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O garoto que ganhou de Kasparov

Fazia muitos anos que não jogava xadrez. Até que fui apresentado aos circuitos de competição online. Passei a jogar compulsivamente. Partidas de 3, 5, 15 minutos e as mais pérfidas derrotas em uma plataforma com jogadores com os Nicks mais estranhos possíveis. Quantas partidas Kasparov não perdeu?


Nos intestinos da web o universo do conhecimento do xadrez é vasto. De estratégias de defesa a um mísero xeque pastor - e você tem que ser muito juvenil para sofrer um desses - até a defesa Ruy Lopez; passando pela consideração de que decorar aberturas também é coisa de amador.


O xadrez é algo a ser compreendido. Está entre a tática e a estratégia de uma pequena guerra. É um jogo definitivamente sádico e altamente regicida. Tudo não passa de um crime de soberania: corte a cabeça do rei adversário. Sacrifique sua rainha, se for preciso (coisas de Bob Fischer).


E quanto mais junkiemedia eu consumia sobre xadrez, mais partidas eu perdia sem entender absolutamente nada. Até que cheguei na partida considerada histórica entre o príncipe do xadrez, Magnus Carlsen, contra o famoso número 1 Garry Kasparov.


A plateia ao delírio no Mundial de Reykjavik em 2004. Carlsen, 13 anos, ia enfrentar o mundialmente temido Kasparov, conhecido por sua impiedade contra garotinhos ansiosos. Sim, Carlsen, o menino prodígio, umbrella academy do xadrez, esperou ansiosamente Garry Kasparov - que chegou devidamente atrasado para mostrar que ele podia destruir garotinhos geniais de 13 anos no café da manhã. Kasparov chega, cumprimenta Carlsen que, apesar de ansioso, estava completamente sendo um garoto de 13 anos num campeonato mundial de xadrez.


A partida tem Carlsen com as brancas e uma abertura em peão da rainha em d4. Uma série de outras posições e estratagemas foram colocadas em jogo e, Kasparov, se viu surpreendido pelas projeções de movimentos feitas pelo garoto. Carlsen não aceitou o jogo voraz do veterano e não caiu em muitas de suas armadilhas, inclusive obrigando o número um a recuar suas posições em muitos lances. Após alguns minutos de partida, Carlsen tinha pouco tempo restante no relógio, mas o material dos jogadores estava equilibrado. Kasparov usou seus minutos restantes para esfriar a partida, mas com as peças restantes no tabuleiro não havia muito o que fazer. O empate era inevitável.


Após a partida, Kasparov e Carlsen se cumprimentaram e o russo veterano saiu do cenário sem dar declarações, aparentando estar muito contrariado com a derrota. Carlsen, por ter conseguido um empate, ganhou de Kasparov e hoje é uma das figurinhas famosas do esporte. Pouco tempo depois, Kasparov se tornou um dos mentores de Carlsen.

Moral da história: jogue xadrez como um garotinho.


Marco Gavério


é sociólogo nas horas vagas e fã de Ryan Reynolds.







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