No painel de hoje 
Buscar
  • Painel

O homem mais rico do mundo

Essa semana não tive a mínima idéia sobre o quê escrever. Nada. Não que as outras idéias foram boas, mas já tinha, nas semanas anteriores, alguns assuntos em mente. Porém, o frio dos últimos dias desanimou os animais aqui de casa. Não escaparam e permaneceram em seus cantos, quietos e aconchegados. Também não tive nenhum contato social com o acirramento da pandemia, impossibilitando qualquer interação com o meio “externo”, até com meus vizinhos. A reunião ministerial de sexta passada - se é que podemos chamá-la assim - tirou a vontade de fazer qualquer analogia com política - seja por quintais, apartamentos, chacaras, garagens. Escrever semanalmente mostrou-se ser muito mais difícil que imaginava. Sem alternativas, vou falar então de algo que gosto e muito: vou escrever sobre boteco.


Mas antes um gigantesco parêntese. Navegando pela internet, li uma reportagem1 sobre Jeff Bezos, o dono da Amazon. Detendo 11% dos papéis de sua empresa, sua riqueza tem aumentado nos últimos cinco anos em uma taxa de 34%, chegando na marca de US$ 138 bilhões. Somente na pandemia, com a expansão do e-commerce e a necessidade das compras remotas pelo isolamento, seu patrimônio cresceu US$ 28,3 bilhões. A reportagem dava destaque para uma projeção feita que garantiria, em um curto espaço de tempo, o posto de trilionário à Jeff Bezos, podendo ser o primeiro humano na história do capitalismo a atingir tal feito. Outra perspectiva de negócio que o ajudou consolidar-se como o homem mais rico do planeta é a utilização de dados dos usuários da sua plataforma de vendas para a fabricação de produtos direcionados. A jogada é dispor de um banco de dados, fornecidos pelas buscas na Amazon, e produzir, por exemplo, uma linha de cosméticos com as características mais procuradas. Engenhoso, não? A reportagem dá um espaço pequeno para os recorrentes protestos de seus funcionários gerados pelas péssimas condições de trabalho e a não adoção de medidas sérias contra o Covid-19. Estimativa feita pelos próprios empregados, computa mais de 130 instalações da empresa com a presença de casos positivos para a doença. Aos que buscam os trilhões, previsibilidade e desumanidade se mostram o caminho mais curto.


Longe de qualquer radar de publicidade, linha de algum algoritmo ou do interesse de estratégia inbound/outbound sales, existia um boteco na rua Anita Stella, próximo ao Hospital Escola. A fachada é humilde, dispondo somente de um letreiro e um banco cimentado. Entrar no “Bar do Melo” era uma viagem no tempo. A mesma TV tubular que só passava o “Brasil Urgente”; o banheiro com a luz constantemente queimada; a bandeira de Portugal estendida sobre a prateleira, que contrastava suas cores vibrantes com as garrafas de aguardente transparentes; a mesa de sinuca “bamba”, que favorecia as matadas de bola em seu lado esquerdo; a rodada de cacheta rolando nos fundos do bar; o assador que girava de maneira gentil às costelas de sexta-feira, com a gordura descendo lentamente para as batatas dispostas embaixo; o rádio que religiosamente entoava o “Ave Maria” às 18:00 - não a versão de Schubert, mas de uma cantora de fado. Os clientes eram os mesmos seis personagens,somados por nós, estudantes que residiam nas proximidades. Um ou outro forasteiro tomava seu trago e rapidamente voltava para o trabalho/descanso.


O anfitrião era a principal atração do boteco. Português da região de Trás-os-Montes e Alto Douro, sempre contava suas aventuras como músico e dava pequenas demonstrações de sua habilidade na flauta-doce. Sujeito sarrista, gostava de uma arapuca. Ludibriou nosso amigo em uma disputa de sinuca, deixando as primeiras vitórias para seu adversário ganhar confiança, para que na última, agora com a aposta de uma garrafa de cerveja, encaçapar todas as pares em uma única rodada. Em outra ocasião, em uma competição de quem entornava mais pinga, me serviu a malvada enquanto, furtivamente, colocou água filtrada em seu copo. Até as caretas do líquido rasgando na garganta simulava com maestria. Sua surdez parcial era analisada como a de Beethoven, não sabíamos ao certo o quanto ele queria ou não ouvir os pedidos. Sobre os pedidos, diferente da disposição certeira do banco de dados da Amazon, não tínhamos a certeza do que viria. Pedia 600 ml, vinha um litrão, se queria um “rabo de galo”, servia pinga pura com limão. Era um lugar que não se conhecia o dry martini, muito menos tinha o gin necessário. Talvez essa era magia. Aceitávamos pelo espírito do lugar. Cliente e dono sempre tinham razão


Mas no momento em que não pedia-se nada, era quando vinha muito. Um festival de especialidades que não experimentei até na minha incursão - fracassada, diga-se de passagem - à gastronomia. Da linguiça cabo-de-reio ao bacalhau português legítimo, sempre ofertados para todos no bar - cerimônia que o deixava extremamente feliz. Lembro-me que qualquer tentativa de fazê-lo cobrar sua disposição das iguarias o deixava constrangido. Sobre o atendimento, aqui não tinha nenhum protesto, era comunitário. Sempre alguém se oferecia para lavar um copo ou ajudar no freezer. Nos instantes em que o anfitrião permanecia submerso em uma disputa acalorada de truco, principalmente na famosa “mão de onze”, tínhamos a liberdade de nos servirmos.


Confraternizar no discreto boteco da Anita Stella sempre gerava um sentimento de pertencimento. Não era um estabelecimento sofisticado, como os produtos da Amazon. O bacana sempre foi acompanhar que surpresa seria gerada no “Bar do Melo”. Mesmo dispondo dos mesmos elementos, quase de maneira recorrente, religiosa, os resultados eram múltiplos, distintos. Como assistir um episódio da ‘A Praça É Nossa”. Era imprevisível e humano.


Não gostaria de reproduzir outro texto com uma concepção romântica a là “Pepe Mujica em seu fusca azul” ou de reforçar que essas pequenas coisas são as mais caras. Talvez seja efeito da quarentena, quem sabe. O isolamento nos impõe o que de fato é importante, pela saudade. Talvez seja um “filtro” positivo que opera nesse momento. Quanto ao Melo, nosso simpático anfitrião? Ele continua revisitando seu antigo estabelecimento, agora na condição de cliente. Sujeito esperto. Já a Jeff Bezos e seu caminho em busca de trilhões, bem...assim como nosso amigo, prefiro não dar aos ouvidos.


Para todos os pequenos comerciantes afetados pela pandemia.

1 “Jeff Bezos pode se tornar o primeiro trilionário da história em breve, aponta pesquisa” www.infomoney.com.br



Felipe Cará




 Bacharel em Ciências Sociais pela UFSCar. Mestrando no programa de pós em Ciência Política (PPGPol - UFSCar), estuda Reforma Política, Sistemas Partidários e Legislação Eleitoral. Amante de gatos, filmes e gastronomia.






273 visualizações
O que você achou dessa exposição ?
APOIE A NOSSA CAUSA
Deixe uma doação única de R$10
arrow&v
logo painel.jpg
logo painel.jpg