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Pequenas vitórias da Esquerda – Caso do PSOL Paulistano

Esse texto não se trata de uma análise absoluta dos resultados eleitorais do domingo. Na verdade, escrevo sobre um recorte local e partidário destacando alguns resultados que considero positivos para esquerda institucional. Ainda no “calor” do momento, destaco pontos positivos, prioritariamente do PSOL em São Paulo, simbolizando aspetos de renovação e consolidação local de um partido ideologicamente reconhecido como de esquerda.


É comum no jornalismo tradicional a elaboração de análises “macro” das eleições, citando grandes vitoriosos e tentando justificar transferências de votos e preferências partidárias. Claro que análises de conjuntura são necessárias e é importante observarmos as tendências políticas apresentadas pelos resultados eleitorais, mas pensando principalmente que a política é composta de variáveis múltiplas, análises “micro” com potenciais comparativos próximos, também são fundamentais para entendermos retrocessos e evoluções das organizações.


Não costumo ser uma pessoa otimista, aponto “reticências” em quase tudo que opino. Porém, na política, penso que conquistas não valorizadas podem ser cooptadas ou ignoradas, perdendo efeito prático e capacidade de produzir impactos ainda maiores.


Falo especificamente do PSOL e seus resultados na capital paulista. Passadas as eleições legislativas e o primeiro turno das eleições executivas, nos quais Boulos/Erundina conseguiram votações inéditas na “Terra da Garoa”, considero resultados promissores no comparativo local, com efeitos ainda indeterminados em recortes maiores.


Acompanho o PSOL há algum tempo e mesmo possuindo importante militância ideológica, o partido sempre sofreu acusações de seguir aspectos de “Esquerda Caviar” ou “Socialistas de Iphone”. Embora tais acusações se relacionam muito mais a falta de conhecimento sobre Socialismo em si, é fato que o PSOL esteve próximo à esquerda universitária, intelectual e artística durante longos anos, com menor infiltração em movimentos sociais e populares. Alguns fatores ajudaram a alterar essa característica: entrada de tendências, enfraquecimento do PT em alguns movimentos e, mais recentemente, a entrada do próprio Boulos e aproximação com MTST.


Importante destacar que o PSOL, até domingo passado, teve poucos resultados expressivos na capital Paulista. Muitos fatores podem ser citados como variáveis, talvez o principal deles seja até a importância histórica do PT nesta capital, mas acho que outras questões têm que ser consideradas como a dificuldade de apresentar novos nomes eleitoralmente competitivos (algo que vem diminuindo desde 2016) e alguns movimentos do próprio partido de não ampliação de suas bases.

Assim a presente votação do partido chama atenção. Vamos aos números:


Em 2012 o PSOL teve o primeiro vereador eleito em São Paulo pela legenda. Toninho Vespoli foi eleito pelo partido na época com menor quantidade de votos entre os eleitos (Aproximadamente 9 mil) entrando na última vaga concorrida. Em 2016 foram eleitos dois vereadores em São Paulo (reeleição de Vespoli e eleição de Sâmia Bonfim – figura importante para o PSOL paulista por não ter ligações eleitorais anteriores com o PT) e que entram novamente nas últimas vagas (16 e 12 mil votos aproximadamente). Já na eleição deste domingo/2020, o PSOL de São Paulo elegeu a terceira maior bancada da cidade com 6 vereadores. Duas entre as 10 mais votadas: Erika Hilton e Silvia da bancada feminista, com 50 e 45 mil votos aproximadamente. Numericamente, de 184 Mil votos (aproximadamente 3,4% dos votos válidos) em 2016 o partido salta para 444 mil votos (8,7% dos votos válidos).


Além dos resultados quantitativos, é importante citar a representatividade social da bancada Psolista na capital: das 13 Mulheres da nova Câmara Municipal, 4 foram eleitas pelo partido. Metade da bancada do partido é composta de mulheres negras. Há representação de uma Mulher Trans (justamente Erika com a maior votação local do Partido) e vereadores LGBTs.


No histórico das eleições ao Executivo da cidade, Ivan Valente em 2008 (0,67%), Gianazzi em 2012(1%) e Erundina 2016 (3%), o Partido não conseguia resultados numericamente relevantes desde que começou a disputar a Prefeitura da maior cidade da América Latina. No domingo a chapa Boulos e Erundina ultrapassou 1 milhão de votos, com mais de 20% da porcentagem de votos válidos do primeiro turno. Claro que há outras variáveis envolvidas, inclusive as condições atípicas da eleição de 2018, mas o próprio Boulos, concorrendo à Presidência, havia atingido pouco mais de 600 mil votos no total e destes, 80 mil votos foram computados na capital paulista.


Observa-se expansão e variação dos públicos atingidos por sua campanha no presente ano.

Como descrevi no início, sei que política envolve muito mais números. Também não quero estabelecer o PSOL como grande “vencedor das eleições”. Novos textos e análises trarão os parâmetros necessários para analisarmos os resultados eleitorais como um todo após o segundo turno.


Destaco que o PSOL ainda se enquadra entre os partidos “pequenos” com representação executiva ínfima. Também acho difícil (não impossível) uma virada em São Paulo considerando o candidato da situação que além da máquina pública a seu favor, fica em primeiro lugar da apuração no primeiro turno. Bruno Covas venceu em todas as zonas eleitorais no primeiro turno, tem apoio do governo estadual (mesmo que Dória não se apresente claramente na campanha) e sai como grande favorito à Prefeitura. Porém, a campanha PSOLista já se mostrou vencedora em tudo que fez, possibilitando acreditar (inclusive para o dia 29/11) que tudo é possível.


Apenas resultados eleitorais não representam automaticamente avanços no senso critico social nem no desenvolvimento de consciência de classe, mas fatalismos exagerados e simplificações do tipo: “na democracia liberal todo mundo é igual”, também não auxiliam nesses processos. Comemoremos o que é pra ser comemorado. Hoje, o PSOL se estabelece como alternativa à esquerda institucional no recorte local; amanhã, espera-se que essa expansão continue.



Nota¹: O PSOL conseguiu resultados relevantes em outros estados, como a bancada de 7 vereadores do RJ (empatada como maior bancada com outros dois partidos) e a grande possibilidade de eleição de Edmilson Rodrigues em Belém do Pará.


Nota²: Em relação a análises macro foi nítida a eleição expressiva de partidos do “Centrão” como o DEM em capitais e outras cidades definidas no primeiro turno, mas algumas dessas votações chamam atenção por sua especificidade como a cooptação de candidatos já favoritos, como foi o caso de Salvador e Curitiba. Assim, aguardemos os resultados totais para destrinchar melhor os vencedores.


Nota³: Diferentemente de grande parte da mídia tradicional, ressalto que análises aparentes do resultado do PT em São Paulo devem ser observados com maior profundidade. É bem verdade que, pela primeira vez, um de seus candidatos não ficou entre os dois primeiros na capital paulista. Porém, algumas variáveis têm que ser expostas. Após tudo que o partido atravessou entre 2013 e 2015 na esfera nacional, Haddad perdeu no primeiro turno a eleição municipal em São Paulo, mesmo sendo candidato à reeleição. Em 2020 a candidatura de Jilmar Tatto - “desconhecido” fora de seus distritos eleitorais mesmo com anos de vida pública - enfrenta, além de tudo, resistências internas no próprio partido. Foi sugerido a ele que desistisse faltando menos de uma semana do pleito oficial. Entretanto, ele se manteve candidato. Confirmada derrota, declara apoio a Boulos/Erundina no mesmo dia. Na Câmara Legislativa o partido manteve-se como segunda maior bancada. O PT ainda representa muito da esquerda na paulista e não pode ser menosprezado enquanto organização.


Nota Premium: Não é momento de Oba-Oba. São Paulo não é a resistência ideológica da esquerda brasileira. Embora eu estimule formas alternativas, modernas e chamativas de fazer política e atrair eleitores e militantes, a campanha do Boulos não pode ser marcada por Memes e vídeos “lacradores” que fantasiam a esquerda unida. Há fundamental aspecto de apoio de outras legendas a candidatura, mas não vamos transformar isso em uma União de combate ao Mal. A política tem que ser aprofundada e não simplificada. Questões sociais precisam ser politizadas a partir de senso crítico e entendimento das relações sociais. Boulos não irá transformar o País em socialista muito menos São Paulo na capital ideológica pelos resultados da eleição. Auxiliar na campanha talvez se relacione mais com a necessidade de problematizar aspectos de estereótipos da candidatura e debater alternativas a cidade do que transformar Boulos no Capitão Campo Limpo. Dessa forma uma conversa vale mais que um vídeo irônico.

Heythor S. Oliveira

Cientista Social (UFSCar), Mestre em Ciência Política (UFSCar) e especialista em gestão pública municipal (Unifesp). Trabalhador do SUAS e morador da Zona Sul da capital paulista. Falo sobre politica e assuntos diversos . Tentando acreditar em um mundo melhor, me ajudem

Ilustração capa: Estado de Minas


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