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Quem foi que falou que a Globo não mostra?

Quinta-feira, onze e pouco da manhã. Excepcionalmente, realizo um atendimento presencial em meu Serviço com Dona Hermínia (nome fictício). A recomendação é não realizar os atendimentos presencias durante o período, orientação mais do que o necessária durante a quarentena, mas acabamos prestando alguns atendimentos principalmente para população que não tem acesso (ou que não tem familiaridade) com a internet. Sra. Hermínia, moradora de uma dentre as várias periferias da zona sul de São Paulo, precisou de ajuda para verificar a situação do auxílio emergencial que constava “em análise” (Já diria Felipe Amador a alguns posts atrás).


Trabalho em um serviço de medidas socioeducativas em meio aberto. Acompanhamos o processo socioeducativo de adolescentes que cumprem medidas judiciais. Em termos gerais, atendemos um público em vulnerabilidade. Aqui não estou canonizando meus atendidos, muito menos apoiando diversas ações realizadas por eles, porém, é nítido que para chegar até mim, houve uma constante negação de diretos em suas vidas (Deixaremos o assunto para próximos textos). Além de adolescentes cumprindo medida, fazemos acompanhamento das demandas sociais dos familiares, e de certa forma, acabamos atendendo a comunidade ao seu entorno quando solicitados.


A TV está ligada em uma das salas e de minha mesa escuto pelo jornalismo da Rede Globo que descreve queda no percentual de pessoas em isolamento na capital paulista (a Globo mostra!). Relatam a realidade de alguns bairros que parecem ignorar a orientação. A recomendação é a mesma: “Se puder, fique em casa”, algo FUNDAMENTAL durante nosso período de crise, mas faço algumas considerações visando evitar climas de revanchismo ou culpabilidade a determinados grupos sociais.


Em entrevista recente à Revista Carta Capital, Ferréz escritor que descreve com maestria e poesia o cotidiano das “Quebradas” da zona sul paulistanas, relata a falta de dinheiro como um dos fatores que leva a população mais pobre a buscar as ruas. O autor também reprova a esquerda brasileira por se preocupar em criticar o presidente em exercício, mas deixa de lado a mobilização das bases.


Reforço que não estou tentando relativizar a necessidade de ficar em casa, trato aqui de um elemento imperativo! Tanto na ordem legal, com importância da restrição a abertura de comércio evitando aglomerações, quanto na recomendação de proteção pessoal e das pessoas a quem você ama. Ficar em casa não é algo descartável! é o contra-golpe que temos para uma doença ainda pouco conhecida e altamente transmissível.


Porém, gostaria de trazer duas reflexões pessoais, as duas surgiram a partir de inquietações posteriores a conversas com as “Senhoras Hermínia” e muitos outros personagens que vivem nas realidades periféricas de nosso país. Tratasse de considerações a serem feitas para buscamos maior entendimento sobre frases como “a favela age como se nada estivesse acontecendo”.


Inicialmente, não gosto do discurso de pura inocência, ele tende a ser associado à fraqueza e isso é pouco visto no dia-dia de quem sobrevive em realidades periféricas. As “Quebradas” sabem da atual pandemia. Pode até haver confusão de informações, propagação das ditas Fake News, ou pouca clareza sobre os efeitos da doença (afinal, não está claro nem para Brasília!), mas esses efeitos não possuem filtro de classes, ocorrem de Alphaville à Cidade Ipava.


Também não seremos hipócritas. A periferia não está saindo de casa apenas para trabalhar, o campinho aqui perto vive lotado, a circulação nas ruas também é intensa. Os tão famosos “Bailes” também não foram totalmente abolidos, e isso a Globo mostra! Além de ver pela TV, também sabemos de tal realidade por experiência própria, por relatos ou até mesmo pela reprodução de nossas crenças pessoais que padecem de buscar a verdade, mas reafirmam nossos preconceitos.


Vamos aos fatos: na periferia falta muita coisa. Faltam serviços, faltam acessos, faltam oportunidades. Em linhas gerais a estrutura pública é pequena e a privada é restrita. Estou generalizando como forma de observação, não se trata de recorte específico, mas de entendimento mais amplo.


- “Ainnn Heythor, mas lá tem doação de cestas básicas e o governo da o Bolsa Família”.


Falas como essa costumam estar associadas àquelas crenças pessoais acima citadas de pessoas que desconhecem os programas sociais e a atuação de ONGs locais, também tem pouco discernimento do que de fato é uma “Cesta (não) Básica”, e nunca viveram (ou com toda certeza, não viveriam hoje) com R$ 190,00 (Valor Médio do BF), mas essa, especificamente, não é minha reflexão de hoje. Baseado em tal realidade a relação da população com a “rua”, com o externo, é totalmente distinta (o que fomenta outras reflexões), além disso, a relação de sobrevivência também é diferente. Logo, o alcance de mobilizações como a do “Fica em Casa” também exige peculiaridades (será que é possível ficar em casa?).


Chegamos ao segundo ponto, à sociedade “Média” cobra empatia e entendimento de preocupação enquanto cidade, enquanto país, quando dificilmente mostra empatia (estende a mão). Cobra consciência, cobra mobilização, mas tratam com indiferença por boa parte do tempo os considerados “não comuns”. Será que o momento atual se trata de uma empatia real ou um sentimento egoísta de cuidado próprio?


Ressalto eu não estou criticando as boas ações, as redes de solidariedade nem os inúmeros auxílios de CPFs e CNPJs tão necessários à população pobre de nosso país. Mas até agora, e enquanto tais práticas não se tornarem ações públicas, tal auxílio não será suficiente. Concordo que em cenários de crise, a expectativa é o aumento da empatia e de solidariedade, mas como falar de um país que convive com tanta desigualdade, com uma pobreza tão visível, que ele não vive em “Crise” para além da pandemia do Covid19? A ferida social é mais embaixo.


Tais reflexões geram muitos outros assuntos, que não serão abordados hoje, mas era necessário compartilhas minha inquietude. Concluo observando que a Rede Globo até mostra, só não se aprofunda e isso não podemos deixar de fazer. Dona Hermínia, por favor, fique em casa, muito mais pela senhora do que por mim, mas se não puder ficar, fique firme! De sobrevivência a senhora entende muito mais do que eu.



Heythor S. Oliveira


Cientista Social (UFSCar), Mestre em Ciência Política (UFSCar)  e especialista em gestão pública municipal (Unifesp). Trabalhador do SUAS e morador da Zona Sul da capital paulista. Falo sobre politica e assuntos diversos . Tentando acreditar em um mundo melhor, me ajudem.




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