No painel de hoje 
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Os piares

A ausência das flores não dura mais de três semanas. As vagens estreitas e verdes devolvem, aos poucos, o lugar às corolas amareladas. A chuva de ontem repete a cena dos pequenos cachos pendentes de um lado a outro — ainda há flores se desprendendo dali, seguindo o soar do sino da igreja. A nova partida lenta é iniciada, e questiono-me se, desta vez, o retorno será tão ágil aos meus olhos quanto o anterior. Não domino o tempo do quintal resta-me a espera. Penso na conversão dos últimos meses em longas esperas. O tempo é acelerado e destrutivo lá fora. O Brasil salta das cinquenta e cinco mil a quase setenta mil mortes confirmadas neste período de ausência das flores, e questiono-me quando tudo isso vai acabar. Não domino o tempo do mundo — resta-me a angústia. O frio encobre o céu cinza umedecido, enquanto acompanho os três beija-flores migrarem do rosa da mangueira ao amarelo da árvore. Ouço dizer sobre a doença do presidente e a hidroxicloroquina como ouvi dizer sobre a facada. Nada me convence. As vidas lá fora partem mais aceleradas do que o desapego das flores ou o voo dos pássaros. A árvore parece ser o ponto de encontro das muitas asas e corolas pousadas, ligeiramente, por ali — mal consigo acompanhá-las. O chão enche-se de flores, e os pássaros trocam alguns piares. Tento desvendar a conversa. Talvez falem do desencontro causado pela chuva de ontem, ou da chuva de hoje, anunciada pelas nuvens carregadas e densas. Quem sabe, não comentam sobre o breve retorno do amarelo da árvore. Só não há de ser sobre as vidas arrancadas pelo governo genocida. Há muito entusiasmo em seus piares — e eles não merecem sofrer pelo silêncio gritante que criamos.

Ana Sabadin


Socióloga, doutoranda na UFSCar.  O emaranhado de palavras que trago aqui alivia o cansaço das minhas inquietações com o mundo.

Ilustraçao capa: Ana Sabadin

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