To play, press and hold the enter key. To stop, release the enter key.

No painel de hoje 
Buscar
  • Painel

Ressaca Eleitoral

Não poderia deixar de escrever sobre minhas impressões finais deste ano eleitoral. Aliás, eleição bem atípica que, em meio a um período pandêmico, identifico adaptações alternativas relacionadas as campanhas online, mas também prejuízos ligados a falta de debates, por exemplo.


Entusiasmo, satisfação, desapontamento - convivi com muitos sentimentos durante o período. Ainda anestesiado, acredito que devemos equilibrar fatos positivos e negativos resultantes deste pleito para avaliações gerais.


Antes de falar do cenário local, gostaria de apontar “reticências” as análises gerais jornalísticas e de alguns de meus colegas da ciência política sobre vitoriosos e derrotados nas eleições. Evidentemente, há fatores numéricos inquestionáveis para análises eleitorais como o número de votos e eleitos, porém conforme já defendi em outros textos que há múltiplas considerações a serem verificadas em uma eleição como contexto, tendências e organização, entre outros.


Em todas as mídias telejornalísticas, pude observar um “consenso” ligado ao grande vitorioso das eleições como o espectro ideológico/eleitoral de “Centro”. Não estou aqui negando os números nem as evidências claras: Partidos como DEM, PSD, PP, PL e MDB (esse mesmo com queda explicita no número de prefeitos eleitos) foram destaque conquistando grande número de prefeituras, inclusive capitais e cidades importantes do país. Porém, critico a ideia que se estabelece nelas de “Centro”, não em relação ao seu nítido crescimento, mas sim a difusão deste como alternativa racional viável ao processo eleitoral para combater supostos “Radicalismos”.


Primeiramente, o termo “Centrão” vem do jargão de autodenominação de grupos partidários dominantes na Câmara Legislativa Federal que se relacionam à dicotomia analítica que distingue governo e oposição. São característicos do grupo parlamentar majoritário que, recebendo estímulos, apoia a base governista, mas tem pouca fidelidade a este em situações políticas desfavoráveis.


Em termos ideológicos, mesmo ponderando as inúmeras especificidades organizativas e regionais da política nacional, e considerando a fluidez ideológica de nosso sistema partidário e dos atores políticos, destaco que esses partidos têm origem, história e trajetória ligadas as instituições reconhecidamente conservadoras inseridas em grupos tradicionais no país. Aqui explico: DEM é o antigo PFL que é uma dissolução do PDS que sucedeu a ARENA partido dominante na Ditadura Militar. O PP é o partido dominado por Paulo Maluf durante grande parte de sua trajetória política no período democrático. O PSD é uma junção de quadros como o próprio Kassab. Esses partidos fizeram parte do governo e da oposição de forma intercalada nos últimos 20 anos da política nacional, conforme conveniências propostas. Essa denominação de “Centro” ganhou força no período de Redemocratização, e fez parte inclusive de análises da Ciência Política que descrevia o afastamento de discurso pela dita “Direita Envergonhada”, posterior ao Regime Militar (argumento que vem sofrendo alterações com tempo).


Neste caso minha crítica não vai exatamente a esses políticos, nem a própria “direita tradicional” brasileira, que aqui parece muito mais associado a um conservadorismo de costumes e a defesa de Status Quo do que a ideologia política de direita, mas as consequências que a ideia de “Centro agregador” pode causar.


A difusão da ideia de que o “Centro” venceu a eleição em oposição aos radicalismos expõe impressões de uma dicotomia construída e imprecisa. Após o fracasso do governo Bolsonaro na condução econômica e no militarismo político (de combate ao inimigo invisível), criou-se a ideia de contraste entre a representação da política de Bolsonaro com os governos Petistas, simbolizados na figura de Lula. Tal contraste opõe de forma simétrica: o PT (pulverizando impressões aos partidos de esquerda como um todo) e o Bolsonarismo (em toda sua representação), como se fossem polos radicais em um plano linear. Não é apenas a mídia tradicional que faz isso; o governo Bolsonaro se utilizou dessa estratégia para eleição (e o PT?), o PSDB utiliza desse argumento (Anti- Radicais, mas a polarização até 2014 não era Azuis X Vermelhos?) e os próprios partidos de esquerda também reproduzem essa retórica (o Bolsonarismo foi derrotado em 2020!).


A retórica indica que o eleitorado teria que “fugir de ideologias” para resolução dos problemas políticos nacionais. Nesse cenário, o “Centro” se vende como racional técnico e propositivo. As contradições aparecem nessas categorias - não que a negociação política não seja característica desse grupo político, mas há um esquecimento do papel histórico deste “Centro” relacionado a oportunismos políticos. Tais partidos foram bases governistas durante longo período do próprio governo Lula, o que contradiz alcunhas de radicalismo do Petista. Talvez “Radicalismos” em um país como o nosso se relacionem mais a um interesse político egoísta do que aspectos ideológicos.


Há também aspectos de negação da política ideológica (Apolítica) que aproxima as renegações como a Ultrapolítica (que difunde ideia de embate militar) e Pós-Política (Política enquanto gerenciamento simplesmente técnico). O Bolsonarismo e a representação presente do “Centrão” reproduzem muito desta lógica, que tem o aspecto da negação ideológica em comum. Observo as duas lógicas como disputa evidente em 2022, e tenho muito receio de ambas as alternativas, mas isso é assunto para outro texto.


“Para não dizer que não falei das flores”, acredito que houve perspectivas positivas para a esquerda, porém os mesmos têm que ser destacados com ressalvas. Já citei anteriormente a passagem de Boulos/Erundina para o segundo turno como uma vitória principalmente pelo retorno as bases e a difusão de campanha. No segundo turno, destaco aspectos positivos para a esquerda em São Paulo como a vitória em bairros periféricos da capital, retomando tradição de militância periférica. Houve construção de um projeto, mesmo que apenas durante a campanha, estabelecendo uma alternativa viário a disputa eleitoral. Nacionalmente, há pouca coisa a ser comemorada fora eleições especificas como em Belém (PA).


Destaco como negativo, no cenário local do mapa eleitoral, o grande apelo na capital ao combate à esquerda (dita como radical) entre bairros da elite e classe média. Algo histórico e previsível, mas que reproduz uma lógica que perpetua grupos políticos no estado. Pior que tal perpetuação é a própria reprodução de retórica que, hoje, aproxima grupos ideológicos de direita com conservadores clássicos, liberais econômicos, trabalhadores que acreditam no American Dream, além de quem nega a política, mas rechaça mudanças entre muitos outros grupos que formam uma resistência ao pensamento ideológico de esquerda. A classe média como um todo ainda demonstra em discursos e defesas que parecem empáticas a sua atual situação, temendo algum imaginário de perdas que poderiam ser causadas por grupos políticos distintos. Pouco se pensa e critica as mazelas que a falta de política publicas causa para a sociedade como um todo (inclusive para quem não precisa delas). Há necessidade constante de construção politica para combate desta visão.


Outro ponto marcante foi às abstenções. Claro que em um contexto de pandemia, até se esperava que determinados eleitores não exercessem seu direito/dever de votar. Porém, o dado não é isolado e a taxa de abstenção vem crescendo como um todo no país nos últimos anos. Isso me faz refletir sobre o engajamento real na política institucional. As novas mídias possibilitaram difusão dos debates, opiniões e associações, porém eles não foram revertidos em engajamento eleitoral. As construções para além das eleições podem ser alternativas, mas reforço a importância da disputa institucional pela fundamental diferenciação que formas de governo repercutem no dia-dia. Política não é só eleição, mas eleição não pode ser excluída de seu contexto.


Já antecipo criticamente uma possível alternativa que defenderia o voto não obrigatório. Em nosso país de tradição autoritária e experiências democráticas muito específicas, o voto não obrigatório talvez reproduzisse ainda mais o elitismo já existente na eleição, por isso não se estabelece como um ponto de engajamento autônomo.


Termino esse texto finalizando o ciclo de debates políticos desse ano. Talvez seja um de meus textos mais controversos, pois envolve desabafo e observação em um ano totalmente atípico, mas me sinto muito mais motivado do que em 2018, por exemplo, pois acredito que há necessidade de uma reflexão dentro desse momento atual. Agradeço demais a troca de ideias e leituras entre amigos durante todo processo eleitoral.

Referências Bibliográfica

SOUZA, Maria do Carmo C de. A Nova República sobre a espada de Dâmocles. In: STEPAN, Alfred. Democratizando o Brasil. São Paulo: Paz e Terra, 1988.


FERNANDES, Sabrina. Sintomas Mórbidos: A encruzilhada da esquerda brasileira. Autonomia Literária; 1ª edição, 2019,


Heythor S. Oliveira

Cientista Social (UFSCar), Mestre em Ciência Política (UFSCar) e especialista em gestão pública municipal (Unifesp). Trabalhador do SUAS e morador da Zona Sul da capital paulista. Falo sobre politica e assuntos diversos . Tentando acreditar em um mundo melhor, me ajudem


ilustraçao capa: Google apps

126 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo
O que você achou dessa exposição ?
APOIE A NOSSA CAUSA
Deixe uma doação única de R$10
arrow&v
logo painel.jpg
logo painel.jpg