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Pane no sistema! V

Semana passada falamos sobre um dos principais argumentos de Richard Barbrook no seu livro Futuros Imaginários https://www.nopainel.com.br/post/malditos-rob%C3%B4s-iv. Basicamente, o historiador mostra como uma ameaça comunista inflada organizou algumas polarizações político acadêmicas nos Estados Unidos de meados do século XX. Contudo, essa ameaça comunista produziu nas esquerdas daquele país, e principalmente no pós segunda guerra, um certo "marxismo sem luta de classes" e uma "cibernética sem Wiener". Esse é um ponto importante de ser mencionado, pois Norbert Wiener, que se declarava socialista, tinha uma ideia de que os pressupostos da cibernética poderiam ser muito úteis para a própria luta dos trabalhadores e trabalhadoras. A cibernética poderia ser uma ferramenta das próprias trabalhadoras e trabalhadores com relação ao domínio dos próprios circuitos dos modos de produção; principalmente com a possibilidade de controle de informação do "sistema" a partir do processo de retroalimentação[1].Contudo, dentro de uma certa visão "econômico-política" da vida, a cibernética é mais atrelada ao próprio desenvolvimento do que se chama "capitalismo gerencial". Nesse sentido, as entradas e saídas de informação com relação ao sistema produtivo são analisadas a fim de manter uma certa distinção entre a força de trabalho "corporal" e a "cognitiva"[2].


Agora, vamos dar um salto para o Brasil "pós-2013" - com toda a arbitrariedade desse corte temporal – para pensarmos juntos no que falava semana passada sobre as nossas atuais dicotomias entre direita e esquerda. Vou me ater em certos pontos que emergem dentro de movimentos e análises que, de certa maneira, se definem como de "esquerda". Pois bem. Provavelmente vocês já ouviram a expressão "identitarismo" e essa expressão coligada a uma outra, que é a ideia de "nova esquerda". Ou seja, e simplificando muito esse debate, os "identitários" são a "nova esquerda" para muitos analistas e comentaristas políticos atuais. Fundamentalmente o que reside nesse discurso é que os "identitários da nova esquerda" são definidos por seu rechaço às questões estruturais da sociedade capitalista: a saber: a economia e a luta de classes. Em grande medida, esses termos têm circulado como crítica àqueles e àquelas ativistas e teóricos que não seguem os preceitos considerados "estruturais" da sociedade. Assim, parte dessa "nova esquerda identitária" seria composta por movimentos feministas, movimentos negros, indígenas, gays, lésbicos, transexuais, intersexuais, de pessoas com deficiência[3].


Entretanto, o que historicamente ficou identificado como " Nova Esquerda" (New Left) foi um movimento de crítica teórico-política interna aos movimentos de esquerda, principalmente a partir da Europa. Esse movimento da esquerda europeia a partir dos anos 1950 também é chamado de "virada cultural marxista". Essa virada cultural no marxismo da época foi um redirecionamento da própria historiografia escrita posteriormente aos trabalhos de Karl Marx que buscou mostrar a simbiose entre a "economia" e a "cultura" nos desenvolvimentos sócio-políticos das sociedades capitalistas. A nova historiografia marxista britânica está ligada a E.P. Thompson, Raymond Williams, mas também a Hoggart, Stuart Hall, Paul Gilroy (principalmente após os trabalhos de Frantz Fanon sobre os choques coloniais) e outros e outras pesquisadores e pesquisadoras[4].


Na linhagem dessa nova esquerda, o marxismo (digamos assim) passou a se confrontar com as teorias pós coloniais, com as teorias feministas, com as teorias sobre raça, sexualidade. Ao mesmo tempo isso não excluiu formas de se pensar a história, o estado, o mercado, o governo, a economia. E, tudo isso, sem deixar de pensar o método da dialética histórica marxista, os debates sobre classe, modos de produção e reprodução, sobre o modo de vida das classes trabalhadoras, em confluência crítica com os debates sobre cultura raça, gênero, sexualidade, corpo, mídia, propaganda etc. Então, não há nenhum contra-senso discutir processos econômicos e culturais como simbióticos, antagônicos ou contraditórios, inclusive dentro de uma matriz metodológica materialista e histórica. Com isso temos que passar a distinguir e analisar também debate de "senso comum" que diz que o tema político das identidades culturais é meramente cultural[5], “identitário”, coisa de “New Left”.


Em suma, o tema das identidades sociais e culturais hoje no Brasil é considerado em oposição ao debate anti-capitalista, ou considerado como um cavalo de Tróia ao que realmente importa, a luta de classes. Eu concordaria com essa argumentação se ela não simplificasse perigosamente o debate oceânico nas ciências sociais sobre identidade e cultura como meramente *identitarismo*. E, com isso, não estou dizendo que o debate sobre identidades, políticas de Identidade, ou algumas de suas vertentes mais "liberais" - como a da "defesa das minorias" - não seja problemático. Pelo contrário, se é através de disputas culturais e identitárias que a própria economia e política se perfazem, precisamos esmiuçar estrategicamente os conceitos e as histórias e trajetórias intelectuais e práticas que lhes são correspondentes.

[1] Para uma introdução muito boa sobre as ideias e conceitos que envolvem a cibernética, ver o trabalho de Kim (2013). A tese de Kim dá a dimensão de como a cibernética também pode ser uma "ferramenta", uma "tecnologia". A ideia de retroalimentação significa, basicamente, o processamento de uma informação que se recebe e os resultados que esse processo complexo produz. Os tais dos "inputs" e "outputs" dos "feedback systems" (as entradas e saídas de informação processadas pelos sistemas de retroalimentação). Segundo Donna Haraway (1987), um sistema cibernético é um sistema integrado e dinâmico, um circuito integrado que funciona e faz funcionar coisas através do controle e regulação da "informação" [2] para uma discussão sociológica sobre essa separação do trabalho material do imaterial no que se pode chamar de "capitalismo flexível" ver BRIDI, M. A. C. (Org.) ; LIMA, Jacob Carlos (2018) e Zanon (2019). [3] A socióloga Miriam Adelman (2009) elabora de forma histórica como esses movimentos, simplisticamente acusado de "identitários", podem ser elaborados como "novos movimentos sociais". Mas pensem essas nomenclaturas como conceitos "heurísticos". Pelo menos na Sociologia há muito debate, teórico e político, sobre co efetivamente se constituem os "novos movimentos sociais". Como essa é uma outra discussão, recomendo a leitura desses dois textos: EVERS, 1984 e DAGNINO, 1990.

[4] Até onde é possível constatar, a ideia de uma "New Left" está ligada a trocas teórico acadêmicas indiretas entre dois autores: Edward Palmer Thompson e Charles Wright Mills entre 1959 e 1960. Em 1959 Thompson escreveu o artigo “The New Left” [https://www.marxists.org/archive/thompson-ep/1959/newleft.htm] e Mills o texto “Letter to the New Left” [https://www.marxists.org/subject/humanism/mills-c-wright/letter-new-left.htm]. Também nessa época o periódico marxista New Left Review emerge como uma fusão entre os periódicos New Reasoner e o The Universities & Left Review

[5] expressão de Judith Butler (2017).


Referências:


ADELMAN, Miriam (2009). A Voz E A Escuta: Encontros e Desencontros entre a Teoria Feminista e a Sociologia Contemporânea. São Paulo: Blucher Acadêmico.


BUTLER, J., & BRETAS, A.. Meramente cultural. Idéias, 7(2), 2017, pp. 227-248


BRIDI, M. A. C. (Org.) ; LIMA, Jacob Carlos (Org.) . Flexíveis, virtuais e precários? os trabalhados

em tecnologias de informação. 1. ed. Curitiba: Editora UFPR, 2018. v. 1. 325p


EVERS, Tilman. Identidade, A Face Oculta Dos Novos Movimentos Sociais. Novos Estudos


CEBRAP, vol. 2, nº 4, abril 1984


DAGNINO, Evelina. Os movimentos sociais e a emergência de uma nova noção de cidadania.


DAGNINO (Org.). Anos 90 - Política e sociedade no Brasil, Ed. Brasiliense,1994, pág. 103-115.


HARAWAY, Donna. Manifesto Ciborgue: Ciência, Tecnologia e Feminismo-Socialista no Final do Século XX. IN. SILVA, Tomaz Tadeu da. (org. e trad.). Antropologia do Ciborgue: As Vertigens do Pós-Humano” - Hari Kunzru e Donna Haraway. Editora Autêntica – Belo Horizonte – 2000


KIM, Joon Ho. O Estigma Da Deficiência Física E O Paradigma Da Reconstrução Biocibernética Do Corpo. 2013. Tese (Doutorado em Antropologia

Social) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.


ZANON, Breilla Valentina Barbosa. Não era amor, era cilada: startups, coworkings e a mobilização do desejo pelo mundo do trabalho. Tese de Doutorado. PPG-Sociologia - UFSCar, 2019



Marco Gaverio



é sociólogo nas horas vagas e fã de Ryan Reynolds.






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