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Por que as Estatuas caem ?

O progresso é uma vontade moderna a qual conserva no seu cerne a força do aperfeiçoamento, ou seja, uma discrepância de melhoria entre o estado anterior para o status quo atual, essa ideia de capacidade progressiva é recente no lastro da humanidade e tem contornos não delimitados.


Otimizar é a tônica do progresso. Seja no corpo ou na mente, o empenho é de desenvolvimento e reinterpretação. Com os espaços públicos, essa simbiose homem/meio não se daria de modo diferente. Nesses espaços vem aumentado, de maneira concisa, a necessidade de derrubada de estátuas, depredação de monumentos e destruição de figuras contestadas. Na empreitada de “otimizar” a análise histórica.


Há neste gesto um valor simbólico muito expressivo, aguerrido a uma fundamentação de contraposição. Eventos assim ocorrem com maior frequência, na medida em que fluxos orgânicos contestam a necessidade de “progresso”’ através da ressignificação do público.


É, no entanto, relevante destacar que essa ação não é uma novidade no panorama histórico, longe de qualquer característica normativa universal, existe sim, fluxos de organização politica que orquestram através de intervenções à derrubada de estatuas, depredações de monumentos, dentre outras atuações dessa natureza.


A contemplação do movimento ou a aclamação do estático fazem essa dicotomia rasteira que se vislumbra através desses fluxos de força. Com o fim da União Soviética, estátuas de Lenin foram destruídas, assim como foi feito com monumentos no Iraque com o fim de Saddam Hussein.Nos Estados Unidos em 1776, George III foi decapitado do seu trono de concreto, cinco dias antes da declaração de independência. Assim, atitudes de represaria complementam muito o cenário que está sendo vivido, ou seja, são desencadeadas por uma sensibilidade ao orgânico, ao publico.


Sensibilidade a qual recentemente criou um laço e um lastro artístico com essa finalidade, com o embrião na África do Sul, o movimento Rhos Must Fall se opôs a um monumento para um colonialista escravista, Cecil Jhon Rhodes, na universidade da Cidade do Cabo. Atitude essa que ensejou um movimento ativista, artístico, político denominado Fallista, que hoje articula formas de aplicar uma reorganização simbólica.


Essas estruturas de pedra e mármore se compõem como uma equalização de atrocidades, extermínios, desrespeitos a raça, gênero, religião, ao passo, de que a naturalização de figuras controvertidas historicamente sejam a substância para uma reinterpretação necessária.


Matérias inanimadas teriam essa capacidade de coerção na perspectiva urbana, leia-se, as estátuas representariam um real afago a memória histórica? Ao movimento fallista sim. Entretanto, em contrapartida, há uma esfera de historiadores e filósofos que não defendem essa postura reativa.


Dentro desse pensamento conservador existem duas vertentes de resposta, grosso modo, aqueles que defendem a resignação espacial dos monumentos, isto é, a retirada deles do espaço público e exposição em museus e galerias com a devida contextualização, possibilitando um melhor trato e conservação. Este subterfúgio proposto não elucida a história, apenas a transfere para ambientes entendidos como neutros, e os outros que defendem com unhas e dentes a preservação do patrimônio público, contra qualquer forma de vandalismo ou depredação, alegando que qualquer destruição seria um revisionismo rasteiro.


Portanto, parecem existir ao menos três composições ideológicas relevantes à reflexão desses fatos,todas flertando com a noção de progresso. São ontologias diferentes de progresso, noção essa que se apresenta de maneira genérica e perigosa, sendo apropriada de maneira plural e pouca discutida.


Provoco, assim, a concepção de que antes de sustentarmos qualquer fama a derrubada de estatuas, devemos nos ater à qual noção de progresso que queremos para a prosperidade, seja, o progresso atrelado às coisas como estão ou o progresso convergido em novas formas; É nessa dualidade que se encontra o fio condutor da “otimização” procurada.


Haron Francelin



Bacharel em Ciências Sociais, graduando em Direito. Fazer voz é observar o tempo, entusiasta das palavras.


ilustração capa : O GLOBO

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