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O Animal político e o direito a admiração Apolítica

Foi muito difícil escrever essa semana. A desconcentração, o desânimo além das mazelas do período de quarentena (falei sobre isso em “Quarentena Útil”) tem dificultado o processo de inspiração. Felizmente as sensações pessoais levam a gente a refletir sobre experiências e escrever se transforma em uma forma de expressão. Aconselho todos os leitores a escrevem para No Painel – Convida, como forma de exteriorizar sentimentos ou fomentar opiniões. Vamos ao texto.


O homem é por natureza um animal político. A frase difundida por Aristóteles se relacionava ao aspecto de socialização e envolvimento do homem à polis, ou, de forma resumida, a vida em coletividade. Passados mais de dois mil anos, com menor refinamento, mas partindo da mesma premissa, costumo concordar e defender ainda que a política é inerente ao ser humano nas mais variadas relações de indivíduo e sociedade. Ela está na presente nos comícios eleitorais, nas guerras ou em tribunais jurídicos, mas também em mesas de bar, na relação dos casais, nos esportes, na diária do trabalho entre outros. Ela se realiza em toda interação entre seres humanos.

Porém, definir política não é algo tão simples, embora o dicionário a conceitue como “Arte de governar” ou ainda “Arte ou vocação de influenciar negócios internos ou externos” , gosto de definições mais amplas, talvez ontológicas, que expandem seu entendimento. Acredito que política relaciona à prática ou ação de influência, ao poder em suas várias formas de expressão e por consequências a dominação (já dizia Weber conceituando tipos puros de dominação legitima: Tradicional, Legal e Carismática).


Também se relaciona ao Estado, a Organização, a Sociedade e a Coletividade. Assim, não há como excluir Ideologia da definição de política. Na concepção marxista, de forma superficial, ideologia se configura como aparato instrumental e ideário utilizado por classes dominantes para manutenção da ordem hegemônica vigente. Cria-se falsa consciência de classe visando reprodução da ordem social. Hoje vou trabalhar com o termo associando-o a uma definição “menos crítica”, relacionada ao senso comum, entendendo ideologia como um conjunto de idéias, ou forma de ver o mundo.


Por ser o “animal político” e admitindo sua predisposição ideológica, o homem carrega em si um conjunto de ideias e visões de mundo que constroem sua opinião sobre poder, governos, liberdades, direitos e outros conceitos inseridos na vida em sociedade, opções que nem sempre são expressas, mas são formadas em nossa cabeça. As visões são resultados de muitas variáveis: além do conhecimento e das características individuais em si, fatores sociais como cultura, tempo, interações sociais, experiências e muitas outras constituem nosso entendimento de ser e nossos ideais políticos.


É verdade que muitos de nós preferimos não pensar ou debater sobre política, defendo que isso pode ocorrer de forma proposital ou não. De forma proposital, há quem prefere não falar e/ou não pensar em política por acreditar que “ela não muda nada” (lógica que costumo associar ao descrédito a política institucional); e também quem argumenta que “ela não afeta minha vida”. Esses acabam sendo inseridos em um paradoxo ilógico, pois o direito de escolha é resultado de longos processos políticos.


Há ainda aqueles períodos em que irritados momentaneamente, nos afastamos propositalmente de qualquer debate. Tais casos me lembram as duras derrotas do meu Palmeiras aos domingos, que prometendo nunca mais vê-lo (acompanhado por alguns palavrões), retorno aos seus jogos já na quarta-feira encerrando a raiva momentânea.


Existem ainda os que dizem não aderir aos debates por preguiça, falta de confiança sobre seus conhecimentos, coerção, dificuldade de associação à vida cotidiana entre outros fatores. A esses, eu sempre tento reanimar o interesse à política como ação/arte da negociação, diálogo e vida em coletividade, tentando trazer os exemplos mais cotidianos possíveis. Sendo mais claro, existe MUITA política até na negociação sobre quem vai lavar a louça hoje!


As visões políticas sofrem alterações por toda nossa vida, justamente pelas mudanças internas e externas traduzidas no processo natural de metamorfose humana. Nesse sentido, destaco a importância dos conhecimentos adquiridos ao longo do tempo e do poder, quase que sobre-humano, de tentar entender o local de fala, as influências e experiências que leva o outro a pensar de formas diversas.


Não trato aqui de neutralidade ou fatalismo em acreditar que qualquer manifestação política é válida. Há manifestações que cerceiam a própria liberdade à opinião ou estão inseridas em lógicas de descriminação e hostilidade. Entendo que essas têm que ser combatidas permitindo o debate entre as múltiplas opiniões. Porém, tenho tendência a acreditar que parte dessas opiniões arbitrárias se ligam à aspectos aqui tratados sobre respostas simplistas ou desinteresse em pensar sobre. Não é uma hipótese em si, mas tal relação me faz relembrar de um estudo sobre Sofisticação Política . Esse conceito parte da tentativa de utilizar somatório de variáveis para quantificar determinantes do comportamento eleitoral. A busca de informação (que poderia auxiliar na contestação de respostas simplistas) e o interesse na política (antagônico ao desinteresse) seriam duas dessas variáveis, complementando meu argumento.


Não minimizo a dificuldade de entrar em determinados debates políticos. É muito difícil ouvir certas coisas de certas pessoas. Sei que além de visões muitas vezes engessadas ou de um debate político totalmente despolitizado (que nega essência política defendendo a existência dicotômica de bem e o mal, ou acreditando em visão unitária de mundo) há diversas respostas simplistas para questões amplas que ignoram inúmeras influências. Determinadas falas tornam-se verdadeiras ofensas. Passei maus bocados nesses debates, acreditem. Entretanto, o atual cenário de descrédito a política e a ameaça de difusão do pensamento totalitário, mesmo entre cidadãos claramente oprimidos, fortalece essa necessidade.


Chegamos ao segundo ponto do debate político, a interação entre diferentes, a “Hora do Show”. Quem nunca brigou com a família, com amigos, com companheiros, com professores, com colegas de trabalho entre outros, sobre política, provavelmente não está falando muito sobre o tema, ou simplesmente mudou-se para Marte na última década. As demarcações de opinião chegam até a troca de socos!


Porém, argumento que a fuga ou abstenção ao debate não é opção. Ela não reforça as distinções, algo que pode ser até construtivo na política, mas congela qualquer possibilidade de criação de síntese. Não vou utilizar a palavra polarização, não gosto desse termo, mas quanto menos debate, mais difícil a politização das opiniões, ou seja, há uma diminuição da capacidade de entendimento crítico sobre elementos de influência histórica e a um aumento as versões puramente técnicas ou dualísticas (“bem e mal”) nas manifestações do pensamento político.


Passei muito por isso nos últimos anos. A dissociação do que alguém querido me falava com meu entendimento sobre política me despertou vários paradoxos pessoais e descrença em pessoas que gosto. Opiniões arbitrárias e tentativas de isenção em cenários que obrigam a participação fizeram parte de minhas interações pessoais e me trouxeram muita angústia. Por vezes pensei em abstrair, não falar sobre e até excluir tais figuras de meu debate político. Busquei a lógica simples para resolução de um problema complexo. Com o tempo, em um processo não natural nem necessariamente intencional, reacendi a necessidade de falar e ouvir sobre política com os diferentes pensamentos. Percebi que além de afastar pessoas queridas de certos ciclos, me abster do debate me tornava o que eu mais temia! Alguém não quer politizar pensamentos.


Esse novo movimento me fez muito bem! Comecei entender melhor opiniões contrárias e arrisco dizer que até construí alguns consensos em síntese (sem forçar a barra). A admiração pessoal despertada por outras características como laços afetivos ou admiração histórica, me ajudaram a entender opiniões diversas. A visão crítica sobre o homem como um ser político foi somada ao meu entendimento sobre os indivíduos pelo que ele é aumentando minha responsabilidade em agregar novos argumentos a sua construção política. O resultado disso foi voltar a acreditar naqueles que divergem em gênero, número e grau da minha visão política.


Agradeço profundamente a essas pessoas por, mesmo sem querer, me incentivarem a chacoalhar meu pensamento uniforme e permanecerem em meu afeto e admiração.



Heythor S. Oliveira


Cientista Social (UFSCar), Mestre em Ciência Política (UFSCar)  e especialista em gestão pública municipal (Unifesp). Trabalhador do SUAS e morador da Zona Sul da capital paulista. Falo sobre politica e assuntos diversos . Tentando acreditar em um mundo melhor, me ajudem.



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