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O passeio

Observo as formigas, e as reações são de estranhamento. Chego a pensar que alguns desconfiam da minha sanidade. “Você está bem mesmo, Ana?”. Eu mesma duvido. São quase noventa dias, rodeada pelo mesmo concreto. O mesmo é cacofônico. Fujo para o quintal, interagindo com o movimento provocado pelas patas, asas ou pelo vento. Arrisco a dizer: falo até com pedras. O mundo ali é o desvio do outro à minha volta. Este está aí, arruinado como sempre esteve. A tropa sanguinária só nos faz sucumbir. Rumamos à catástrofe - pensando bem, já a alcançamos. Uns se importam, outros não. É descaso, seguido de deboche. É sangue, falta de ar. Quase quarenta mil - até onde sabemos - vidas arrancadas em decorrência do descaso debochado. Além das outras tantas, tiradas pela presença que é incômoda a alguém. Mundo tão cru, onde até elevador vira arma... Chega aos meus ouvidos o “ainda bem que não foi um dos nossos”, vomitado da boca da cidadã de bem. Quem morreu? O migrante nordestino - o primeiro na cidade vizinha. Não consigo continuar. E as formigas? Acompanho-as, paciente. Reparo bem o seu passeio, enquanto carregam muito além do próprio peso às costas. Eu já teria adoecido se não fosse por elas.



Ana Sabadin


Socióloga, doutoranda na UFSCar.  O emaranhado de palavras que trago aqui alivia o cansaço das minhas inquietações com o mundo.



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