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Tudo Junto e Misturado

O texto a seguir é um experimento. Uma tentativa de reunir, em sua composição, trechos de minhas três primeiras crônicas para o “No Painel”: Em Situação de Análise, A República de Quintal e O Homem Mais Rico do Mundo. O critério foi totalmente parcial. A única regra estabelecida foi de usar termos que estão presentes nas crônicas citadas para compor algo com o mínimo sentido, utilizando a repetição dos termos na quantidade exata em que aparecem nos textos. É uma bricolagem. Uma singela homenagem aos companheiros e companheiras, leitoras e leitores, que acompanham nossa trajetória nesses tempos difíceis, resgatando o caminho para criar algo novo, agora em fragmentos. Como a composição de um mosaico, em que a quebra de peças inteiras, forma-se um arranjo novo, único. Ou ainda, como as antigas coleções de “Lego”, cuja as peças contidas nas caixas temáticas do forte pirata, do castelo medieval ou da nave interestelar, juntas e misturadas, podem formar um dinossauro.

Não gostaria de escrever outro texto com uma concepção romântica a là Rei Roberto em seu Gurgel BR 800 azul piscina emprestado pelo primo. Vou falar de algo que gosto e muito: vou escrever sobre boteco. A cena é costumeira para a maioria dos leitores. Existia um boteco na rua Anita Stella, próximo ao Hospital Escola, o “Bar do Melo”. Não era um ambiente sofisticado como o clube Flor de Maio. O anfitrião era a principal atração do boteco. Na regência da churrasqueira, o português da região de Trás-os-Montes e Alto Douro, ofertando a picanha, linguiça e a tulipinha de frango, passou dos limites em uma competição de quem entornava mais pinga. Uma, duas, três vezes com a presença da malvada. Era rústico como uma igreja barroca das cidades mineiras, porém, gentil e humano. Os clientes eram os mesmos seis personagens, somados por estudantes que residiam nas proximidades. De presença mais discreta encontrava-se Felipe, seu cachorro, como um segurança de casa noturna, preocupado exclusivamente com a comida do estabelecimento, em situação de análise. O barulho difuso de uma caixa de som tocando uma cantora de fado, somando-se com a surdez parcial do simpático anfitrião, tirou a vontade das pessoas de fazer qualquer pedido ao nosso amigo. Todas estavam ocupadas demais comendo, bebendo, dançando e seguindo suas vidas. Menos Rodolfo, o dono da Amazon, o homem mais rico do mundo. Portando uma regata laranja que deixava a mostra a concavidade de suas axilas e um óculos grosseiramente espelhado, era imprevisível e barulhento como uma janela sasazaki. Visivelmente bêbado como um tomate, debruçado na extremidade da mesa cambaleante do estabelecimento, pedia um “rabo de galo” aos berros e deixava, sempre que possível, uma piada de gosto duvidoso aos entusiastas daquele ambiente. Depois de um longo silêncio, Melo finalmente dirigiu a palavra para o homem mais rico do planeta:


-Fale!


- E o pedido?


-Em análise.


- Vai demorar muito?


.- Uns quinze minutinhos...fera, espera no “x” da fila, fazendo um favor.

-Hoje eu mereço.


-Não existe cloroquina pra curar quem a gente é.


-Deus te abençoe.


-Amém.


Em outro ponto do discreto boteco da Anita Stella, no espaço reservado da mesa com especialidades, Felipe, imoderado com tantas opções na grelha, fizeram produzir um “pum” tão estridentemente alto que deixou os convidados corados, uma, duas, três vezes, tirando risadas de Jeff Bezos que tomava seu trago e rapidamente voltava para o trabalho, em seu caminho na busca de trilhões. Melo procurou visualmente um companheiro a fim de alguma resposta que o socorre-se do episódio constrangedor. Sem alternativas, quase se pôs a chorar. Resignou-se com a lembrança de um Felipe que outrora o respeitava. De até mesmo desempenhar um tratamento quase maternal. Esse fluxo de lembranças de outros tempos que se não eram-lhe necessariamente bons, pareciam agora minimamente saudosos, foi interrompido pela mesma TV tubular que só passava o “Brasil Urgente”.

Ao término do churrasco com a vinda de uma chuva fina, o bar ficou absolutamente vazio. O português legítimo, ao chegar com um ar desdenhado na cozinha, bocejou algumas vezes e começou a assoviar uma canção de Beethoven. Tomou seu café e passou para sua refeição corriqueira nos últimos tempos, o de comer pão com leite condensado. Batem no portão:


-Oi!


-Oi!


-Vizinha!


-Boa Noite Corona.


-Fiz uma fornada de pão de batata. Deixei na grade do portão. Não demore porque acabaram de sair.


-Bacana. Hoje eu merecia!


Sujeito esperto. Não consultou Deus nem Ave Maria no dia. No fim, o segredo é “caçar alegrias” no dry martini e no litrão.


“Para qjhucaiuairlaimu”

Felipe Cará


 Bacharel em Ciências Sociais pela UFSCar. Mestrando no programa de pós em Ciência Política (PPGPol - UFSCar), estuda Reforma Política, Sistemas Partidários e Legislação Eleitoral. Amante de gatos, filmes e gastronomia.


Verde: Em situação de análise

Vermelho: República de quintal

Azul: O Homem mais rico do mundo

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