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Nomofobia , vida online e relações líquidas

Não tenho como começar esse texto sem admitir meu vício no celular. Lembro-me do meu primeiro, dos que tive em minha adolescência, mas acho que o desenvolvimento do vício foi posterior. Não sei precisar a data, talvez com o início do WhatsApp ou o fácil acesso à internet, mas sei que há uns cinco anos, com variações de dependência, tal vício já foi naturalizado (o que é péssimo).


Além de item obrigatório ao sair de casa, sua consulta é constante no aconchego do lar e, também, no ambiente de trabalho. Parece que criei um alerta da necessidade prática de estar “antenado” a qualquer tipo de novidade com capacidade de rápida resposta. Tal necessidade é reforçada quando em situações passadas, a ausência de “conexão” acarretou perda de oportunidades.


Um exemplo desse tal vício ocorreu quando furtaram meu celular em pleno bloco de carnaval (Sim, entrei para as estatísticas) e voltando para casa, mesmo no embalo de confete e serpentina (rs), decidi passar no shopping, já quase fechando, para comprar outro. Pensei comigo mesmo que quanto menos tempo ficasse sem o aparelho, menos sentiria o prejuízo financeiro (aaahhh o auto engano)!


Alguns amigos já sabem do vício e até comentam sobre ele. Eu mesmo em situações específicas, crio abstinências forçadas tentando me afastar dessa rotina que considero prejudicial.

Claro que em quarentena o vício foi acentuado, se o consumo de substancias (como álcool e de café) não aumentou durante o isolamento (substâncias das quais ouvi relatos terceiros sobre maior ingestão), mexer no celular virou uma constante. Ele também funciona como instrumento de combate a ansiedade nesses tempos tão confusos, mesmo que também possa servir como agravante dela.


Considero a internet e, consequentemente o celular como potencializador de seu acesso, a representação simbólica de duas características que descrevemos como “modernas” nas relações sociais existentes atualmente: o individualismo e a fluidez.


Sobre a individualidade, se por um lado há o entendimento humano como sujeito de direitos e visibilidade das diferenças, também pode haver o desenvolvimento de “egocentrismos” e consequentemente a exaltação do “Eu”, característicos das redes sociais. Embora haja comunidades, conexões, seguidores e até Matches, os perfis individuais podem criar uma falsa sensação de propriedade, identidade e por que não de poder? (A página é minha eu posto o que quiser! – Será?).


Digo falsa sensação por vários motivos e destaco aqui dois deles: Primeiro que tais coletivos estão inseridos em grupos, leis, normas e éticas que sobrepõe sua própria existência, o que por si só criam uma ideia imaginária de independência. Segundo pela “política de privacidade” tão defendida hoje em dia que é norteada por exposições e controle externo (seu celular não te ouve criando lógicas de programação as suas buscas?), que são revelados a partir do primeiro embate com os verdadeiros “donos” das páginas. Marco (outro colaborador do No Painel) e Miojo (Hora do Merchan: sigam Miojo_tv na Twitch), dois amigos dos tempos de UFSCar trazem com muito maior detalhes essa dinâmica dos algoritmos online, convido-os para reflexões futuras.


Sobre “Fluidez” é impossível não citar um dos textos mais conhecidos da “sociologia moderna” – Modernidade Liquida (2001), de Zygmunt Bauman. Essa característica é descrita pelo autor como a “Redistribuição dos poderes em derretimento”. Descreve-se assim que modelos/instituições anteriormente sólidos e consolidados sofrem processo de remodelação de forma muito mais veloz criando novas configurações. Tal característica está totalmente associada ao poder de escolha-ação individual, relatado anteriormente, e isso altera as relações sociais existentes. Talvez a principal mudança se reflita na relação espaço/tempo, trazendo mobilidade dinâmica e efeitos colaterais (demandas e respostas igualmente instantâneas).


Não sou fã de conceitos como “modernidade”, mas as reflexões sobre sua dinâmica e fluidez se fazem presentes ao observarmos nossa realidade atual, principalmente tendo como abordagens as relações humanas.


Voltando ao celular é engraçado que ao mesmo tempo que mantenho dependência continua dele, tenho muita dificuldade de transmitir ou construir intimidade e afinidade através dele. Às vezes acho que nas conversas que têm o celular como meio de comunicação (seja por chamada, vídeo chamada, mensagem de texto) há uma incompletude no diálogo. Claro que isso é algo totalmente pessoal e não necessariamente estático. Mas quando desligo, penso comigo mesmo em tais conversas e como elas seriam diferentes pessoalmente. Acho que há uma diferença na espontaneidade.


Tenho dificuldade de me sentir escutado e acima de tudo compreendido em grande parte dos diálogos “online”, mas também revelo uma dificuldade de compreensão do outro, algo tão necessário hoje e sempre. Nesse sentido há importância da auto-escuta para entendimento e reflexão sobre tais diálogos e relações. Reforço não ser algo estático muito menos integral, há também espaços de conforto e entendimento utilizando os dispositivos de contato remoto. Porém, tenho certeza que assim que normalizar a situação pandêmica, terei que retomar alguns diálogos de forma presencial, algo que vai me deixar muito mais tranquilo e confortado.


Que fique claro, não aponto que as relações/interações que envolvem o celular são falsas, totalmente líquidas (com pouca solidez) ou algo do tipo, pelo contrário, argumento a necessidade de observar o celular como um instrumento não perfeito de comunicação (por sua função ontológica – natureza de sua existência). Ele por si só é apenas um dispositivo.


Em tempos se quarentena tais conversas foram priorizadas mudando dinâmica de relações, diálogos e interações. Se na vida tudo pode acontecer de forma tão rápida, o celular se torna o jeito imediato para se inteirar de tais mudanças.


Não quero concluir o texto com uma fala demagoga por apenas criticar um objeto o qual já admiti vício, porém minha reflexão vai no sentido de pensar nele como instrumento de comunicação, não como o próprio sujeito, algo que eu mesmo fiz diversas vezes. Ele pode aproximar e/ou informar, mas por mais que pareça óbvio, o contato de interação exige sujeitos. Alias, espero que você, mesmo lendo o presente texto na tela do Smartphone, reflita sobre ele.


Referencias Bibliográficas


BAUMAN, Z. 2001. Modernidade líquida. Rio de Janeiro : J. Zahar.



Heythor S. Oliveira


Cientista Social (UFSCar), Mestre em Ciência Política (UFSCar)  e especialista em gestão pública municipal (Unifesp). Trabalhador do SUAS e morador da Zona Sul da capital paulista. Falo sobre politica e assuntos diversos . Tentando acreditar em um mundo melhor, me ajudem.



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