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Quarentena Útil.

Terça-Feira, 19 de maio de 2020, está se encerrando mais um dia de trabalho e me planejo para o retorno presencial na quinta-feira. Estamos em quarentena, por trabalhar na Assistência Social, área realmente essencial para além dos interesses puramente econômicos (tem loja de departamento vendendo arroz para burlar a lei), estamos trabalhando por escala, evitando aglomerações.


O trabalho está diferente. Quando digo diferente não trato apenas de percepção simbólica individual, estamos fazendo outras atividades: acompanhamentos remotos, mudança na dinâmica de relatórios e novos procedimentos. Mesmo com redução de carga horária parece que trabalho mais. Acumulam-se tarefas e atribuições, as cobranças não são reduzidas, o ambiente externo também aumenta nossa carga emocional e afeta nosso estímulo. Porém, na medida do possível, acredito que me adapto bem. Sinto-me prestativo e orgulhoso por continuar realizando algo que me fez crescer como profissional (são três anos trabalhando na assistência), mas principalmente como pessoa (já diria Fausto Silva).


Nunca imaginei trabalhar com atendimento direto à população vulnerável (esse termo demanda muitos asteriscos). Sempre me imaginei trabalhando em gabinetes apenas analisando dados e tomando decisões. Acho que minha percepção profissional partia de um desejo elitista de não sujar as mãos, mas tive a oportunidade trabalhar na execução de uma política pública e conhecer realidades distantes até então. Aprendemos muito com exemplos locais, não valorize apenas experiências internacionais.


As 16h38min recebo a notícia que não iria mais trabalhar essa semana. Segundo decreto municipal, houve antecipação de feriados até a semana que vem. Já sabia da antecipação em caráter geral, mas o decreto não limitava trabalho em serviços essenciais. Por determinação específica posterior, ficaríamos em casa. Minha primeira reação foi surpresa, em minha arrogância, havia comentado com minha colega de trabalho que iríamos trabalhar de qualquer forma, parece até que não conheço as reviravoltas do poder público.


Sigo então meu caminho para casa, nele vou pensando na execução pratica da antecipação dosferiados. Meu Pai, pessoa mais genial e incompreendida que conheci em meus breves 28 anos de vida, escreveu sobre tal fato. Ele expôs a tentativa de ações mirabolantes para tentar manter o isolamento ao invés da alternativa que parece mais óbvia: lockdonw. Além de lembrar das implicações simbólicas e práticas da antecipação das comemorações litúrgicas. Entendo-o, mas minha perspectiva foi menos cética, quem sabe não dá certo? Contudo, confesso que minha preocupação inicial foi mais egoísta.


Chegando em casa comecei a fazer os cálculos, quando vou voltar a trabalhar? Isso me assusta. Imagino dias repetitivos. Por mais que o feriado seja uma oportunidadede descanso merecido ao trabalhador à ansiedade sobre o período monótono me angustia.


Havia passado por período de isolamento recente (inclusive sem trabalhar), mas os motivos eram outros. Fui mais um dos diagnosticados com covid19. Foram tempos difíceis, mas talvez conte a experiência em outro texto. Na manhã do dia seguinte tentei elaborar meu planejamento: hoje vou estudar preciso me inscrever em um curso online, pausa de 20 minutos para exercícios diários, o que eu tinha que ler mesmo?


Entre a tentativa de executar meu cronograma “produtivo”, também participo das atividades cotidianas de casa. Tento realizar pequenos reparos por onde passo. Meu Deus, como sou péssimo nisso! O armário fica ainda mais “bambo” e o chuveiro é quebrado em uma tentativa de limpeza, melhor não mexer mais em nada. Isso me causa mais aflição.


O tempo vai passando e não consigo executar o que planejei. Falta-me motivação e concentração, as tentativas de realizar o planejamento tornam-se fardos. Parece que estou forçando a barra para tentar ser útil, para me sentir útil.


Engraçado que me lembro das aulas ainda introdutórias de Sociologia e o conceito de Trabalho em Marx, definido aqui sua concepção de forma bem básica, como apropriação da natureza a fim de satisfação das necessidades humanas. Dessa forma o trabalho seria a materialização da atividade humana, tendo como importância seu processo de realização e o valor de uso de seus resultantes, desassociado da renda. Acho que me sinto pior ao pensar que nem o trabalho intelectual torna-se atrativo no presente momento.


Sempre aconselho as pessoas que gosto a não se cobrarem em relação a nenhum tipo de produtividade, ignorando sua capacidade de realização. Cito a preocupação prioritária com auto cuidado antes de qualquer ação, mas acho difícil seguir meu conselho.


A falta de “trabalho”, aquele rotineiro e até mesmo mecânico (e olha que trabalhar em ONG prestando serviço público a dinâmica é bem diferente de trabalhos comercias), me incomoda. Moldei meu corpo e minha mente para naturalizar a situação do trabalho convencional, ou melhor, moldei e fui moldado.


Nunca fui muito conhecedor de Foucault (até convido meu amigo Marco a aprofundar tais conceitos), mas em sua construção dos processos disciplinares da sociedade moderna o autor reflete sobre o papel das estruturas sociais na coerção dos sujeitos. O corpo é visto por ele como objeto e alvo do poder. As instituições sociais “disciplinam” o corpo a aumentar sua força enquanto utilidade econômica e diminuir a força em termos políticos. Os corpos “dóceis e úteis” auxiliam na manutenção da ordem vigente. Por mais que me imagine crítico, acreditar que não sou útil é desconfortável. Isso me angustia. Esse sentimento parece mais uma forma sistemática da manutenção de uma estrutura que associa utilidade a algo comercial. Lembro-me do desemprego, onde a sensação foi ainda pior.


Sempre reclamamos de falta de tempo, mas quando temos tempo, parece que falta algo a mais para realizar certos projetos. Não gostamos da rotina, mas as tentativas de modificá-la são igualmente rechaçadas. Eu não gosto dos padrões motivacionais de “Só depende de você” e das estratégias de realização pessoal (os Coachings estão na moda), não que eu ache que individualmente tais estratégias não podem lhe ajudar esporadicamente, mas acredito que os problemas têm que ser observados com maior profundidade. Não podemos isolar o ser humano de seu contexto. Como me disse o caro Haron, idealizador desse blog, quando não se tem capacidade de exteriorização, a gente fica sem interiorizar certos objetivos. Tal pensamento abre muitas margens para reflexão, mas simboliza a presente dificuldade.


Pensar que isso é algo coletivo me tranqüiliza. Não que eu deseje esse incômodo para outras pessoas, mas acredito ao pensamos sobre o assunto buscamos sua origem, não combatendo naturalizações. Compartilhar idéias me ajuda, espero que ajude vocês.


Sei que a quarentena passa para cada um de forma diferente. Sei que as inquietudes e as reflexões são muitas, não quero unificar os problemas nem propor soluções simples. Também não vou ser hipócrita de falar que estamos todos juntos (já soltamos muitas mãos), ninguém melhor que você para saber onde o calo aperta, porém se eu puder aconselhar sobre algo, respeite seu corpo, seus limites e tempos, principalmente relacionado ao lado psicológico. Acredito que é o melhor conselho que posso sugerir, mesmo que eu não o siga.


Referência:

Foucault, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão; tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis, Vozes, 1987. (Terceira Parte – Cap1: Corpos Dóceis)



Heythor S. Oliveira


Cientista Social (UFSCar), Mestre em Ciência Política (UFSCar)  e especialista em gestão pública municipal (Unifesp). Trabalhador do SUAS e morador da Zona Sul da capital paulista. Falo sobre politica e assuntos diversos . Tentando acreditar em um mundo melhor, me ajudem.





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