços para

colaborar em diminuir tal disparidade social.


Mas, desse lugar, percebo (até em meus sonhos) esse processo triste causado pela pandemia de nos tirar as boas referências que temos de nossos atuais lares, fazendo com que nosso inconsciente busque algumas alternativas em outros, passados ou projeções futuras.


Contudo, acredito também que temos algumas fermentas para, ativamente, tentarmos minimizar isso. A arquitetura sempre foi uma aliada – sem grande teorização sobre tal arte e ciência, no cotidiano. Alguns dos processos que, ao longo da vida, minha família usou para transformar diversas casas em lares são conhecidos e amplos - e podem ser cultivados. Pintar uma parede da cor que você gosta. Ter uma casa cheia de fotos. Deixar o sol entrar. Quando o visitante querido adentra (ou adentrava) seu espaço, o que faz ele, além de se sentir acolhido, perceber que aquilo é seu? O seu carinho transborda naquele local?


Se em um sonho a casa é uma tradução da sua organização mental, na realidade, a casa traduziria isso também?


Quando temos a felicidade divina de habitarmos lares, como eu habitei, com uma família nuclear unida e amorosa, esses artifícios são naturais e complementares – cuidar da casa, fazer dela um lar, de certo modo, sempre foi compromisso de todos ali. E acho que esse compromisso, assumido atualmente, nesses tempos tão difíceis, ganha uma importância ainda maior.


Não falo isso como “a hipócrita da quarentena produtiva, te conclamando a, além de assistir dez lives, fazer três cursos online e completar a seção fitness diária, realizar uma super organização na sua casa e uma pequena reforma, para sua vida voltar a ser “instagramável”.


Mas tento sim propor apenas que essas questões suscitem à reflexão sobre como nossas noções de lares têm se transformado, e nos afetado nesses tempos de pandemia. E se, para você for um refúgio, como sempre foi para mim, talvez o exercício de tentar retomar, de se apropriar novamente de vossos lares, seja terapêutico.


No meu primeiro sonho, havia um pátio bonito no apartamento, com fontes, plantas e um espaço para o cachorro. Minha casa do segundo é uma ótima lembrança. No terceiro, preciso dizer que os nomes dos meus irmãos nos boxes de banheiros estavam lindamente pintados à mão em cada porta.


Hoje moro com meu namorado, e no dia dos namorados, ganhei um abajur. Num palpite acertado sobre mim, uma peça de madeira crua – comprada assim para que eu pudesse pintar. O fiz com um conjunto de tintas que eu ganhei de uma amiga querida, que se mudou de país e não tinha como levá-las. Para colocá-lo em funcionamento, orientei mozão a comprar uma luz amarela, confortável e aconchegante, em oposição a branca que uso na luminária da mesa de trabalho – com instruções arquitetônicas claras, temperatura de cor abaixo de 4000k. Deu certo, e agora em meu quarto, onde antes estava prevalecendo um ambiente de pesadelos e cansaço durante à noite, já se reconfigurou em um cantinho de leitura aconchegante pré-sono. Não vai resolver minha vida – nem barrar meus sonhos loucos – mas já temos uma pequena recuperação do aconchego de meu lar.


Ilustração capa : freepik


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