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Roleta Russa

Sentado na cadeira de balanço, a luminosidade exposta é de penumbra, nem tão escuro nem tanto claro. As cigarras cantam como de costume para o horário. Desavisadas, aproveitam do por do sol até a morte. Entregues à arte cantam até o ultimo suspiro. Toda cigarra morre no palco.


O canto já reverbera de maneira natural nos ouvidos. Na mão esquerda um cigarro que se queima na sutileza do vento, poucas vezes levado a boca. Os cigarros morrem com os tragos. A mão direita segura um revolver, calibre 38, prata e de cano longo, carregado com uma bala no seu tambor, quinze por cento de chance de funcionar. A falta de certeza entre a vida e a morte; o jogo mais perigoso de todos; roleta russa.


Nessa situação os pensamentos são opacos e duvidosos, confusos. A mão treme, as cigarras cantam e o cigarro não se apaga. Com a mão esquerda e um movimento de afago ele gira a roleta do revolver. O barulho é ensurdecedor e, de modo repentino, para - “Clark”.


Leva a arma à cabeça e pensa: é agora meu fim? Aperta o gatilho, segura o ar, e escuta: “tuc”.Nos dias de chuva, se ouvem primeiro os trovoes, se si escuta o seu barulho é que não se foi atingido. A velocidade da luz é maior que a do som, mesma logica se aplica a um revolver na cabeça. Ao escutar o barulho, se comemora a vida e um mar de reflexão se aflora: qual caminho se traça para esse fim?


Mais um cigarro. As cigarras já deixaram de cantar. A noite já despertou e com ela trouxe a escuridão. Uma luz de vela ao lado da cadeira de balanço é acessa. Por um momento a arma é deixada na cabeceira. Ao lado do fogo da vela e de um copo de aguardente.


Aguardando respostas se deleita em nobres goles, os quais confundem ainda mais sua percepção. Turvo e mais tremulo segura o revolver de maneira desajeitada, o derruba no chão e o esquece. cantarola musicas felizes. O álcool o transportou para um conforto artificial.


As lembranças já não o perturbam mais. Quem sustenta o nosso estado de lucidez senão as perturbações e o medo? quando se vive no limite, se mergulha na loucura, se esquece as amarras do lucido, embriagado na loucura, ri sem sentido, passa a mão no cabelo sujo, tira a camiseta, um calor surpreendente se faz presente. Seu estado é de completa confusão, chora, ri, respira, canta. Sozinho se opõe ao pavor e ao medo e continua a dar satisfeitos goles na garrafa de bebida.


Sonolento, repousa sua cabeça na cadeira, vislumbra o revolver. Lagrimas enaltecem sua expressão de dor, arremessa a garrafa longe. Os estilhaços de vidro produzem um barulho agudo, as lagrimas se acentuam.


Levanta em direção a um pedaço de vidro. O pega, com a sutileza necessária. Corta levemente seu braço. O fervor de sangue e a sua temperatura quente produzem uma sensação de penitencia. Gotas escorrem entre seu braço e o chão. Senta-se de novo na cadeira e acende mais um cigarro. O tempo é mero detalhe em situações extremas. Sua visão não se ocupa mais de certezas. Remoto e pálido, salivando como se pedisse água. Qual caminho se traça pra esse fim?


Desnorteado pelas próprias ações se seduz novamente pelo brilho do revolver. Se levanta cambaleando e o pega em um gesto de vigor. O levanta pra cima e aperta o gatilho mais uma vez – “tuc”. Quisera o destino que o tiro não fosse para o acaso, estaria a bala reservada para o trágico. Reduz seus pensamentos a isso e congela.


A noite se adentra pelo frio costumeiro das madrugadas de inverno. Sem camiseta o corpo acusa o corte, o frio, o medo , o álcool, e tudo mais que não pusera enfrentar. Enfraquecido, deita ao lado da cadeira e da cabeceira. O chão ajuda a curar os tremores que sua mente lhe propõe.


O piso gelado o acolheu e, por longos minutos, não pensou em nada, apenas existiu. Meditou de maneira legitima. Ser pequeno era tão gratificante. Sonhou em ter tanto na vida: empresa, carros, pessoas de renome em sua volta. O tivera conquistado, mas agora ali, na sacada gelada, se via abraçado pela temperatura agradavel do chão. Nada mais daquilo lhe importava. Qual caminho se traça pra esse fim?


Ofegante senta de maneira ereta, respira algumas vezes em conjunto com a maturidade de querer viver. Os seus erros não condenam mais de maneira agressiva, pelo contrario, sentia vergonha de ter se sujeitado a tamanha situação. Revê que a importância do continuar. Com a luz da vela queima o bilhete que guardara no bolso esquerdo da calça jeans. Levanta e absorve aquele momento como um marco. Encaminha-se pra dentro de casa e, como em um único movimento, desmaia sobre um sofá no primeiro cômodo que encontra. O sono o recupera para um novo dia. A vida segue.


Nem sempre a roleta russa não funciona ou o corte não é profundo o suficiente. Muito menos a sacada confortante. Desfechos como esse acontecem diariamente no Brasil e no mundo. A depressão assola como nunca e não é devidamente tratada. Os entraves da falta de comoção e empatia se acentuam com a falta de diálogo e de respeito. Tenhamos o direito de trilhar nossos caminhos e nossas paixões de maneira genuína e própria. Saúde mental é o néctar de uma sociedade sadia, devemos nos empenhar nisso e no apoio àqueles que precisam.


Dia 18 de maio se comemorou a luta anti-manicomial, símbolo importante para enfrentar as mazelas da psique, hoje se sabe que as doenças que mais prejudicam o homem tem essa origem, sobre as dimensões da incapacidade me remeteu ao quanto uma mente em pleno funcionamento é importante para um desenvolvimento interno e externo, sejamos atentos a nossas sensibilidades.


Depressão não é graça e suicídio não é brincadeira. Cuidemos uns dos outros .




Haron Francelin


Bacharel em Ciências Sociais, graduando em Direito. Fazer voz é observar o tempo, entusiasta das palavras.




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