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O dinheiro é mais livre que as pessoas.

Descompensados são os pensamentos quando eles só nos produzem respostas obvias. Nenhum relevo, nenhum inusitado, só o mesmo percurso. No dicionário de conceitos desse que vos escreve, denominamos isso de naturalização, sem alternativa o resgate do cômodo se mostra com maior viabilidade, e de fato é, como causa o fim de todas nossas contradições ele parece ser mais legitimo em determinados casos e usual em outros na medida que é aceito.


Portanto, bares , praças, e shoppings lotados, se tornaram aceitáveis na realidade de nossos olhos, remediadamente na proporção que os anseios de ficar em casa são cada vez menos defensáveis. Assim existe esse afrouxamento de cuidado com o vírus e com a sociedade, uma de maneira direita e outra indireta se manifestando crescentemente, tanto Brasil como mundo. Essa natureza de relaxar não é exclusiva de nos brasileiros, evidenciando portanto um comportamento coletivo global preocupante em detrimento ao combate do corona vírus, ou seja, mesmo a ameaça de morte não cerceia o ímpeto de ‘’vida’’ .


Essa relação paradoxal muito me provoca, a liberdade é a tônica que perpassa até o cuidado com a vida, um mergulho de mar, um copo de cerveja no botequim, uma compra de camiseta no shopping, seria a nos ponderadamente mais importante que a própria reclusão preventiva ? Delicado caminho.


Entretanto necessário, é sutil e traiçoeiro calcular qualquer gênese de comportamento humano e não é esse meu esforço, me volto às forças de naturalização, elas operam em diferentes sentidos no nosso dia, dia. Seja de maneira domestica: amigos, emprego, família. Seja de maneira externa: politica, estado e economia. Essa simbiose transforma a nossa relação com a reclusão, se é aceito trabalhar, por que não se pode tomar uma cervejinha ?Isto é, as proporções de liberdade conversam, a liberdade não é una e indivisível, ela é fluida e se transforma conforme as diferentes condições materiais em que se esta ensejado.


Com isso os fluxos de abertura do comercio, são fluxos de afrouxamento domestico mesmo que de maneira indireta. Na medida em que a transformação por fora produz um reflexo interno e vice e versa. De modo que o controle entre essas duas naturezas deve ser empregado de maneira conjunta, não adianta pedir ao povo que não tome um banho de mar, com os ônibus lotados na hora do rush. Não passo pano, só não opero a logica do indivisível, a realidade não é colocada em caixinhas para que se abra outra, tudo se retroalimenta e é a onde quero chegar.


A insensibilidade do mercado conduziu essa razão a um envenenamento da reclusão domestica. Veja, nessa relação de forças, entre o interno e o externo, o externo falou mais alto e nos submeteu aos seus ‘’interesses’’, isto é, o tecido produtivo não pode parar, não por escassez, mas sim pelo lucro. E nesse embalo de ambição sujeitou-se a liberdade individual a subjetividade mercadológica. Se o dinheiro circula, em casa que eu não vou ficar.


Todavia o dinheiro não morre, não de maneira naturalística, a inflação já muito matou e me coloca em equivoco figurado ao passo que ao propor essa relação de força afasta-se a noção de que a culpa é exclusivamente da Corona vírus , da reclusão, ou melhor da falta de empatia.


O Chocante não é a percepção do agora, antes fosse, esse traço de influencia entre a logica de mercado e a propriedade individual de escolha é antigo e não formado na pandemia, ele resulta de uma historia entre individuo e meio envolvida principalmente nos últimos 30 anos a uma ideologia neoliberal.


Ou seja, a relação de força entre subjetividades a qual estamos ensejados é subserviente de uma configuração neoliberal, assim por regra a naturalização e a circulação são acentuadas, o mundo imaterial e livre, isto é, não conseguimos configurar no cognitivo qual a forma da vida, qual o corpo que morre e portanto se afasta a capacidade de sentir, em contraponto se soma uma necessidade absoluta de circulação que propõe que a vida não pode ser ‘’desperdiçada’’, em razão de sermos livres, liberdade essa fundamentada essencialmente em abstrações próprios do mercado.


A carta de John Locke sobre a tolerância, na logica contemporânea seria a carta da intolerância, ser liberal, hoje é bradar-o show tem que continuar-. E ninguém sabe o porquê ; essas são as notas que soam aos ouvidos, entenda, isso não é um produto do momento, o corona por hora só aumentou o volume de uma relação que ocorre a tempos. A composição da realidade se elabora em desfavor a sensos coletivos e em favor de preceitos individuais, a pandemia só aumentou o zoom nesse paradigma.


Paradigma esse que é resultado de processos históricos de construção da divisão coletiva do possível, se manifestado hoje ele se demonstra de maneira individualizada, assim não se é em si, porem produto de outras formas que não foram hegemônicas.


Em outras palavras, se fomenta aqui um afastamento dessa codificação de mundo neoliberal, a qual demonstrou ser muito insuficiente e falha acentuando suas mazelas sobretudo no corona vírus . Entenda, se tanto fala de um novo mundo, talvez estejamos caminhando para mas antes de qualquer passo devesse se desprender dessa pedra de sábado, a subjetividade neoliberal também precisa de vacina.


Haron Francelin

Bacharel em Ciências Sociais, graduando em Direito. Fazer voz é observar o tempo, entusiasta das palavras.

Ilustraçao capa: G1

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