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Saudosismo às avessas

Saudosismo é uma sensação de saudade idealizada, vivida ou imaginada, real ou irreal, que se associa a um desejo de regresso.


A princípio acredito que saudosismo ou ate mesmo nostalgia se remetem a sentimentos bons. O cheiro de café que relembra a casa da Vó, a música infantil cantada pela mãe, os momentos de craque nas quadras de futebol da escola (Não necessariamente reais), formam lembranças que facilmente são associadas a bons momentos da vida, a saudade de tempos vividos e construídos no imaginário como períodos de maior prosperidade.


Porém, acredito que esse sentimento pode se tornar algo danoso quando tentamos enquadrar nossas expectativas atuais a realidades passadas ilusórias. Se a construção do meu imaginário sobrepõe minha visão critica sobre o real, passo a construir histórias que justificam meu desejo em transformar minha narrativa particular em entendimento geral. Não adianta eu culpar exclusivamente o destino por não ter sido o craque do futebol que imaginava que seria, provavelmente, alem de uma serie de fatores envolvidos, faltou o principal, a habilidade para o oficio.


Outro exemplo dessa valorização de um passado inexistente trata-se da defesa do período de Ditadura Militar como algo positivo. Destaco a nocividade de um período em que houve concretamente um governo ditatorial que permitiu censura e coerção, alem de concentrar poder e atacar direitos civis (mortes, desaparecimentos, perseguições e tortura por motivos políticos, já reconhecidos como métodos do regime) e políticos de forma clara.


Dessa forma, não relativizo os danos do período. Qualquer tipo de comparação que visa amenizar os estragos da época como a defesa do termo “Ditabranda”, ou comparações com outros regimes ditatorias como forma de satisfazer a devoção particular por políticas autoritárias, justificando que garantia de ordem como garantia de liberdade (Já dizia George Orwell Liberdade é escravidão), banalizam o sofrimento de muitos envolvidos durante os conflitos do regime.


Também convivo com a natural desconfiança relacionada à falta de Experiência pratica. “Você é contra o Regime Militar pois não viveu o período”, um fato, afinal nasci no regime democrático, nasci após muitas batalhas em prol da redemocratização já terem sido travadas. Porém não e necessário viver o período de escravidão, por exemplo, para saber suas mazelas. A leitura lhe permite conhecer realidades ate então desconhecidas entendendo seus efeitos. Nesse sentido tive mestres que me auxiliaram na busca por aprofundamento pelo tema que somado as minhas vivencias como, filho, neto, aluno, amigo e ouvinte de quem tem histórias do período, constituem minha identificação com a temática. Impossível não lembrar o artigo da Ana citando músicas de resistência:


Você que inventou esse Estado

Inventou de inventar

Toda escuridão

Você que inventou o pecado

Esqueceu-se de inventar o perdão

( Apesar de Você - Chico Buarque, 1978)


Musicas assim me lembram a infância na casa de meus pais, que tempo bom! Olha eu sendo saudosista.


Mas voltando ao tema principal, observamos hoje defesa do Regime Militar por certos setores da sociedade como tentativa de conservação de uma dita “ordem e bons costumes”, além de justificativa como época em que as leis eram cumpridas e houve prosperidade econômica. Cada argumento desses se relaciona a uma construção particular de Pós-Verdade (Criação de argumentação com apelo crenças próprias que atrapalham o senso crítico).


Os tais “Bons Costumes” nada mais é do que uma tentativa de valorização de um passado vivido ou ainda desvalorização do presente, como a prática apresentada no filme “Meia Noite Em París”, em que o protagonista acredita que tudo no passado foi melhor. Acreditem, se bons costumes se ligam a uma ordem sexual restritiva ou algo do tipo, nos anos 70 a Putaria já rolava solta! Então tal defesa é ilógica. Essa valorização do passado é algo corriqueiro, mas não pode nos cegar. Para mim Winnig Eleven 2002 é o maior jogo de futebol da história, defendo isso com unhas e dentes, mas não posso ignorar o fato de evolução continua dos jogos posteriores inclusive entendendo argumentos variados que se opõe a minha preferência pessoal.


Sobre as leis serem cumpridas, até foram, se você considerar um ato legalista tortura e opressão. Entenda que cumprimento de lei não é só execução do que esta escrito no papel ela precisa se relacionar a realidade social, se não se torna apenas mais um instrumento a controle por parte dos donos do poder (E que tal essa sugestão de tema para meu amigo Haron debater?). O regime militar ele atendeu esse aspecto de “Legalidade”. Tornava legais ordenamentos jurídicos impensáveis pra uma lógica democrática, na tentativa de transparecer um regime que “segue regras”, porém, a regra vigente era do autoritarismo.


Em relação a prosperidade financeira , o tal do Milagre Econômico”, qualquer pesquisa pode revelar as conseqüências relacionadas a divida pública posteriores.


Outra defesa ao período se estabelece pelo apoio de setores civis a ele. Isso é um fato que se manifesta na nomenclatura “Ditadura Civil-Militar”. Eu não gosto muito desse termo. Nesse sentido indico um texto (Adieu à la dictature militaire?) de um antigo professor, João Roberto, com grande bagagem de estudo sobre a temática que defende que se a lógica do regime era militar a transição de poder foi apenas entre militares e considerando também a resistência de outros setores a ditadura, define-se a nomenclatura de Regime Militar (civis pouco apitavam la). Destaco também que governos ditatoriais possuem estratégias populistas para manutenção do poder, algo visível na grande ilha de Vera Cruz (Vamos juntos vamos, pra frente Brasil!).


Hoje observamos manifestações que defendem o retorno dos militares como solução para o “Salseiro Político” que estamos atravessando. Gente se manifestando em um regime democrático, pedindo a volta de um regime ditatorial ! Sim, isto esta acontecendo, mas para alem do meu sentimento tragicômico sobre tais manifestações, surge minha principal inquietação sobre o tema. Muito do desconhecimento sobre o Regime Ditatorial é resultado de uma estratégia intencional de minimizar seus efeitos enquanto período de Coerção e violência. E isso não parte apenas de relatos pessoais, mas também do aspecto legal. A lei de Anistia nada mais foi do que um “Perdão Geral” para os atores envolvidos nos conflitos da época. Traduzindo pro bom português, “Passamos pano pra Geral!”. Isso faz com que os malefícios causados sejam minimizados e até esquecidos. Há bastante produção sobre o tema na academia, mas é necessário maior debate sobre seus danos para alem desses espaços. Nisso torna-se fundamental a ação de órgãos como a Comissão da Verdade com seu papel de apuração das diversas violações ocorridas e encobertadas até hoje.


De tempos em tempos também observamos manifestações de militares e ex-militares exaltando o período e até justificando a necessidade do golpe, o que se torna mais um apelo a argumentação de que o tema não esta finalizado sendo necessárias novas apurações.


De tempos em tempos também observamos manifestações de militares e ex-militares exaltando o período e até justificando a necessidade do golpe, o que se torna mais um apelo a argumentação de que o tema não esta finalizado sendo necessárias novas apurações.


Contrariando a senhora Duarte, alguns corpos precisam sim ser desenterrados e a “autopsia social” é uma das únicas defesas que temos para evitar cometer erros passados.


Referencias Bibliográficas.

MARTINS FILHO, João Roberno. Adieu à la dictature militaire?. Brésil (s). Sciences humaines et sociales, 5, p. 2003



Heythor S. Oliveira


Cientista Social (UFSCar), Mestre em Ciência Política (UFSCar)  e especialista em gestão pública municipal (Unifesp). Trabalhador do SUAS e morador da Zona Sul da capital paulista. Falo sobre politica e assuntos diversos . Tentando acreditar em um mundo melhor, me ajudem.




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