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O dia Nacional de Lutas das Pessoas com Deficiência: um pequeno retrospecto.

Em 21/09 no Brasil se comemora o dia nacional da luta das pessoas com deficiência. A lei 11.133 de 2005, de autoria do petista Paulo Paim, oficializa a data como momento de discussões das dimensões políticas das vidas dessa população Brasileira. Mas a data não tem origem aí, e sim no movimento político de pessoas deficientes nos anos 1970.


Com o arrefecimento da ditadura militar no final dos anos 1970, variados grupos sócio-políticos passaram a mobilizar determinadas agendas na cena pública brasileira. Um desses grupos foi o das pessoas com deficiência. Em 1979 fora criada a Coalizão Pró-Federação Nacional de Entidades de Pessoas Deficientes. Essa Coalizão aglutinava inúmeras entidades e organizações políticas de pessoas deficientes difusas por todo o Brasil. Entre 1981 e 1983 houveram encontros desses coletivos. A ideia era estabelecer uma agenda nacional e transversal de reivindicações políticas, principalmente pautando a dimensão do “acesso à sociedade”.


Em uma dessas grandes reuniões, em 1983, emergiu a proposta de se demarcar uma data específica para reforçar a necessidade constante de organização e debate político entre os movimentos de pessoas deficientes no Brasil. É creditado ao ativista Pernambucano Cândido Pinto de Melo a criação da proposta do Dia Nacional Da Lutas. Cândido foi um ativista do Movimento Estudantil Pernambucano.


Entre 1968-1969 Melo foi presidente da UEP – União dos Estudantes do Pernambuco e foi extremamente perseguido pelos “anos de chumbo” da Ditadura Militar. Em 1969 Cândido Pinto de Melo foi vítima de uma emboscada promovida pelos militares à época. Na emboscada, Melo tomou três tiros. Um deles o deixou paraplégico. Melo então se muda para São Paulo em busca de tratamento médico. Acaba encontrando na AACD um local de reabilitação e na cidade de São Paulo uma forma de continuar sua militância política. Cândido Pinto de Melo foi filiado ao antigo Partido Comunista Revolucionário Brasileiro, o PCBR, e posteriormente se filiou ao PT paulista, participando, inclusive, da fundação do Partido dos Trabalhadores.




Agora como pessoa deficiente, que inclusive foi mantida sob uma “prisão hospitalar” pelos militares que souberam de seu tratamento na AACD, Melo ajudou a fundar o Movimento pelos Direitos das Pessoas Deficientes, o MPDP. Estudante de Engenharia, Melo se torna Engenheiro biomédico após o atentado e uma das referências científicas e políticas relativas à história das pessoas com deficiência no Brasil. Cândido Pinto de Melo faleceu em 2002 e atualmente a UEP leva seu nome como uma homenagem às suas lutas estudantis e em torno da deficiência em pleno regime deliberado de exceção política.


Assim, precisamos compreender que algumas datas comemorativas, mesmo que também sirvam a uma certa “alienação” da materialidade contraditória do fazer político, possuem uma história que precisa a todo momento ser recontada. O Dia Nacional da Luta da pessoa com deficiência não é para se exercitar a filantropia e a caridade com os mais vulneráveis. O dia pode ser visto como o momento em que, por vias complexas, os movimentos estudantil e deficiente uma vez se uniram em coalizões críticas e improváveis. E isso não é pouca coisa.


*Este texto é uma adaptação a partir de várias fontes de informação. São elas:


Lanna Júnior, Mário Cléber Martins (Comp.). História do Movimento Político das Pessoas com Deficiência no Brasil. - Brasília: Secretaria de Direitos Humanos. Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, 2010. 443p.

http://www.memorialdainclusao.org.br/br/exposicoes/tour-virtual/sala-principal/maria-de-lourdes-guarda-candido-pinto-de-melo/modulo-2-candido-pinto-de-melo/


http://www.memorialdainclusao.org.br/br/exposicoes/tour-virtual/sala-principal/maria-de-lourdes-guarda-candido-pinto-de-melo/modulo-2-candido-pinto-de-melo/capa-e-oito-paginas-da-revista-eup-uniao-dos-estudantes-de-pernambuco/


UEP – União dos Estudantes de Pernambuco -Cândido Pinto de Melo:


http://uepcandidopinto.blogspot.com/p/historia.html


Marco Gaverio



é sociólogo nas horas vagas e fã de Ryan Reynolds.

Ilustração capa: Memoria da Inclusão



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