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Pirotecnias e camuflagens: o caso da metáfora da “cortina de fumaça”


Desde o começo do governo Bolsonaro circulam, de variadas maneiras, descrições de como o presidente e sua equipe se utilizam de assuntos complexos e delicados como “cortinas de fumaça”. Até mesmo por sua íntima relação com as hierarquias e cosmologias militares, a ideia de camuflagens e pirotecnias discursivas e práticas se tornou um recurso comum aos críticos do governo federal.


Mais recentemente uma crítica ao uso da ideia de "cortina de fumaça" como um componente de dissuasão do governo federal ressurgiu. Para essa crítica, a metáfora não explica as contradições políticas que visa ilustrar. Agora, muitos e muitas dizem que as "pautas morais" não podem ser definidas como "cortina de fumaça" para as "pautas econômicas". Isso colocaria uma distinção entre "moral" e "economia" que é inexistente; que ambas estão entrelaçadas no governo Bolsonaro - e não em uma relação em que “empreendimentos morais” escamoteiam ações na política econômica.


Apesar das considerações ingênuas de que pautas "morais" e "econômicas" são antagônicas, é inegável que nos últimos anos tem se operado uma distinção entre "costumes" e "política". Muitos e muitas que hoje dizem ser inexistente essa distinção, demoraram muito para perceber que ela não era tão perene assim. Demoraram para perceber que as agendas políticas "estruturais", se perfazem, à esquerda e à direita, pelas agendas do "costume e moralidades"; e vice versa.


Enfim, uma certa crítica à separação entre “cultura” e economia-política tenta aglutinar essas coisas como se as nunca tivesse, analiticamente, apartado.


E É nesse ponto que eu acredito na potência da metáfora da cortina de fumaça. A metáfora não serve se pensarmos que a "fumaça não importa". Muita gente considerou que a ideia de fumaça era apenas para esconder o "essencial". Ou seja, a "cortina de fumaça" seria escamotear algo importante com algo desimportante. Há um tempo, uma das críticas a essa metáfora buscava mostrar que utilizá-la como descritor analítico era considerar determinados assuntos, as desigualdades de gênero, por exemplo, como "mera distração".


Bem, toda metáfora tem, obviamente, um limite de explicação das coisas que pode ilustrar.

Realmente, a metáfora não serve se pensarmos simplesmente nesse jogo de "distração". Pois bem. O que parece ainda não ser entendido é que a "fumaça importa". Ou seja, a fumaça não está ali somente para servir de distração para algo mais importante. A fumaça é a própria importância, pois ela se torna cada vez mais visível na medida que se diz, de variadas formas, que ela "não importa".


é essa a operação que vale a pena ser pensada pela metáfora da cortina de fumaça. Isto é, como se modula a circulação de temas complexos que são vistos como desimportantes e desacoplados de outras estruturas - também importantes. Assim, é inegável que muitas pautas foram fomentadas de forma sensacionalista e, com isso, muitas coisas importantes que mereciam análises mais amplificadas passaram despercebidas. Ao mesmo tempo, isso não significa que o que está sob pauta não tenha importância e que não deva, inclusive, ser compreendido de outras formas..


O que é metáfora da cortina de fumaça nos ajuda a perceber é como essa operação se dá. como assuntos importantes ganham proeminência e são considerados ambiguamente desimportantes e como, com isso, a importância objetiva de outros tópicos se torna etérea e fantasmática.



Marco Gaverio


é sociólogo nas horas vagas e fã de Ryan Reynolds.

Ilustraçao Capa : Justificando

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