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Toda quarentena tem seu fim.

Primeiramente, gostaria de deixar claro o que esse texto não é. Ele NÃO é um convite à rua, nem uma falsa consideração de que tal quarentena foi estabelecida por uma gripezinha. Os números da Covid não param de crescer e assim batemos recordes diários em nível nacional de infectados e mortos. O vírus continua circulando e o isolamento ainda é a única arma comprovada que evitar sua proliferação descontrolada. Mas, para além das #Hastags, realidades têm que ser observadas e interpretadas.


Então... O que é? O que é?


É uma constatação: a quarentena acabou. Não falo isso por definições meramente governamentais parece que aqui em São Paulo ainda teremos algo nomeado de “quarentena” por pelo menos por mais 6 meses, seguindo a lógica das “Fases e Cores”- mas sim pela percepção ingênua e simplista baseada em observações individuais. O comércio reabriu, há movimentação nos shoppings e aos poucos a rotina de trabalho segue a mesma orientação. Para quem não acredita em reportagens, nas imagens da internet e no relato presente (que como toda informação merece questionamento e aprofundamentos), basta uma caminhada em qualquer centro comercial local para averiguar tal comentário. Mesmo assim, foi superada, nessa semana, a casa do 1.200.000 casos e dos 55.000 mortos nos números oficiais.


Evidentemente que qualquer flexibilização prática do isolamento em tal contexto é prematura. Fora os números crescentes, a grande subnotificação em relação aos casos de infectados e mortos (mapeamento apenas na capital paulista prevê mais de 1 milhão de infectados!) há grande desconhecimento sobre o Corona Vírus – Uma vacina funcionará, os anticorpos garantem imunidade? Há um período para essa tal imunidade? Muitas questões permanecem como problemas científicos que seguindo seus princípios metodológicos precisam de tempo para comprovação e descarte de hipóteses.


A impressão que fica é: infelizmente não vai haver tentativa de reversão nas prováveis mortes futuras e de qualquer retomada a um quarentena real seria uma ação muito mais dificultosa posteriormente a flexibilização atual.


Na calada ela vem,

Refém da vingança,

Irmã do desespero,

Rival da esperança


Mesmo assim, uma hora ela ia acabar. Por mais que os reflexos externos sejam expostos na TV, no WhatsApp, na propaganda do Youtube, nas Lives, nas conversas de família e outros múltiplos meios de comunicação, por mais que ela continue sendo difundida pelo país, por mais que ela mate diariamente, por mais que ela continue refletindo em nossas relações socias e permanece no imaginário e na prática individual, a quarentena iria acabar e há constante busca à “normalidade”. Entenda aqui normalidade por regularidade. Nada é normal nessa vida, então trato aqui da busca pela dinâmica de vida anterior.


Eta mundo bom de acabar!


Parece que houve tentativa diária de acabar com quarentena, uma verdadeira sabotagem a qualquer isolamento social como se ele fosse o culpado, não o meio, para evitar contaminações e óbitos. Essa resistência parte de dois movimentos complementares e simbióticos, um de caráter individual e o outro coletivo.


Primeira, que considero primordial, parte do descaso público das autoridades políticas sobre a gravidade pandêmica. Não houve unidade, o planejamento foi confuso (Planejamentos locais, pois em nível nacional acredito que ele nem exista) e políticas de proteção social foram insuficientes para a realidade brasileira. Claro que o comparativo com outros países não se sustenta por termos partido de uma realidade penosa, porém, em momentos de crise geral, essa realidade é exposta de forma notória.


A segunda parte da motivação individual. Falta de consciência e senso crítico sobre as possibilidades de infecção e transmissão da doença. Essa está intrinsecamente ligada à primeira, pois envolve entendimento político. Também é possível identificar algumas características nesse processo que ignorou a possibilidade de colapso pela doença: Descrédito à ciência, muito por não entendê-la (ué mais o pico não seria semana passada?); dificuldade de mudança a partir de novo contexto (sempre fiz isso e nunca morri); reprodução de frases prontas para não pensar sobre um tema (transito mata mais do que o corona, como se categorias de morte estivessem em confronto).


Acorda,

Pensa no futuro,

Isso é Ilusão


Acredito que esteja claro como considero que o isolamento foi e ainda é fundamental para impedir um cenário coletivo ainda mais devastador e agradeço todos os esforços para tal. Mas também me preocupo com cenários revanchistas desconsiderando contextos ou buscando acusações ao invés de construções. Citei em “O Animal Político e o Direito” a admiração política sobre a necessidade de entender o pensamento oposto para não criar antagonismos pessoais. Continuo com mesmo pensamento.


Não sejamos genéricos, a pandemia e a quarentena chegaram de formas distintas para todo mundo. Convivi com gente que aumentou a quantidade de “roles” desconsiderando a recomendação de evitar aglomerações, ignorando realidades e com gente que não saiu de casa nem para ir para o mercado e julgou que o fez, ignorando contextos. Não me cabe o papel de julgar nem apontar, mas tentei construir sínteses com quem pude. A quarentena também está sendo bastante difícil para mim e ainda não sei seus resultados posteriores.


Chuva cai lá fora e aumenta o ritmo,

Sozinho eu sou agora o meu inimigo íntimo

Lembranças más vem, pensamentos bons vai...


E o “normal” vai chegando. Claro que seguindo novas adaptações. A máscara parece item de vestuário. O álcool gel se tornou tão importante quanto carteira e chave (kit - rua). Percebo que mesmo com a “tentativa” para uma normalidade a pandemia também trouxe efeitos colaterais nas relações sociais. Vejo pessoas com “medo” de outras pessoas, como se a doença fosse parte do indivíduo.


Esses dias fui ao banco com minha avó, isolada há muito tempo, e observei o movimento duplo: ao mesmo tempo que há agonia e ansiedade por ficar em casa por tanto tempo, sem perspectivas de planejamento futuro, também há receio com a rua, com as pessoas e com o vírus que está por ai. O medo é um alerta fundamental sobre nossas ações, mas um de seus efeitos é a paralisia. Acredito que devemos evitar riscos, mas que isso não simbolize medo do outro.


Falando da minha amada vozinha, lembrei de uma recente brincadeira que fiz com ela, falando que a eu era o “carcereiro” e que iria levá-la para o banho de sol em uma rápida ida à rua. Ela me olhou sorrindo, sem dizer nada. Talvez soubesse que assim como o “presidiário” o carcereiro também se encontrava preso.


Eu sei, você sabe o que é frustração,

Máquina de fazer vilão

Esse blog foi/é a prova de que cada um teve/têm experiências individuais sobre o período. Reflexões, solidão, inovação, oportunidades, (in)oportunidades, muitos sentimentos foram expostos. Resta saber qual será o resultado prático dessas reflexões. Uma das minhas maiores admirações à teoria marxista é sobre o pensamento de práxis pela necessidade de coincidência entre a transformação das circunstâncias sociais com a atividade humana, a teoria-prática são concomitantes.


Se só de pensar em matar já matou,


Desejo força a todos nós envolvidos e afetados pela pandemia e exponho aqui minha homenagem as vítimas do covid19.


Lágrimas.


Jesus Chorou – Racionais Mc’s. Nada como um dia após o outro dia (2002)


https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/06/23/cidade-de-sp-pode-ter-12-milhao-de-infectados-pelo-coronavirus-aponta-mapeamento-da-prefeitura.ghtml



Heythor S. Oliveira


Cientista Social (UFSCar), Mestre em Ciência Política (UFSCar)  e especialista em gestão pública municipal (Unifesp). Trabalhador do SUAS e morador da Zona Sul da capital paulista. Falo sobre politica e assuntos diversos . Tentando acreditar em um mundo melhor, me ajudem.


Ilustração capa : G1- portal globo de noticias

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